“Deus pode ser um flamejante sorvete de cerejas”
Hilda Hilst foi uma ficcionista, cronista, dramaturga e poetisa brasileira, nascida na cidade de Jaú, interior de São Paulo, filha única do fazendeiro de café, jornalista e poeta Apolônio de Almeida Prado Hilst e de Bedecilda Vaz Cardoso. Em 1948, entrou na Faculdade de Direito pela Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), lugar onde conheceu a escritora Lygia Fagundes Telles (meu Top Cinco de Escritores Favoritos da Literatura Mundial), de quem se torna amiga até o fim de seus dias.
Nunca tinha lido nada da poesia de Hilda e esse livro foi meu primeiro contato com as palavras dessa poetisa dificílima de compreender. Impressionou-me o modo inquietante como a autora revela a sua angústia existencial, motivo, muitas vezes, de desassossego para os indivíduos inseridos nessa sociedade que padroniza os desejos, anseios e comportamentos, objetivando assim a manutenção de determinada ordem estabelecida pelo sistema, cuja estrutura se pauta em valores descartáveis em que reflexões filosóficas e emoções são consideradas sentimentos impessoais, não havendo espaço para a discussão daquilo que, além de desconhecido, oferece medo e intranquilidade.
Abordar o universo literário de Hilst implica deparar-se com uma literatura que engendra pensamento em que é possível aproximar a sua literatura com a filosofia, ainda que tal aproximação não aconteça sem algumas ressalvas. Não se trata de associar a literatura hilstiana a temáticas de interesse filosófico – embora seus textos tratem incessantemente de questões caras também à filosofia – e nem de afirmar que há uma filosofia na sua obra.
Trata-se, na verdade, de perceber como o universo literário de Hilst engendra novas formas de pensar e sentir, bem como altera certos paradigmas de vida consolidados. Assim, no meu entender, na poesia de Hilst o homem vive as convenções e ideais sociais e se utiliza de máscaras para fazer parte do mundo do ‘ser - aparência/ser - estar’, onde é realçado o sucesso, a beleza, enquanto valor estético, o consumo e a obediência a tais convenções.
Entretanto, ao mesmo tempo, notei na poesia da autora que é impossível a padronização do homem, pois ele é, a um só tempo, contraditoriamente, sublime e grotesco, motivo pelo qual ela trabalha com os sentimentos escondidos atrás das aparências, o que une, realmente, todos os seres; as aparências, ao contrário, os separam.
Mas, se por um lado Hilst impressiona com tal revelação, por outro, causa uma terrível sensação de instabilidade, pois eu senti a incerteza instaurada na escrita hilstiana, uma vez que as semelhanças entre mundo real e mundo representado no texto parecem aproximar-se com o aprofundamento da leitura.
O seu texto produz uma dinâmica de atração e repulsa quando expõe a relação contrastante sem realçar o feio ou repulsivo, pelo contrário, revela que os contrastes formam o todo necessário para a compreensão de nós mesmos.
Identifiquei-me imensamente com o que ela dizia sobre vida, morte, loucura, solidão e, principalmente, com a forma ousada como respondia às perguntas, sem medo, o vestígio de seu apreço pela maldição de Potlatch: “o poder de perder”. E, quase sem fôlego, fui seduzido a cada página que conseguia atravessar.
Não são poucas as dificuldades que a poesia de Hilst apresentou-me quando pensei no que constituía o seu valor propriamente estético, o que faria a sua efetiva realização enquanto obra de arte, capaz de unir em um mesmo conjunto, sejam harmônico ou dissonante, os elementos próprios à construção do poema, a expressão de uma força subjetiva e os aspectos cognitivos ligados a uma forma específica de conhecimento do mundo.
Caracterizada por um estilo pessoal e inconfundível, a obra de Hilst, por sua própria natureza, desafiou-me a não se deixar analisar através de um olhar atento apenas aos modos mais tradicionais de interpretação.
Uma poesia obscura, ou mesmo hermética, implicando uma aproximação necessariamente cuidadosa, que não deixe de ter em vista a tentativa de compreensão das conjunções entre os modos de significação da linguagem e o seu alcance expressivo.
Embora o “eu lírico” não seja visto e nem desperte qualquer interesse para o “tu”, ele não desiste do seu labor. Vai “construindo o seu verso”, sem pressa, insistentemente, como a água batendo na pedra sólida, modificando-a e esculpindo-a durante o tempo, imprimindo, assim, as suas marcas no olhar e, de certa maneira, no corpo deste “tu” estático que ocupa o lugar de sujeito.
A sua literatura não pode ser considerada de entretenimento, uma vez que a complexidade de suas tramas e personagens não me colocou em uma posição cômoda, passiva. Assim, foi interessante perseguir o trajeto que ela trilhou para construir seu texto, a fim de atingir as vísceras de sua escrita palimpséstica.
O minucioso trabalho que a autora paulista desenvolveu a partir da própria escrita, quer seja em relação à língua ou à narratividade, faz com que ela possa ser considerada uma escritora-crítica para designar aquele que pratica o exercício da crítica através da própria escrita.
Outra característica comum à escrita hilstiana, além do estilo palimpséstico – definido a partir das influências de textos de outros autores que são detectados em sua escrita – é a imbricação dos três gêneros literários: a lírica, o drama e a narrativa.
Foi essa singularidade da poesia hilstiana que me deixou maravilhado, embora, por vezes, mergulhado em profunda confusão de gêneros e sentidos. Apesar desses tantos desencontros, encontrei o caminho de volta para a casa, ou para a narrativa hilstiana.
Hilda Hilst, constituindo sua obra sob os rastros de ausências – o deus que nunca veio; a morte, sempre por vir – e na busca pela alteridade – os outros do humano – escreveu uma literatura pensante. Seus textos não possuem uma essência reconhecível, pois se furtam, por meio de inúmeras estratégias, ao papel representativo que lhe impôs uma tradição que remonta ao diálogo platônico.
A sua linguagem se vê posta em suspenso no horizonte metafísico. Ao repensar o papel da linguagem, o sentido do humano e de seus outros, Hilst engendra pensamento por meio da palavra literária. Em seus textos não há pureza, apenas contaminação. Pensamento.
Por fim, é interessante observar que a produção literária de Hilst é atravessada pela busca por Deus. Essas subjetividades angustiadas são, por vezes, personagens-escritores que se questionam sobre o sentido da vida, da morte e do ato da escrita. E, todos eles, até mesmo as poesias ditas pornográficas, aproximam-se de uma busca incessante por Deus.
Essa busca, no entanto, não se realiza por uma plena afirmação da divindade. Muitos desses personagens se revoltam contra um Deus criador e cruel que abandonou os homens à perdição mundana. Esse voltar-se contra um deus cruel originador do caos explicita a ambiguidade dos personagens que tanto desejam um encontro com a divindade, mas que também a negam, de modo que o desejo nega, e ao mesmo tempo, afirma o seu objeto.
A busca desses personagens nunca finda. Existe a teoria de que a autêntica busca consiste não em reencontrar o próprio objeto, mas em garantir as condições da sua inacessibilidade. Os personagens de Hilst, cada um a seu modo, respondem à impossível tarefa de se apropriar daquilo que deve, de qualquer modo, continuar inapreensível.
A maestria poética de Hilst deixa impressos os desconcertos do mundo. A solidão, a morte e a agressividade constituem-se em núcleos desestruturadores a instaurar os horrores enfrentados pelos personagens que se debatem buscando comunicar-se com um Deus bíblico insólito e com seus semelhantes para ao final constatar com desencanto que são seres solitários destinados à morte.
Amor, morte e sexo movem a estrutura narrativa de seus poemas. O texto rítmico instaura o drama existencial em relato caótico e avassalador. A partir dessa atmosfera inquietante, a poesia hilstiana revela o caótico, dando configuração à poética desarmônica e grotesca, reunindo paradoxalmente os contrários.
Por meio de fina ironia, critica a falência dos grandes projetos da modernidade, demonstrando a dor existencial experimentada com a descoberta da ausência de segurança no mundo. Uma poesia que faz da busca incansável do que não se pode definir, do eterno enigma que, embora insistentemente procurado, resiste a ser decifrado, manifesta de modo muito incisivo um irrevogável desejo de compreensão.
Uma poética que faz da interrogação, da negação do lugar comum do pensamento e da afirmação do desejo uma forma de existência em busca da plenitude, mesmo que provisória, expressa um compromisso com o conhecimento, a implicar o contato sem concessões com o mundo e a postura de radical resistência à ausência de subjetividade.
Em uma época como a atual, na qual se percebe certo comprazimento com a precariedade dos sentidos ou com a condição efêmera da obra de arte, uma diluição da vontade ordenadora do artista, a obra de Hilst nos apresenta este exercício da inteligência, da crítica, da resistência e da afirmação do único meio de aproximar o sujeito de sua capacidade mais nobre, a de tornar-se mais livre e consciente, através do conhecimento de si mesmo.
O saber e o sentir, a razão e o afeto, os instrumentos na procura, este amálgama que produz a poesia de Hilda Hilst, em busca de uma possível plenitude, da transcendência, da decifração do enigma, eis o que me deixa a obra da autora, o que ela me diz, a todos nós, ao nosso tempo. Enfim, não é pouco.