Na primeira vez que ouvi falar sobre Rashid, ele era um dos convidados do programa Sem Censura da TV Brasil. Eu lembro que não estava dando a mínima atenção para o programa porque estava muito ocupada fazendo uma atividade da faculdade e iria continuar focada nela até que meu cérebro processou uma voz muito linda saindo da tv e senti a necessidade de saber quem era o dono dela. E era do Rashid, claro. Passei a prestar mais um pouquinho de atenção no programa e comecei a adorar todas as respostas que ele dava, tinha uma postura relaxada, engraçada e muito seguro de si. Adorei isso também. Anotei o nome dele no meu caderno com uma nota de: PESQUISAR! e fui continuar minha atividade, afinal, valia ponto né.
Nunca pesquiso as coisas na hora e Rashid ficou no meu caderno por semanas até que me lembrei dele e dei play no vídeo que mais me chamou atenção: Esteriótipo. Dois pensamentos passavam na minha cabeça enquanto a música rolava: 1) QUE LETRA FODA! 2) COMO EU NUNCA OUVI FALAR DELE ANTES?????
Não sou nenhuma expert do Hip Hop e nem manjo da cultura do Rap, mas fico extremamente puta da vida quando percebo que apesar da autonomia de pesquisa que a internet proporciona, os algoritmos das redes só nos recomenda mais do mesmo e trabalhos como o do Rashid simplesmente não recebem os créditos que deveriam. E sendo assim, eu só consigo lembrar dos debates sobre disseminação da informação e das artes: quem dita o que é bom? quem consome isso?
O Rap é extremamente marginalizado, na verdade, tudo que é feito por gente preta é marginalizado. Em Esteriótipo, Rashid denuncia em 4 minutos e 46 segundos todo o racismo estrutural que até hoje é praticado na nossa sociedade, e avisa aos maloqueiros para ficarem espertos nas ruas. Cara, se eu tivesse ouvido este som na minha adolescência, com certeza a minha consciência política e de militância estaria muito mais amadurecida. Talvez esse seja um dos principais motivos para que o Rap seja tão marginalizado: ele desperta a consciência. E nada mais perigoso que gente preta consciente numa sociedade racista. A elite pira.
De lá pra cá, eu já escutei muito mais que Esteriótipo, creio que já escutei todos os álbuns, já repeti as minhas músicas preferidas diversas vezes, já compartilhei com os amigos e quando soube do lançamento deste livro em Salvador, fui lá no bairro que eu nem sabia como chegar e nem sabia como sair porque o Rashid já tinha me conquistado o suficiente para me esforçar desse jeito. E valeu muito a pena! Ideias que rimam mais que palavras é uma mistura de biografia, autoajuda e aula de história. Você conhece o Rashid, sua família e as ruas que passou, você entende a profundidade de cada verso escrito e pega as referências. Tudo tem um significado, e saber disso te faz ouvir as músicas novamente de um jeito diferente...
É um livro simples, feito por um artista simples, mas que assim como suas rimas, é grandioso nas mensagens que passa. Espero ansiosamente o volume dois.