Fico honestamente muito triste de ter demorado tanto a ler ‘Persepolis’. Por outro lado, tamanha demora acabou tendo sua valia uma vez que eu pude lê-lo em sua versão original, em francês. A verdade é que me recomendam essa leitura há talvez quase dez anos, desde a época que eu estava estudando para o vestibular. Bom falar em vestibular, inclusive, porque lembro que chegou a cair um trecho de ‘Persepolis’ em uma edição que eu fiz do ENEM.
Não foi diferente com a adaptação para animação que também me foi muito recomendada. Seja como for, só fui assisti-la em 2022 - sim, antes de ler as BDs (ou HQs, como queira) - e por recomendação/dever-de-casa do meu ex-professor chileno de francês. Obrigada por isso, Pablo! O fato é que eu gostei tanto e tagarelei sobre a animação com tamanha energia que ele me perguntou se eu não queria ler as BDs e que ele tinha os arquivos dos quatro tomos das primeiras edições. A resposta foi um evidente sim e, bem… Deus abençoe a pirataria. Desse modo, li pelo kindle na edição da L’Association. Infelizmente, entretanto, só o fiz agora em 2024 por razões de: mestrado.
Agora, se você está lendo essa resenha na página do livro decidindo se é algo que vale sua leitura, você pode estar me perguntando - através da voz que mora dentro da sua cabeça - o que você deve saber sobre ‘Persepolis’ antes de tomar uma decisão a esse respeito (e no que eu posso te ajudar com isso para além de todo esse blá-bá-blá regressivo & nostálgico). No que é relativo a isso, é preciso saber que esta história nada mais é que um romance de formação autobiográfico em formato de quadrinhos. Sobre esse formato, inclusive, é interessante ver uma aspas da Marjane Satrapi, a autora, sobre o porquê de ter escrito ‘Persepolis’ nesses moldes:
‘As imagens são uma maneira de escrever. Quando você tem o talento para escrever e desenhar, parece uma pena escolher apenas um. Eu acho que é melhor fazer as duas coisas.’
Depois de ter ficado obcecada com ‘Persepolis’, eu fui atrás de ler e assistir muita coisa que a Marjane escreveu/falou e, como ilustradora e alguém que gosta de escrever bobeiras, nada poderia ter chamado mais minha atenção que essas aspas, sinceramente. Ter descoberto que ela também foi a responsável pela adaptação da sua própria BD para animação só me deixou ainda mais instigada pela mente dela. Isso porque eu também tive uma experiência recente com animação e fiquei pensando sobre a liberdade e a prisão que é você dominar tantas linguagens e ter tão pouco tempo para colocar ideias ousadas no papel. Mas talvez isso esteja ficando too personal… De volta a ‘Persepolis’ (e ao tomo 1, em específico)!
Retomando, essa BD/HQ é isso: um romance de formação autobiográfico em formato de história em quadrinhos, mas não só! Acaba sendo ainda um relato histórico de um momento extremamente conturbado do Irã e das tensões ocidentais x orientais, antes mesmo do 11 de setembro, da crise dos refugiados, o crescimento da xenofobia e islamofobia no Norte Global e da ampliação de políticas anti-imigração. O tomo 1 de ‘Persepolis’ foi, nesse cenário, publicado na virada do milênio e narrou a infância de Marjane Satrapi antes e durante a Revolução Islâmica no Irã em 1979.
Esse não é um texto que pretende dar spoilers, embora seja meio besta falar de spoilers com uma obra que fala sobre acontecimentos reais e relativamente atuais. De todo modo, a parte mais interessante desse livro (e da série, como um todo) é a desconstrução da imagem que se tem do Irã e das pessoas que lá moram - ou que de lá vem - como uma grande massa homogênea. Nós somos tentados a acreditar que as coisas no Irã sempre foram como são ou que pouco tiveram vozes dissidentes nesse processo. Isso não é verdade e a Marjane mostra isso particularmente neste tomo aqui.
Além do Irã ter sofrido com muita influência ocidental no seu cotidiano e costumes durante o governo do Xá Mohammad Reza Pahlavi (período pré-Revolução Islâmica), a população era até bastante combativa e liberal em diversos aspectos relativos a direitos individuais. Em termos políticos, havia inclusive uma frente progressista bem ampla que estava em absoluto contato com ideias bolcheviques e marxistas, como um todo. A família de Marji faz parte integralmente dessa frente e um dos pontos altos desse volume é também ver como ela foi uma criança que foi desde sempre incentivada por seus pais a ler e questionar tudo. Por conta disso, é muito curioso ver as reflexões que a Marjane de dez anos faz sobre questões absolutamente complexas para sua idade, como classes sociais, religião e o governo do Xá, por exemplo. Em determinado momento ela fala sobre Marx e Deus:
‘C’était amusant de voir comme dieu et Marx se ressemblaient. Peut-être que Marx était un peu plus frisé.’
De maneira bem resumida, esse tomo trata de mostrar esse momento de contraste entre um período amplamente contaminado por ideais ocidentais e relativamente liberal, embora não-republicano, com outro de repressão e fundamentalismo religioso, apesar de instaurada a república. Uma das questões mais relevantes nesse processo, que Marjane ilustra inclusive, é como essa classe mais progressista e oposicionista ao Xá acaba sendo instrumentalizada para pressionar a revolução e a sua deposição, apenas para posteriormente sofrer as maiores perseguições, prisões e execuções pelo novo governo.
Enfim, isso aqui é leitura indispensável. Eu pessoalmente acho que todo esse enorme bloco de texto que escrevi poderia ser resumido em um grande: LEIA!