A Gaia Ciência, escrito em 1882, é uma das obras mais famosas de Nietzsche. O nome remete à língua usada pelos trovadores medievais, na qual " gaya scienza" seria algo como " alegre saber". Gaia, também pode ser entendido no sentido da mitologia grega, como símbolo da fertilidade, criatividade. Neste livro já aparecem três marcas importantes de sua produção: a morte de Deus, a imagem mítica de Zaratustra e a ideia de eterno retorno.
No prefácio, Nietzsche diz: " Transborda de gratidão, como se a coisa mais inesperada se tivesse realizado: é a gratidão de um convalescente"; isto é, ele escreveu quando havia recuperado sua saúde. Ainda no prefácio, ele se questiona se a filosofia, de uma maneira geral, não foi até agora um mal-entendido do corpo; aqui ele está tentando superar um dualismo presente na filosofia, desde Sócrates e Platão, que procura dissociar o corpo e a alma; pois oque se baseia a filosofia, principalmente na tradição socrático-platônica, é que a razão deve ser isenta das paixões, os sentidos não devem influir na razão. Essa dicotomia que a tradição fez, para ele, é uma má interpretação dos processos do corpo. Para ele, nossa natureza física e psicológica, têm relação com nossa forma de pensar; todo conhecimento tem raiz no corpo.
Há também uma tentativa de aproximar filosofia e arte. Nietzsche se opõe ao essencialismo platônico, que é a ideia de que no mundo aparente há um véu que encobre uma suposta essência por detrás das coisas. Olhe sua afirmação: "O "mundo verdadeiro" e o "mundo aparente"- leia-se: o mundo forjado e a realidade." Então ele faz o contraponto, se apegando a aparência em detrimento da essência. Faz uma transvaloração; não interessa a ele desqualificar os valores, mas sim transvalorar, mudar.
Ele aproxima sua filosofia com a arte exatamente nesse aspecto, pois ele não está preocupado em descobrir, desvelar algo, interessa para ele criar; até porque ele não acredita em verdades absolutas. Então uma vez que não há essa verdade, ele vai procurar uma filosofia que enalteça a capacidade criativa. Inclusive o eterno retorno é apresentado como uma proposta existencial hipotética ao leitor, e a morte de Deus em parábola; já em Zaratustra ele nos traz uma obra fictícia, poética e com uma linguagem altamente metafórica. E também Nietzsche já chegou a dizer que a vida poderia se redimir pela arte, pelo belo; a vida como uma obra de arte, como uma performance, uma música que se tirar uma nota estraga.