“A amizade é uma conclusão. O amor é uma conclusão absoluta”
O amor, no verdadeiro sentido da palavra, se rebela contra todas as normas do mundo moderno, o mundo do capitalismo secular.
Isto ocorre porque o amor não é de forma alguma um contrato que visa a coabitação agradável entre dois ou mais indivíduos, mas uma experiência fundamental da existência do outro, e talvez nenhuma experiência desse tipo possa ser encontrada além do amor em si mesmo.
Byung-Chul Han combina nesse pequeno livro notável uma espécie de fenomenologia do amor verdadeiro, incluindo o amor sexual, com uma investigação diversificada sobre as forças reais que ameaçam o amor na nossa contemporaneidade.
Ler esse notável ensaio foi-me uma experiência altamente intelectual, permitindo envolver-me com clareza numa das lutas mais desesperadamente necessárias da atualidade.
É uma luta para defender o amor ou para, no mínimo, reinventá-lo, para ajudá-lo a escapar do capitalismo. Porque o capitalismo elimina a heterogeneidade em todos os lugares para fazer de tudo, inclusive do amor, um objeto de consumo.
Para além dessa problemática, o autor levanta outra, a meu ver, muito mais séria: o narcisismo. Ele afirma que o narcisismo do outro provoca o desaparecimento de Eros, salientando que, para aqueles de nós que foram reduzidos a máquinas de desempenho na sociedade capitalista, o amor vai desaparecendo e apenas as tendências narcisistas vão se fortalecendo.
O autor retrata de forma assustadora a sociedade narcisista de hoje, onde as oportunidades de encontrar outras pessoas (desconhecidas ou não) são reduzidas por conta do neoliberalismo e as pessoas só podem viver com aquilo a que estão acostumadas.
Sartre disse: “O inferno são os outros”, mas hoje a mesma coisa é o inferno. Este inferno é governado de uma maneira diferente do quê aquela que foi no passado.
No passado, a opressão, a proibição e a negação eram usadas para explorar os humanos, mas agora a liberdade, a permissão e a positividade levam os humanos à auto exploração.
No passado, a sociedade ainda vislumbrava uma heterogeneidade de comportamentos agora, porém, a homogeneização tem sido o motor desse comportamento. O ser humano padronizado como um mesmo ser fica preso dentro de si, incapaz de se reconhecer verdadeiramente, perdendo a capacidade de refletir sobre si mesmo e sobre o mundo.
Tornar invisível a própria opressão sistemática e embalá-la como liberdade e crescimento é a lógica enganosa do neoliberalismo.
Segundo o autor, “Essa liberdade percebida é fatal porque torna impossível toda resistência e toda revolução”. O que há para resistir quando não há mais outros que resistam a essa a opressão? E quem são os outros a que se refere a pergunta anterior?
E é exatamente aqui que entra a minha grande reflexão: os outros é o Eros? O Eros que sofre de uma agonia referida no título desse livro? Porque se assim estiver correto meu raciocínio, muita coisa passa a fazer sentido para mim a partir dos escritos do autor.
Ele define ‘Eros' como sendo direcionado para o outro num sentido de resistência, ou seja, o outro que não está incluído no domínio de dominação do neoliberalismo. O outro é o que abala a linguagem, as propagandas, o que salva o ser humano da exploração de si mesmo e é impossível controlá-lo.
Contudo, o amor pelos outros e o verdadeiro Eros não são tolerados na moderna sociedade de consumo. É por isso que o amor hoje é narcisista. O narcisismo, neste caso, não é amor próprio. Um sujeito narcisista sabe traçar limites que excluem os outros por si mesmos.
Tal pessoa não sabe reconhecer e admitir a alteridade dos outros, mas apenas usá-los como espelho do ego do sujeito. Eros é algo que permite vivenciar o outro como o outro. Em outras palavras, pode-se dizer que o verdadeiro Eros é uma dádiva de outros, e não as próprias realizações do sujeito. Perceberam a agonia de Eros?
Existe outro conceito importante: “Não posso”. Uma sociedade orientada para o desempenho regressa ao domínio da afirmação do “você consegue”, em vez de mobilizar a justificação de “você tem que fazer”. Para a exploração, é mais eficaz apelar à motivação, à espontaneidade e a projetos autodirigidos (explica-se o ‘boom’ de empreendedores no mundo atual sem as devidas condições necessárias).
Os anseios dentro do ser humano hoje podem estar livres de comandos. Contudo, porque alguém se explora voluntariamente, é fundamentalmente o mesmo que ser explorado sem dominação.
O slogan “Você consegue” cria uma tremenda coerção, mas também faz com que não reconheçamos a coerção como coerção. Em última análise, os contratempos são culpa sua e você não deve culpar ninguém por seus fracassos, a não ser você mesmo.
Nesta época saturada de narcisistas, é quase um milagre poder mergulhar adequadamente no outro. O amor não é um contrato agradável para casar com a minha fantasia. É uma experiência existencial e fundamental sobre os outros, e é também uma experiência única que não pode ser vivida de outra forma.
Depois de ler o livro, sinto como se estivesse flutuando sozinho no vasto oceano. Sentindo-me absurdamente solitário e com a alma pesada. A exploração intelectual avançada que esse livro me provocou é a única forma de reconhecer o mundo de si mesmo e dos outros e de deixá-los seguirem livremente.
A escrita de Byung-chul Han observa atentamente aspectos críticos de nossos tempos que muitas vezes ignoramos ou dos quais não temos consciência e investiga suas raízes por meio de frases provocativas que são curtas e concisas como aforismos, mas que atingem o âmago das nossas reflexões.
É um livro difícil como uma adaga que perfura a lâmina do pensamento com uma prosa afiada. O que foi escrito aqui é profundo com um estilo de escrita gritantemente inacessível, mas não impossível de ser compreendido.
É um pequeno livro filosófico, cheio de significados profundos que lida com as consequências da modernidade sobre o amor, sua representação e sua simplificação em uma forma sexual ‘pornográfica’, e a eliminação do significado moral na ótica do amor para se tornar significado material (consumismo), limitado às relações sexuais.
Estamos essencialmente desumanizando e consumindo uns aos outros por meio de um comportamento hedonístico. Objetificação dos outros como objetos sexuais tal qual a pornografia (um antagonismo do Eros e da desritualização do amor), nos revela quais os meios modernos de comunicação que não estão dando espaço para a imaginação.
Sua densidade informacional, especialmente visual, leva ao oposto disso, ou seja, a sufoca. A super-realidade nunca é propícia à imaginação como tal, a pornografia, que maximiza a informação visual, destrói a imaginação erótica.
O texto é ágil, nos tentando explicar em termos lógicos um argumento tão complexo sobre o amor moderno; nem acho que seja possível e, mesmo o autor às vezes, se rende diante de seu mistério.
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