Separei 2020 para ler todos os matérias disponíveis em Português envolvendo a Saga dos Volsungos e até mesmo um clã meio invasor dessa historia (a menção á heroína Lagertha nos manuscritos mais antigos sobre os Volsungos na verdade são alterações tardias, visando lograr o clã Lodbrok a um nível mais lendário ainda...), e conhecido muito hoje em dia pela serie de tv chamada Vikings, sim, o Ragnar Lodbrok e seu clã, e todas as suas versões compiladas pelo Saxo Grammaticus e Haukr Erlendsson em 'As Histórias de Ragnar Lodbrok'.
Bem, finalizado tudo isso, passando até por Tolkien e os cometários de seu filho, o Christopher Tolkien na obra 'A Lenda de Sigurd e Gudrún', finalmente cheguei ao ramo Alemão dessa historia, (pulando o texto alemão anonimo do ano de 1200 por não encontrar tradução do alemão médio para o Português, e pulando também a obra do Richard Wagner), com Friedrich Hebbel.
Há quem ache a Saga dos Volsungos e dos povos Escandinavos e todas as suas ramificações coisa difícil e complicada, mas é a verdade que a coisa só piora quando passa para pela mãos dos povos francos. E é aqui, com Friedrich Hebbel que chegamos na ramificação mais distante da historia dos Volsungos, e também a mais atual. Isso, é claro, na minha humilde opinião. Esta obra deixaria um dramaturgo como Shakespeare orgulhoso, e o redator da versão anonima do século XIII (que segundo pesquisadores também era cristão) mais orgulhoso ainda, infelizmente já não podemos dizer o mesmo dos povos que principiaram essas historias lendárias, sendo todos eles pagãos.
Não foi a alteração dos nomes o que mais me espantou na historia, obviamente, e sim a mudança moral e até mesmo as ambições de alguns personagens já conhecidos de versões mais antigas o que mais me espantou aqui. Pelo seguimento de minha trajetória de leitura sobre esse povo, é de se estranhar ver os Nibelungos dizerem que são cristãos, e a grande influencia que isso tem no desfecho da trama. Não por qualquer desmérito a religião, ou qualquer coisa do tipo, mas é estranho não ler eles mencionarem com aquele fervor os nomes de deuses nórdicos já conhecidos, e das poucas vezes que o fazem é para dizer que estão queimando no inferno.
Se por um lado isso possa causar um certo estranhamento, por outro é a grande carga emocional dos personagens que divergem muito com tudo o que já foi escrito até aqui. O grande destaque ficou com a personagem da Crimilda (Kriemhild/Gudrun), que por hora parece uma versão feminina e germânica do Hamlet, e em outros momentos não deixa em nada a desejar as suas origens nórdicas. Avida por sangue, guerra e vingança, essa personagem implacável deixa a guerreira Valquiria, Brunilda (Brünhild, Brunhild, Brunhilda, Brunhilde, Brunhilt, Brunnehilde, Brünnhilde, Brynhild, Brynhilt, Bruennhilde...) quase que em total esquecimento. A peça é da Crimilda! O que na Saga dos Volsungos é apenas um lamento choroso e sentimentalista:
"Os meus familiares mataram o meu homem. Agora ireis primeiro á guerra e, ao chegardes á batalha, percebereis que Sigurd não está do vosso lado. E verei então que Sigurd foi a vossa fortuna e a vossa força e que, se tivesse um filho como ele, poderíeis vós então contar com o apoio de sua progênie e seus familiares."
Em Hebbel ganha ares de vingança e vilania impiedosa:
"... Em vez de boas
estrelas, os cometas sanguinários
estão no céu e lançam sobre o mundo
seu sombrio fulgor. Já foram gastos
os recursos pacíficos; agora
chegou a vez dos maus, tal como ao próprio
veneno recorremos, quando falham
os remédios comuns."
Pode-se julgar essa obra (como eu fiz em partes) pelas suas alterações religiosas, mas tenho que ressaltar que o autor sendo o dramaturgo que foi, não deixou em nada a desejar em termos de ação e criação de diálogos. Para todos os efeitos, é como se estivéssemos lendo uma historia nova, e com toda a certeza é uma historia de grande valor.