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    O exílio e o reino -

    Albert Camus

    Record
    2018
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9788501111296
    Português Brasileiro
    3.9
    81 avaliações
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    Favoritos4Desejados269Avaliaram81

    Uma coletânea de contos que têm em comum o tema universal da fraternidade humana e suas dificuldades. De um dos mais importantes e representativos autores do século XX e Prêmio Nobel de Literatura Tanto por sua diversidade quanto pelo caráter universal das indagações, O exílio e o reino é possivelmente a obra que melhor retrata as questões que acompanharam Albert Camus durante sua vida. Este livro traz seis contos ambientados em diferentes partes do mundo, nas quais são abordadas as mais variadas formas de exílio: o do próprio corpo, o gerado por conflitos entre os homens, o que se constitui na fé, entre outros.

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    kam !15/03/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O exílio e o reino: a solidão, a arte e a busca pela sssência humana.

    Terminei o exílio e o reino, e foi uma leitura que me envolveu completamente. cada conto tem algo de especial, abordando temas como isolamento, identidade, opressão, liberdade e a busca por significado. camus tem uma habilidade única de transformar situações aparentemente comuns em profundas reflexões existenciais, criando narrativas que vão além do enredo e atingem algo essencial sobre o que significa ser humano. há sempre um sentimento de deslocamento, de personagens que, de alguma forma, estão à margem – seja física, social ou emocionalmente. e, no fundo, cada história parece girar em torno dessa tensão entre o exílio e o pertencimento, entre estar no mundo e, ao mesmo tempo, sentir-se distante dele. mas, entre todos, "jonas ou o artista trabalhando" foi o que mais me marcou. há algo nesse conto que parece condensar toda a angústia da criação e da vida em sociedade. jonas é um pintor que, no início da história, encontra um certo prazer e propósito na arte. sua vida ainda é relativamente tranquila, e ele pinta em um espaço onde há silêncio e liberdade. porém, conforme começa a ganhar reconhecimento, sua casa se enche de pessoas – amigos, admiradores, parasitas que se alimentam de sua energia e de seu talento. seu ateliê, que deveria ser um refúgio, se torna um espaço onde ele já não consegue se concentrar. o sucesso, ao invés de fortalecê-lo, parece sugar sua essência. ele continua a pintar, mas algo se perde nesse processo: a solidão necessária para a arte, o espaço interno onde a criação realmente acontece. camus, com sua precisão implacável, descreve a lenta deterioração do artista diante das pressões externas. não há uma explosão dramática, mas um esgotamento gradual, uma erosão da inspiração e da identidade. para escapar, jonas sobe para o jirau – um pequeno mezanino no alto da casa –, onde tenta reencontrar a solidão que perdeu. essa subida, quase uma fuga, simboliza seu desejo de se afastar do mundo e retornar à sua essência. ele se isola, mergulha na penumbra, tentando, de alguma forma, reaver a chama criativa que parecia se apagar. e há algo de profundamente melancólico nessa tentativa, porque a solidão que antes era voluntária agora se torna um exílio quase forçado. ele quer estar só para criar, mas percebe que, ao mesmo tempo, o mundo ao qual pertence já não o compreende. é como se ele já não soubesse mais onde exatamente se encontra: entre o exílio e o reino, entre o isolamento e a necessidade de conexão. sua relação com ratieu, seu amigo mais próximo, ilustra bem essa confusão. ratieu representa aquele que tenta entender e apoiar, mas ao mesmo tempo também está envolvido no caos que cerca jonas. ele quer ajudá-lo, mas de certa forma, é mais um dos que invadem seu espaço. há uma tentativa genuína de proximidade, mas também uma incompreensão do que jonas realmente precisa. essa amizade carrega tanto um afeto sincero quanto uma espécie de cegueira: ratieu vê jonas se esgotar, mas não consegue impedir que isso aconteça. a relação com sua esposa também é um reflexo desse dilema. ele a enxerga quase como uma extensão do ambiente que o cerca – ela está ali, mas não necessariamente como alguém que ele vê em profundidade. há carinho, mas também um distanciamento. ele não a culpa, nem a rejeita, mas sua presença se torna parte do peso da rotina, parte daquilo que o impede de encontrar o silêncio e a liberdade que busca. camus descreve essa relação de forma sutil, mas com um impacto brutal: a sensação de que, mesmo entre aqueles que o amam, jonas está essencialmente sozinho. o desfecho do conto é uma síntese brilhante da dualidade que camus sempre explorou. quando finalmente pega uma tela para pintar, não há uma obra grandiosa, nenhuma cena imponente ou cheia de cor. há apenas uma única palavra, escrita em letras pequenas, que pode ser lida como "solitário" ou "solidário". e essa ambiguidade é essencial: a arte exige isolamento, mas também se alimenta do mundo e das relações humanas. o artista precisa se retirar, mas sua obra só ganha sentido quando é vista, interpretada, compartilhada. camus nos obriga a refletir sobre essa contradição – até que ponto a solidão é necessária para criar? e até que ponto o artista pode se afastar do mundo sem perder completamente a si mesmo? o conto, do início ao fim, encapsula a tragédia silenciosa do artista que perde o controle sobre sua própria criação. ele começa com um homem que pinta livremente e termina com alguém que mal consegue sustentar sua arte. o processo de desgaste de jonas não é apenas um reflexo da vida de um pintor, mas de qualquer pessoa que tenta equilibrar suas paixões com as expectativas e exigências do mundo. a busca por significado se transforma, inevitavelmente, em uma luta contra as distrações, contra a pressão de corresponder a algo que, muitas vezes, sequer faz sentido. e, no final, o que resta? um homem exausto, isolado, tentando expressar em uma única palavra tudo o que sentiu, tudo o que perdeu. jonas ou o artista no trabalho é uma metáfora da existência, do esforço contínuo de permanecer fiel a si mesmo em um mundo que constantemente nos puxa para fora de nós. o que me fascina na escrita de camus é justamente essa capacidade de extrair beleza e profundidade de situações corriqueiras. ele não precisa de grandes reviravoltas ou de acontecimentos espetaculares para construir narrativas que nos marcam profundamente. ele nos faz sentir, nos obriga a olhar para dentro, a questionar nossas próprias escolhas, nossos próprios exílios. não há respostas fáceis em o exílio e o reino, mas há um olhar intenso sobre o que significa existir, sobre a solidão, sobre a luta constante entre liberdade e pertencimento. essa leitura reafirmou para mim o porquê de eu ser tão apaixonada pela obra dele.

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    • 4 estrelas35%
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    • 2 estrelas9%
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    Albert Camus profile picture

    Albert Camus

    Foi um escritor e filósofo francês nascido na Argélia, vencedor do Prêmio Nobel de literatura de 1957. Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor. Seus temas destacam o isolamento do homem em ambientes estranhos, o absurdo da vida e do universo e o exame da moral e da condição humana.

    120 Livros
    1.308 Seguidores
    El Taref, Argélia

    Albert Camus