Na passagem mais crucial do clássico "Drácula", de Bram Stoker, Van Helsing e três aliados irrompem no quarto do casal Harker e, armados de hóstia e crucifixos, afugentam o monstro antes que transformasse Mina em vampira. Mas e se fracassassem? Esta ficção alternativa britânica, cuja edição brasileira chegou bem a tempo de explorar as modas Steampunk e Stephenie Meyer, explora essa possibilidade. Realiza-se o pesadelo do caçador de vampiros: o Conde vence, seduz e vampiriza a rainha viúva e muitos vitorianos influentes, por meio dos quais domina o Império Britânico.
Essa nova aristocracia suga mais literalmente que a tradicional o sangue do povo “quente”, ou seja, não-vampiro. Mas um sobrevivente do grupo de Van Helsing, com o pseudônimo de Jack, começa a estripar vampiras nas noites de Londres e põe em risco a nova ordem ao mostrar que os mortos-vivos podem ser destruídos. A condução das tramas política, policial e amorosa é competente, mas “de manual”, sem golpes de gênio. O confronto final com o “chefão” é tão cheio de clichês que se tem a sensação de ter saído de um livro para entrar num videogame. Mas se não chega a ser genial, é um bom entretenimento. Mesmo quem não detém tanta erudição pop quanto o autor pode se divertir com essa trama irônica e intrincada.
Desfilam mais de cem personagens. Alguns tirados da história real, como Bram Stoker, Oscar Wilde, Eleanor Marx e Bernard Shaw. Outros, da ficção de autores como Arthur Conan Doyle, Henry Rider Haggard, Rudyard Kipling, Robert Louis Stevenson, Sax Rohmer, Virginia Woolf, Anne Rice e Stephen King, do cinema de horror ou do próprio Newman, incluindo a maioria dos vampiros mais famosos da literatura, do cinema e das séries de tevê. Citações e alusões a outras obras pululam, como é costume entre críticos literários quando tentam a mão como escritores. É preciso perdoá-lo: nada mais lógico para um fã confesso dessas criaturas da noite do que vampirizar todas as obras do gênero que passaram a seu alcance.