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    O Dorminhoco -

    H. G. Wells

    Carambaia
    2017
    272 páginas
    9h 4m
    ISBN-13: 9788569002277
    Português Brasileiro
    3.9
    25 avaliações
    Leram29Lendo2Querem167Relendo0Abandonos2Resenhas6
    Favoritos2Desejados167Avaliaram25

    O Dorminhoco (1910) conta a história de Graham, um homem na casa dos 30 anos, herdeiro de uma grande fortuna, mas que vive uma vida desmotivada e sofre de uma insônia crônica. Quando finalmente cai no sono, dorme durante 203 anos e acorda numa sociedade totalmente diferente da que conhecia. Para sua estupefação, o patrimônio que possuía o tornou uma espécie de dono do mundo e alvo de uma idolatria mística, graças a investimentos e aquisições feitos durante seu sono. Aqui a veia satírica de Wells aparece com vigor, ao descrever um mundo em que uma elite desfruta de ambientes sofisticados em metrópoles hipertrofiadas, com intensas luzes brancas, elevadores, domos, caminhos móveis e estruturas de vidro, enquanto operários vivem em estado de semiescravidão em subterrâneos escuros, recebendo comida em troca de trabalho. Como é comum nas obras de Wells, o entrecho foi uma inspiração para Woody Allen no filme O Dorminhoco (1973).

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    Andreia Santana16/06/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    H. G. Wells refletindo sobre o colonialismo

    O medo de que os oprimidos se rebelassem contra o sistema que os submetia, assombrou o mundo colonial europeu desde a independência do Haiti, no final do século XVIII. Na ficção científica distópica O dorminhoco, publicada no Brasil em 2017 pela Carambaia, H. G. Wells lança mão do terror do mundo branco de que os povos da África, Ásia e América Latina se insurgissem contra seus dominadores, para conceber uma sociedade futurista e disfuncional que guarda muitas semelhanças com o mundo atual. O livro foi publicado em 1910 e ganhou nova edição em 1921, quando o autor escreveu um novo prefácio. O manuscrito, segundo alguns registros, é de 1899, portanto, no fim da Era Vitoriana. Embora existam outras edições de O dorminhoco em português, o texto da Carambaia é o mais completo, com uma tradução inédita, direto do original, feita por Alcebíades Diniz, que também assina o posfácio que ajuda a contextualizar o texto para leitores pouco acostumados a ficção científica, distopias ou ao estilo narrativo de Wells. O prefácio de 1921 do autor também é resgatado nessa edição que conta, ainda, com ilustrações de Louisa Gagliardi. A arte das ilustrações lembra muito o filme clássico do Expressionismo alemão Metrópolis, dirigido por Fritz Lang. Entre a concepção da história, a primeira publicação e a segunda, Wells acompanhou o fim da Era Vitoriana, a partilha da África e a devastação belga no Congo, o advento do século XX, a I Guerra, a Revolução Bolchevique e uma série de fatos históricos que servem de fermento para essa história pouco conhecida de um dos autores que fez parte da gênese do que hoje chamamos de ficção científica. Wells nasceu na segunda metade do século XIX, em 1866, e morreu quase no final da primeira metade do século XX, em 1946. Ou seja, viu também a II Guerra e, antes dela, a partir do final dos anos 1920, o surgimento, crescimento e a dominação de regimes totalitários na Europa. Diante desse contexto de vida, não é de admirar que O dorminhoco possibilite tantas interpretações que se encaixam quase com perfeição no século XXI. O dorminhoco conta a história de Graham, um homem que está em crise, incapaz de dormir há dias, depois de extenuar a própria mente e abusar de substâncias estimulantes enquanto desempenhava um trabalho importante que, no entanto, ele não diz qual é. Qualquer semelhança com a contemporânea Síndrome de Burnout não é mera coincidência. Importante lembrar que Herman Melville já havia descrito um trabalhador esgotado até a alienação em Bartleby - O escrivão, em 1853. A literatura é uma arte que se retroalimenta e a geração de Wells teve contato com as obras de autores como Melville e seus contemporâneos. Exausto pela falta de sono, Graham entra em uma espécie de transe e fica em suspensão. Não está nem vivo, nem morto. A condição dele lembra um pouco a do senhor Waldemar, do conto Os fatos do caso do senhor Waldemar, de Edgar Allan Poe, presente em Contos de Imaginação e mistério. A diferença é que o corpo de Graham não deteriora, como ocorre com o personagem do conto de Poe, e ele dorme, initerruptamente, por 204 anos. Ao acordar, Graham - que entrou em seu sono letárgico no século XIX - se percebe um homem vitoriano em pleno século XXI. O próprio Wells via a si mesmo como um vitoriano, embora tenha passado quase metade da vida no século XX. A visão do autor, de que a Era Vitoriana representou avanço moral e tecnológico para a humanidade, permeia o romance e ele empresta esse olhar a seu protagonista. Não dá para sair por aí dizendo que H. G. Wells era anticolonialista, mas ele refletiu sobre o tema. Graham agora é um homem de valores considerados antiquados e pitorescos em meio a uma civilização ultra tecnológica, hedonista e ditatorial. Distraído, no princípio, pelas novidades como as máquinas de voar e outras maravilhas desse mundo novo, aos poucos, o recém desperto vai percebendo no que a cidade de Londres e o resto do mundo se transformaram enquanto ele dormia. Descobre, também, que ele é uma espécie de Messias, o Dono do Mundo, literalmente, cujo despertar era aguardando pelos trabalhadores escravizados pelo Conselho, a junta que governou esse novo mundo em seu nome, pelos dois séculos em que ele dormiu. Graham tornou-se o dono de tudo porque dois de seus amigos, ainda no século XIX, resolveram aplicar o dinheiro do jovem adormecido e, como ele leva 204 anos para acordar, esse dinheiro rende por séculos. Os dois amigos também fazem fortunas pessoais imensas e legam tudo para o Dorminhoco, é assim que Graham é chamado pela população mundial. Com esse rio caudaloso de dinheiro, o Conselho vai comprando porções cada vez maiores do mundo, sempre confiando que o jovem jamais vai acordar e que seu corpo ficará exposto por toda a eternidade. Acondicionado em uma bolha transparente e ligado a uma estrutura de suporte mínimo de vida, o Dorminhoco é uma marionete, um símbolo que mantém a sociedade apaziguada por uma promessa. "Quando o Dorminhoco acordar" é uma espécie de ditado que serve de esperança e motivação para os despossuídos da Terra aceitarem seu fardo. A estrutura social da nova era é essencialmente capitalista e liberal, com práticas mercenárias de comércio, eliminação da concorrência por monopólios agressivos e baseado em relações de trabalho desiguais e pautadas na exploração e descarte dos mais pobres. Nesse ponto, não é muito diferente da Inglaterra da Revolução Industrial onde Wells nasceu. Uma classe média alienada diverte-se sem dar a mínima para o que o Conselho faz no governo. As informações que os cidadãos acessam são rigorosamente controladas por dispositivos que também lembram muito as teletelas de George Orwell. É de se pensar se o autor se inspirou nesse romance de Wells, que é anterior ao emblemático 1984, para criar as estruturas por onde o Grande Irmão vigia e "educa" as massas. O despertar do Dorminhoco provoca uma revolução proletária conduzida por um líder carismático, Ostrog, que se diz escolhido pelo Dorminhoco para reconduzir o mundo aos eixos. Não é bem isso o que acontece e a tomada de consciência do protagonista ocorre em meio à perda de controle de Ostrog da massa enfurecida e disposta a destruir o mundo e reergue-lo das cinzas. É nesse momento que Wells explora o medo branco. Ostrog mantém um exército de mercenários africanos, homens negros considerados gigantes e hábeis guerreiros. Graham não quer permitir esse contingente de soldados em Londres por temer que "os africanos aproveitem para se vingar do colonialismo". O próprio fato de que pessoas que tiveram seus países invadidos e foram escravizadas por quase quatro séculos sejam utilizadas como a polícia que irá controlar a turba de trabalhadores em revolta já abre mil possibilidades de interpretação e análise. Mas, o resultado é o mesmo e um velho conhecido: os poderosos, há milênios, utilizam a tática dos exércitos romanos de "dividir para conquistar". A falta das consciências de classe, de raça e de gênero, já fez, e ainda faz, muita gente que devia se unir, brigar uns com os outros, ajudando assim a manter o status quo e o poder eternamente nas mãos do opressor comum. O dorminhoco é um dos livros mais incômodos de Wells e o que menos se parece com suas outras produções mais famosas, como A máquina do tempo, O homem invisível, Guerra dos Mundos ou a Ilha do Dr. Moreau, só para citar os mais republicados ao longo das décadas. Nessa distopia, ele aparece bem menos interessado em celebrar o engenho humano ou descrever experiências científicas bizarras. O texto de O dorminhoco é desencantado e o final melancólico e em aberto revela um amadurecimento do autor e, possivelmente, a decepção dele com o quão perniciosa a tecnologia, essa ferramenta de mil e uma utilidades, pode ser nas mãos das pessoas erradas... O dorminhoco Autor: H. G. Wells Tradução e Posfácio: Alcebíades Diniz Ilustrações: Louisa Gagliardi Editora: Carambaia, 2017 272 págs R$ 39,90 (e-book Kindle, na Amazon) *E-book para leitura mediante empréstimo, gratuitamente, na BibliOn

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    Herbert  George Wells profile picture

    Herbert George Wells

    Herbert George Wells, conhecido como H. G. Wells, foi um escritor britânico. Nos seus primeiros romances, descritos, ao tempo, como "romances científicos", inventou uma série de temas que foram mais tarde aprofundados por outros escritores de ficção científica, e que entraram na cultura popular em trabalhos como A Máquina do Tempo, O Homem Invisível e A Guerra dos Mundos. Outros romances, de natureza não fantástica, foram bem recebidos, sendo exemplos a sátira à publicidade Edwardiana Tono-Bungay e Kipps. Visionário, chegou a discutir em obras do início do século XX questões ainda atuais, como a ameaça de guerra nuclear, o advento de Estado Mundial e a Ética na manipulação de animais. Desde muito cedo na sua carreira, Wells sentiu que devia haver uma maneira melhor de organizar a sociedade, e escreveu alguns romances utópicos. Ele analisa a dicotomia entre a natureza e a educação e questiona a humanidade em livros como A Ilha do Dr. Moreau. À medida que envelhecia, Wells foi-se tornando cada vez mais pessimista acerca do futuro da humanidade.

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    Herbert George Wells