O último volume da trilogia Sprawl é o mais polêmico justamente por ser aquele que mais inova no estilo, pois o autor embora ainda carregue pesado na ficção científica, começa a se valer de enigmas. Esse tipo de tática narrativa começou a se popularizar na década de oitenta, justamente quando Gibson escrevia a obra, e os famosos rpgs (jogos interpretativos de estratégia e enimas) chegavam ao seu auge.
Similar às campanhas dos jogos, temos um grupo de personagens com motivações complexas - e nem sempre claras - que conduzem a narrativa, mas que são eventualmente descartados se seus papéis no desenvolvimento da trama já terminaram. Isso pode ser um tanto broxante para aqueles que preferem narrativas fechadas ou não estão acostumados com capítulos divididos por pontos-de-vista.
Tudo isso permite que a Inteligência Artificial, tida como tema principal na série, conduza a história. Para aqueles mais interessados no gênero, é possível encontrar as referências que várias obras modernas fazem (como a Matrix) e outros assuntos que não deixaram de ser pertinazes: a Deepweb, Snuff, o Avatar.
Esse último merece um comentário a parte. Gibson retoma tanto o conceito dos jogos de rpg quanto do "alter ego" já utilizado na internet na época para mostrar o que seria equivalente no mundo real. O resultado é uma mistura esquizofrênica de teorias da conspiração e questões filosóficas abrangendo a noção de ser e existência.
Alguns personagens dos livros anteriores reaparecem e alguns pontos continuam. Os conglomerados mafiosos permanecem controlando o mundo, e a subcultura dos integrantes da Matrix ainda se confundem com joguetes e/ou anarquistas.
Enfim, Mona Lisa Overdrive se destaca pela riqueza de propostas fornecidas pelo autor, porém sua densidade é o que pode justamente afastar o leitor não habituado. É possível lê-la individualmente, porém isso pode fazer com que uma leitura complexa se transforme num trabalho hercúleo.