A partir do exame de casos clínicos extraordinários, como o de um pintor que passa a enxergar em preto e branco em razão de um acidente ou o do rapaz que só consegue se lembrar dos anos 60, o neurologista elabora uma fascinante teoria da inteligência. APRESENTAÇÃO O que têm em comum o pintor que, em decorrência de um acidente, passa a enxergar o mundo em preto e branco, o rapaz cujas únicas lembranças se restringem ao final dos anos 60 e o exímio cirurgião tomado por todo tipo de tiques (verbais e físicos) na vida cotidiana? Para o neurologista Oliver Sacks, esses não são apenas casos clínicos extraordinários. Antes de mais nada, eles dizem respeito a indivíduos cujas vidas, pressionadas por situações-limites (por vezes trágicas, em geral dramáticas), podem nos ajudar a compreender melhor o que somos. Em Um antropólogo em Marte, Sacks confirma a originalidade de sua prosa, já consagrada em Tempo de despertar e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. Uma prosa que dá ao relato clínico a dramaticidade de um verdadeiro gênero literário. --x-- Para Oliver Sacks o paradoxo da doença está antes de tudo em seu potencial "criativo", na forma como ela pode revelar formas de vida e adaptações nunca antes imaginadas, numa espécie de reação positiva a sua devastação. No caso dos distúrbios neurológicos, o fenômeno torna-se ainda mais notável devido à eventual excentricidade e radicalidade dessas adaptações. Os sete casos clínicos narrados por Sacks neste livro são exemplos reais e extraordinários de pessoas que, em consequência de deficiências e distúrbios neurológicos, desenvolveram novas identidades, criarem novos mundos, "não apenas a despeito de suas condições, mas por causa delas, e até mesmo com sua ajuda". Esses casos podem incluir um pintor expressionista-abstrato que aos sessenta e cinco anos sofre um acidente de carro, passa a ver o mundo em preto-e-branco e é obrigado a reformular sua visão das coisas, sendo levado a criar uma nova arte. Ou uma mulher autista que não consegue compreender os sentimentos humanos (sente-se diante deles como "um antropólogo em Marte"), mas se torna uma especialista de renome internacional em comportamento animal. Sacks não reduz seus "casos" a objetos de estudo submetidos à óptica fria e objetiva da ciência. Trata-os, antes, com um olhar profundamente humano, como "personagens". Sua prosa transita no limite entre a realidade e a ficção, não por serem estes relatos algo mais do que absolutamente reais, mas porque Sacks se preocupa sobretudo com a dimensão humana, quase romanesca, dos indivíduos de que trata. Como G. K. Chesterton, citado no prefácio, ele não tenta colocar-se fora do homem para examiná-lo, mas em seu interior.




