Antes de começar a ler este livro, não conhecia o Dr. Carlos de Laet. Felizmente, a edição do CDB possuí uma introdução escrita pelo Dr. Álvaro Mendes, com uma pequena biografia do homem.
Descobri então um homem cultíssimo, extremamente polêmico e monarquista. Destas três características, tenho apenas duas, e acho que quem está lendo esta resenha já deve sabê-las. Apesar de toda a sua formação, cultura, conhecimento em áreas diversas, capacidades literárias e linguísticas, e de até ter ganho o título de Conde Romano, o Dr. Carlos de Laet era um homem extremamente humilde, não tendo feito esta polêmica por vaidade, mas por uma profunda vontade de defender a Fé Católica e de convencer o ex-seminarista apóstata, agora ministro presbiteriano, a tornar à Igreja de Cristo.
Mesmo com as provocações e ignorâncias de Álvaro Reis, ele manteve o decoro, mesmo quando os argumentos do presbiteriano chegavam ao ridículo. Dou como exemplo este:
"Aflitíssimo por tirar isso a limpo, diz S. Sa. que foi à biblioteca do mosteiro de São Bento, onde, graças à bondade de um frade que desconfio ter sido o leigo porteiro pôde examinar muito a gosto as obras de S. Irineu. Que decepção! Lá estava o trecho, em latim, na edição de 1740. E é o seguinte: 'Et si ea inobedierat Deo, sed haec suasa est obedire Deo, ut Virginis Evae Virgo Maria fieret advocata.' Que fazer? Lá se achava: 'para que a Virgem Maria se fizesse a advogada da Virgem Eva.' Realmente não havia remédio senão chamar de herege ao próprio S. Irineu!
Muito em boa hora, os senhores protestantes para casos tais sempre têm recursos admiráveis. Os comentadores dos Ante-Nicene Fathers foram chamados com urgência. Segundo estes o termo advocata, advogada, é ambiguo, é vocábulo dife limo de entender. Quem é que sabe o que é um advogado, ou uma advogada? De sorte que na opinião dos mesmos exegetas seria melhor substituir advocata pelo vocábulo grego antilepsia, auxílio, S. Irineu não disse auxílio, disse advogada, mas que fazer se os doutos acham melhor que o Santo houvesse dito como eles querem?
[...]
Aborrecido, tomou o sr. Alvaro uma resolução heroica: nem os autores do Ante-Nicene Fathers, nem o erudito Grabe: exegese sua própria, lá dele, pastor Álvaro. Para S. Sa., advocata não é advogada, é chamada, isto é, chamada a si (!) da desventurada Eva, por ser a mãe do Salvador. E quem não entender, finja entendê-lo..." (pg. 125-126)
Sim, ele chegou ao ridículo de tentar transformar "advocata" em "ad vocata", "advogada" em "para si chamada". Mesmo após argumentos assim, e outros tão ridículos quanto, como o presbiteriano acusá-lo de defender teses protestantes, o Conde manteve a polidez e a alta argumentação. Citou os Pais da Igreja que o presbiteriano distorcia, mostrou-lhe as corretas traduções das Sagradas Letras, quando este presbiteriano tentava distorcer o significado de palavras latinas e gregas (ambas línguas faladas pelo Conde), enfim, não cansou de mostrar os erros do ministro protestante. Não sei qual foi o fim de Álvaro Reis, mas espero que tenha morrido católico.
É um bom livro para responder argumentos protestantes muito batidos, alguns até repetidos pelos tais "reformados", que se acham mais versados no estudo dos Pais da Igreja. Recomendo muito sua leitura.