Ouvi uma vez que boa literatura é aquela que nos incomoda. Acredito que eu nunca tinha entendido completamente o que essa frase queria dizer até ler A casa da alegria. Esse livro me virou do avesso e mexeu naquelas partes que eu normalmente prefiro deixar quietinhas.
A história gira em torno de Lily Bart. Criada para ter um gosto refinado, ficou órfã logo após a falência da família e precisou ir morar de favor com uma tia. Mesmo sem fortuna, Lily conseguiu se manter entre a mais alta sociedade. Sua beleza e carisma garantem um lugar em meio às mais refinadas pessoas, porém a jovem já conta com 29 anos e possui complicações financeiras que tornam cada vez mais urgente a necessidade de se casar.
Dividida entre a necessidade de dinheiro para manter os padrões de vida que ela conhece e a repugnância por um casamento apenas por dinheiro, Lily Bart ainda precisa lidar com os seus sentimentos por Selden, um simples advogado.
Os sentimentos de Lily por Selden muitas vezes mudam o rumo da trama de forma sutil. Os diálogos dos dois exercem um grande poder na mente de Lily sem que ela perceba. Os dois são forças opostas que se repelem e se atraem. Selden vê as maquinações de Lily para se manter na alta sociedade e faz troça disso. Lily percebe que ele enxerga a alma dela nua e sente seus valores questionados.
"– Por que faz isso comigo? – soltou.
– Por que faz as coisas que escolhi parecerem tão odiosas para mim, se não tem nada para me oferecer em troca?"
Apesar do romance existente na trama, ele não é o plot principal. Esse livro é sobre o conflito de Lily: uma mulher ensinada a viver apenas de aparências mas que começa a perceber o quanto sua vida é vazia. Vemos Lily crescer e vemos Lily lutar com todas a suas forças para não se quebrar. Vemos uma mulher perdida, fruto de uma sociedade fútil, mas que ainda luta para manter valores morais. E acabamos mergulhando nos questionamentos dessa personagem tão humana e nos perguntando junto com ela: o que é realmente valioso na vida? O que faz tudo valer a pena? Vale a pena abrir mão de seus valores pessoais para manter sua imagem perante à sociedade? Estamos realmente trilhando o caminho certo ou apenas o mais fácil?