Estrela primeira da modernidade, a história foi o modo de inteligibilidade privilegiado das nossas experiências subjetivas e sociais; o lugar onde as sociedades modernas ocidentais acreditaram encontrar a sua verdade. Mas, há pelo menos cinquenta anos, essa quase sempre insuspeita tarefa da história vem sendo posta em dúvida de maneira sistemática, inclusive pelos próprios historiadores. Em Crer em história, François Hartog prossegue as investigações acerca do conceito de história, retomando questões historiográficas e políticas que acompanham sua interpretação de nosso tempo e de seu regime de historicidade dominante: o presentismo. Sua interrogação recoloca em primeiro plano, e de modo incontornável, o problema das relações entre experiência temporal e escrita da história. Um dos mais instigantes desafios da atualidade está relacionado à efetividade da história, à sua capacidade de abrir perspectivas de futuro. A reflexão crítica que o leitor encontra neste livro não é mais um anúncio do “fim da história”, augúrio do ocaso de certo modo de existência histórico. Crer em história é um chamamento à tarefa de resolver, pela história, os impasses da história.
Crer em História (Coleção História e Historiografia #15) -
François Hartog
Um estado da arte não tão bom assim
Último livro (ou apenas o mais recente?) de François Hartog sobre a historiografia ocidental. <i>Crer em história</i> faz um exercício crítico não muito convencional e põe a pergunta: acreditamos na história (ainda, alguma vez)? O capítulo que abre o livro, "Ainda cremos em História?", aponta para a ideia de que, sim, já acreditamos na história em algum momento. A pergunta é precedida de uma hipótese, de que estamos lentamente (ainda) abandonando a ideia de história formulada pelo fim do século XIX e, mais que isso, estamos abandonando o poder (científico, retórico, argumentativo, simbólico) carregado pela história. Tudo isso se encarna, no fim das contas, nesse ato de "crer" na história. No encaixe dos três livros, parece ser o mais fraco de todos. A escrita de Hartog é clara e concisa, aqui nada temos a criticar. Um dos problemas centrais é algo que permeia os três livros: o eurocentrismo (quando não um francocentrismo, para dizer a verdade). As referências a Charles Péguy, por exemplo, são exaustivas por parte do autor e estafantes para o leitor. O recurso aos romances, no capítulo 3, parece subaproveitado. O capítulo 4, que vai de par com o terceiro, falando dos historiadores, parece uma grande repetição do que já foi lido anteriormente. São discutidos alguns marcos já evocados lateralmente nos outros livros, especialmente as questões da ascensão dos testemunhos como evidências históricas de eventos-limite (como o Holocausto), o entrelaçamento conflituoso entre a memória e a história (e, daí, uma discussão que poderia ser mais frutífera sobre museus e museologia), o papel do historiador e da história como "juízes" segundo um moralismo bastante difundido atualmente (cabe lembrar que o livro de Carlo Ginzburg, <i>Il giudice e lo storico</i> [<i>O juiz e o historiador</i>, em tradução livre], de 1991, continua sem tradução no Brasil). As indagações de Hartog são mais sintoma que diagnóstico. Para todos os efeitos, parece que o livro surgiu como vontade de compilar estes problemas irresolvidos na historiografia ocidental mais do que apropriadamente refletir sobre eles. Mesmo porque algumas reflexões apresentadas sequer são do próprio autor, mas de outros historiadores ou pensadores da historiografia, como Paul Ricoeur e Michel de Certeau. No fim das contas, é um livro que se fecha uma trilogia, não parece fechá-la à altura das reflexões dos dois primeiros livros; mas, ao menos, pode-se dizer que resume bem o estado das discussões atuais (que, para todos os efeitos, remontam aos últimos quarenta anos).
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