A literatura tem proporcionado aos teóricos da psicanálise acesso a uma gama de situações narrativas e personagens marcados pela demonomania, paranoia, catalepsia, histero-epilepsia, erotomania, misoginia, sodomia (então tratada como problema clínico), alucinações visuais, olfativas e acústicas, sonambulismo, sadismo, fetichismo, pigmalionismo, necrofilia, estupro e pedofilia. Assim, essa literatura também se presta ao papel de um imenso guia clínico de patologias e de vazões aos delírios inconscientes de seus autores.
Seguindo esses rastros, Gilles Deleuze se desloca, com grande desenvoltura, pelos campos da teoria literária, da filosofia e da psicanálise para separar o termo sadomasoquismo, que acabou tornando-se um clichê da cultura contemporânea. Para esse filósofo, a linguagem do escritor austríaco Sacher-Masoch visa fazer estremecer a própria literatura e dotá-la de autorreferencialidade. de toda forma, os termos sadismo e masoquismo não podem ser conectados arbitrariamente porque em Sade o que está em jogo é a instituição da lei que não convence, porém ordena e em Masoch, o que está em jogo é a persuasão e o acordo.