Ele que o abismo viu é uma das versões do mito de Gilgámesh, a que é atribuída a Sin-léqi-unnínni (séc. XIII a.C.), considerada a mais completa e importante dessa tradição acádia, preservada em tabuinhas de argila que foram descobertas entre 1872 e 2014. O texto, traduzido do acádio e anotado por Jacyntho Lins Brandão, traz para o leitor brasileiro a mais ampla reconstrução do poema, que é o mais antigo registro literário que conhecemos. Na tradição que remonta a mais de quatro mil anos, ele é anterior a Homero, a Hesíodo e aos textos bíblicos. Nesse longo (e ainda fragmentário) poema encontramos, já elaborados de forma sofisticada, ideias, valores e leituras do mundo – além de vários mitos que aparecerão na tradição literária posterior, como a criação do homem a partir da argila, o dilúvio e a construção de uma arca para salvar as criaturas, humanos e animais.
Epopeia de Gilgámesh (Coleção Clássica) - Ele que o abismo viu
Sin-léqi-unnínni
A fonte de muitos mitos e inspiração de grandes poetas
Gilgámesh parece ter sido a obra literária mais popular escrita no antigo oriente e é considerada a obra literária mais antiga do mundo já descoberta. As narrativas heroicas são atribuídas ao quinto rei sumério (um possível rei histórico postumamente deificado) de Úruk, cidade-Estado localizada no sul da Mesopotâmia (hoje Iraque), e remontam ao século XXI AEC. Bilgames/Gilgámesh na versão mais recente é composta por uma série de doze tabuinhas que foram traduzidas inicialmente por Henry Rawlisnson e George Smith na segunda metade do século XIX. O poema é o mais antigo texto do qual recuperaram traduções em várias línguas estrangeiras, com textos encontrados em vários locais do antigo oriente. A versão clássica do poema "Epopeia de Gilgámesh", cujo título original é Ele que o abismo viu (ša naqba īmuru), foi escrita pelo sábio Sin-léqi-unnínni entre 1300 e 1200 AEC. Ele que o Abismo Viu inicia com uma grande exaltação ao rei Gilgámesh (que tudo viu e que tudo sabe) e vai mostrando as várias experiências existenciais marcantes pelas quais o rei passa e que o levaram a compreender os limites da natureza humana; limites dos quais nem mesmo ele, que possui dois terços divinos e apenas um terço humano, por ser filho de uma deusa (Nínsun, que significa "Rainha da Vaca Selvagem), poderá escapar. O poema exalta as realizações, narra os excessos, exemplifica os aprendizados e finalmente chega na compreensão do personagem: de que ele, assim como qualquer outro está sujeito a viver e morrer independente de suas origens e de seus feitos. A relação de amizade, companheirismo e amor de Enkídu e Gilgámesh ajuda a tornar o herói o homem que ele virá a ser futuramente levando-o a crescer como ser humano através da amizade, amor, morte e, inevitavelmente, através da dor. Esse poema (anterior a Homero e Hesíodo) é um épico que traz muitas reflexões, que é imbuído de um teor antropológico profundo e que mostra o ápice do desenvolvimento do ciclo heroico do personagem, Gilgámesh, além de apresentar vários dos mitos que foram introduzidos na literatura tradicional que conhecemos: como a criação do homem a partir da argila, o dilúvio e a construção de uma arca para salvar as criaturas, humanos e animais (Essas partes, depois de serem traduzidas no início da década de 1870, causaram controvérsia generalizada devido às semelhanças com a Bíblia hebraica). "Do homem os dias são contados, tudo que ele faça é vento (...)" palavras sábias que ressaltam magnificamente uma grande verdade a qual estamos todos sujeitos indefinidamente. Essa foi uma leitura fascinante, rica em características fantásticas, significados e mitos que guardam muitos paralelos com outras narrativas antigas. Foi maravilhoso conhecer o poema épico mais antigo registrado e que, possivelmente, foi a fonte onde vários poetas que conhecemos se inspiraram e onde vários mitos e histórias, reproduzidas até os dias de hoje, tiveram início. Recomendo para todos.
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