Como o tempo passa!! Já faz 4 anos que estou nesta jornada de desbravar este estilo fantástico que é a ficção científica! Já li grande parte dos clássicos – e alguns bem obscuros! – cada um com sua particularidade. E posso dizer com segurança que "Piquenique na Estrada" é uma das obras mais diferenciadas do estilo: enquanto que nos clássicos o comum é a exploração de eventos grandiosos, a obra dos irmãos Strugátski se propõe a ter uma abordagem intimista, com um maior foco filosófico.
Publicado originalmente na Rússia no ano de 1971 e escrito pelos irmãos Árkadi e Boris Strugátski, o livro acompanha a jornada de Redrick "Red" Schuhart em um mundo que passou por uma breve visitação alienígena que está envolta em grande mistério: a humanidade não faz ideia do real motivo da visitação. Os alienígenas simplesmente pousaram em alguns pontos do planeta e foram embora em seguida. Nas áreas onde houve os pousos, ficaram apenas restos de equipamentos, muitos mortais ao ser humano, e áreas onde até mesmo as leis da física podem ser desafiadas, chamadas de "Zonas".
Mas não pensem que o foco do livro é a investigação da invasão e que, no final, haverá uma grande descoberta apoteótica, como vimos em "O Fim da Infância", por exemplo – tanto a invasão quanto a interação humana com as Zonas são apenas ferramentas para que os autores possam filosofar sobre a pequenez dos humanos frente à grandiosidade do universo e do desconhecido; a definição de inteligência; a razão da existência da humanidade.
Mas não é só isso!
Confesso que o estilo de escrita, de criação de história dos irmãos Strugátski, não me cativou imediatamente: eu basicamente não conseguia ver para onde a história estava indo, me pareceu que eu sequer estava conseguindo compreender o "motivo" para ela ser contada. Somos apresentados a uma invasão alienígena, mas os autores não escreveram o livro para explorá-la; somos apresentados a artefatos desses aliens, mas tampouco há qualquer interesse em explicá-los; o personagem principal – também conhecido por "Red" – não parece ter um objetivo definido na trama. Ele é um "Stalker" (definição dada a pessoas que contrabandeiam artefatos das Zonas) que parece não estar fazendo nada além de sobreviver no caos do mundo onde vive. O livro é dividido em 3 momentos distintos da vida de Red, mas não parece haver nenhum arco de evolução do personagem, apenas é destacado o quanto ele é um sujeito endurecido pela Zona e pela vida que leva, desbocado, e que só respeita umas três pessoas no mundo. Eu sinceramente até entendo qual foi a intenção dos Strugátski com este personagem, mas devo dizer que não gostei dele nem um pouco – não que ele tenha sido criado para ser querido!
Além disso, um dos capítulos explora um personagem chamado Richard Noonan, que parece ter caído de paraquedas no enredo, ele não tem qualquer relevância para o andamento da história. Depois, eu acabei percebendo que ele é um contraponto à Red e o porta-voz dos Strugátsky pois há uma conversa entre ele e um cientista sobre assuntos que os autores queriam abordar no livro como: qual a definição de inteligência; o porque de a invasão ser na verdade um "piquenique na estrada"; dentre outros assuntos - e nenhum destes assuntos poderiam ser de interesse de Red, que teria mandado o cientista às favas com 3 minutos de conversa. Confesso que este capítulo foi bem interessante, mas a forma como ele foi encaixado na história me incomodou pois não há conclusão para o personagem, ele sai da história da mesma forma estranha como entrou, como se o seu capítulo fosse o recorte de algum outro livro não publicado dos irmãos.
Posto tudo isso, fiquei me perguntando: qual é a real "razão de ser" desta obra? O que os Strugátski quiseram explorar aqui? Estamos falando de um livro de sci-fi que não explora os pontos mais caros aos fãs do estilo como a criação de mundos, a criatividade de extrapolar viagens espaciais, tecnologias extravagantes ou outras civilizações. Todas essas dúvidas estavam comigo durante toda a leitura, até o final da última parte do livro. E foi aí que eu tive um insight!
Apenas para criar o contexto, vou falar um pouco desta parte final de Piquenique na Estrada: Red faz uma nova incursão na Zona, acompanhado do filho de um outro Stalker "das antigas" (personagem esse introduzido justamente neste capítulo). O objetivo da nova aventura é chegarem a uma mítica esfera dourada que concede todos os desejos para quem a possui. Estranho um conceito destes em um livro de ficção científica, não?
Bom, por fim, Red chega à tal esfera (depois de literalmente sacrificar seu companheiro) e ele então começa a divagar sobre o pedido. Estava claro até ali que ele iria pedir que sua filha mutante (que é assim graças ao envolvimento do pai com a Zona) fosse normal, mas aparentemente ele ter deixado seu companheiro morrer mexeu com sua cabeça, e ele simplesmente não sabe o que desejar à esfera dourada. Até que Red, já muito revoltado e confuso, tem o seguinte pensamento:
"Sou um animal, não vê? Apenas um animal que não possui palavras. Não aprendi a falar e não sei pensar, pois aqueles canalhas não me ensinaram a pensar!"
Faz-se importante ressaltar que conceitos como controle de informações, alienação causada pelo Estado ou algo parecido com isso não foram abordados na história até ali... Então por que uma fala destas justo no momento de catarse da história? Não suficiente, nas últimas linhas da história ele faz o seu pedido à esfera, proferindo a frase mais icônica deste livro:
"FELICIDADE PARA TODOS, DE GRAÇA, E QUE NINGUÉM SEJA INJUSTIÇADO!"
Pensem que este livro foi escrito em 1971, NA RÚSSIA, OU MELHOR, NA URSS!
Galera... não tenho dúvidas: este livro é uma crítica velada e nada óbvia ao governo soviético, à promessa vazia de igualdade prometida pelo Partido Comunista.
Como extra deste livro, há um posfácio escrito por Boris Strugátski, e, se repararmos na forma como ele fala de toda a situação que envolveu o lançamento conturbado do livro, a imensa burocracia para liberarem a publicação, a forma como o texto foi violado pelos censores... era o próprio Red falando ali! A mesma raiva contida, a mesma visceralidade estavam ali no relato de Boris. Eu já havia reparado na forma desdenhosa com que Red se dirigia a toda e qualquer figura de autoridade da história, mas com esse final somado ao posfácio, para mim não restaram dúvidas.
É claro que muitos que leram este livro podem e devem discordar desta interpretação. Afinal, os Strugátski não eram declaradamente contra o regime, mas eu acredito que o intuito nem era protestar, e sim falar sobre tudo que os incomodava, escrito sob a fachada do sci-fi, para que eles não acabassem virando estatística nas mãos do governo soviético.
A Zona, ao meu ver, é o próprio governo em si, com todos os seus absurdos; os Stalkers seriam os que iam contra o governo: é dito na história que praticamente todos que se envolviam com a Zona acabavam mortos. Somente dois Stalkers das antigas sobreviveram: Red e o Abutre, que, mesmo vivos, não saíram incólumes do contato com a Zona: a filha de Red sofre uma mutação, que, além de deixá-la com uma aparência diferente, estava deteriorando seu desenvolvimento mental; o Abutre teve suas duas pernas amputadas na Zona, além do fato de seu filho ter morrido por lá.
A Esfera Dourada, ao meu ver, seria a promessa de igualdade a todos. E o fato de Red fazer esse pedido com uma certa dose de melancolia e sarcasmo faz referência a como essa promessa estava distante para o cidadão comum, tornando esse objetivo final de igualdade para todos do Comunismo uma fantasia infantil. Entendem o que um conceito de fantasia faz em um livro de ficção científica?
Se é uma viagem ou não essa minha explicação, o que importa é que o livro só passou a fazer sentido na minha cabeça depois dela surgir — e me fez passar a gostar muito mais dessa história e a admirar os Strugátsky. Por mais velada que a crítica seja, se eles pegassem um censor mais atento, pode até ser que Piquenique na Estrada não tivesse visto a luz do dia - o que seria uma pena!