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    Viagem ao Volga - Relato do enviado de um califa ao rei dos Eslavos

    Aḥmad Ibn Faḍlān

    Carambaia
    2018
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788569002406
    Português Brasileiro
    4.2
    140 avaliações
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    Favoritos8Desejados197Avaliaram140

    O relato do viajante árabe Aḥmad Ibn Faḍlān, que a CARAMBAIA publica sob o título Viagem ao Volga, é um dos testemunhos históricos mais surpreendentes de seu tempo. Ibn Faḍlān integrou, no século X, uma expedição saída de uma das capitais do império islâmico, Bagdá, rumo às terras do Norte, até deparar com um assentamento viking às margens do rio Volga. Sua narrativa única moldou a imagem das culturas nórdicas ao redor do mundo durante séculos, em seus hábitos e rituais. Mas não só: ao longo de um trajeto que cobriu 4 mil quilômetros e durou quase um ano, Ibn Faḍlān oferece uma narrativa vívida e detalhada dos vários povos que encontrou pelo caminho. A história começa entre os anos 921 e 922 d.C., quando o califa da dinastia abássida Almuqtadir Billāh enviou uma comitiva até o rei dos eslavos, Almaš Ibn Yalṭwār, que havia pedido ajuda para a construção de uma mesquita para propagar a fé islâmica nos seus domínios e de um forte para protegê-los dos inimigos. A Ibn Faḍlān coube a função de secretário-geral do califa e porta-voz do “comandante dos fiéis”, o que incluía a redação de cartas e a entrega de presentes. A jornada partiu de Bagdá, chegou ao reino dos búlgaros do Volga – atual Cazã, na Rússia – e criou um vínculo inédito entre o líder islâmico e os habitantes do Norte, numa missão tanto diplomática quanto religiosa. Ao longo da narrativa fica claro que os eslavos queriam se defender dos khazares – também visitados pela expedição do califa, ou o que restou dela depois das desistências causadas pelo frio. Os khazares eram um povo de origem turca recém-convertido ao judaísmo que já então cobrava tributos dos eslavos e continuava a avançar. Além de cumprir as funções burocráticas que lhe eram exigidas, Ibn Faḍlān apresenta relatos espantosos, como o de uma cerimônia fúnebre viking, além de várias observações de censura a hábitos ofensivos ao islamismo, como a licenciosidade das mulheres oguzes e os repugnantes ritos de higiene dos rus (os vikings migrados da Suécia), cujos corpos tatuados, por outro lado, considerou os mais perfeitos que já viu. Não escapam do desgosto do narrador os equívocos na prática da fé islâmica entre os eslavos. Outras passagens são dignas dos melhores romances de aventura, como a travessia do frio, “com seus cavalos, mulas, burrinhos e carroças”, e o contato com o cadáver de um homem gigantesco, além de uma bela e maravilhada descrição da aurora boreal, que Ibn Faḍlān vê como o enfrentamento de dois exércitos fantasmagóricos. Outro momento de tensão é a tentativa de bloquear a passagem da expedição por saqueadores oguzes. O espírito de observação do narrador, no entanto, se detém também em ricas minúcias sobre os povos visitados, como os hábitos religiosos e militares, a flora e a fauna, a indumentária, a alimentação, as regras de herança e casamento e as práticas sexuais. Chegando ao destino, a missão falha em entregar parte do prometido. Pouco se sabe sobre a vida de Ibn Faḍlān. Fragmentos do relato foram encontrados no Turcomenistão e propagados no século XIII, mas apenas em 1923 um historiador turco descobriu a versão atualmente conhecida, talvez incompleta, e editada em livro em 1939. É esse texto que a CARAMBAIA publica agora, em tradução direta do árabe feita pelo professor de literatura Pedro Martins Criado, provavelmente a primeira em língua portuguesa. A edição é bilíngue e traz apresentação histórica escrita pelo tradutor. O projeto gráfico, de Tereza Bettinardi, estampa na capa um desenho inspirado na topografia da região percorrida (presente em mapas na edição) e impresso em hot stamping holográfico, que reflete as cores conforme a incidência da luz.

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    Alexsander Souza de Assis picture
    Alexsander Souza de Assis27/10/2025Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    As 1001 aventuras de Ibn Fadlan

    Viagem ao Volga é uma leitura fascinante para quem se interessa por história, antropologia e os primórdios do contato entre o mundo islâmico e o norte bárbaro da Europa. Ahmad Ibn Fadlan, enviado do califa abássida Al-Muqtadir em 921 d.C., produziu um dos relatos mais importantes do século X, um verdadeiro documento antropológico sobre os povos túrquicos, eslavos e nórdicos que habitavam as margens do rio Volga. O texto tem uma profundidade surpreendente. Quando Ibn Fadlan descreve costumes, ritos e crenças, revela um olhar agudo, quase científico, de um homem que observa com espanto e repulsa a alteridade dos povos do norte. Em certos trechos, sua narrativa é de uma força quase cinematográfica, como no célebre relato do funeral de um chefe viking, talvez o primeiro e único testemunho ocular desse tipo de cerimônia. A descrição é brutal, ritualística, carregada de simbolismo e crueza. Há também passagens de genuíno desconforto. Ibn Fadlan se horroriza, por exemplo, com os hábitos de higiene dos Rus (antepassados dos russos), que se lavavam coletivamente pela manhã, usando a mesma bacia de água, em sequência, para rosto, boca e nariz. É um trecho que revela, além do choque cultural, o contraste moral e espiritual entre o mundo islâmico civilizado e o paganismo nórdico. Por outro lado, o livro exige paciência. Em certos momentos, ele perde o encanto narrativo e retoma o tom burocrático de um relatório diplomático, afinal, era de fato um relatório destinado ao califa. Isso torna a leitura, por vezes, árida, especialmente para quem busca um diário de viagem. Cabe frisar, a obra só pode ser apreciada em sua plenitude quando situada no contexto histórico correto. É essencial lembrar que Ibn Fadlan escreveu antes das Cruzadas, antes da ascensão dos seljúcidas, muito antes de Gêngis Khan e de seu canato. O “Caganato” mencionado no relato não tem relação com o Império Mongol posterior. Da mesma forma, os “russos” aqui descritos não são o povo eslavo moderno, mas os Rus’, vikings escandinavos que habitavam a região do Volga. Por isso, é um texto que exige atenção cronológica e uma leitura historicamente informada. Fora desse contexto, corre-se o risco de confundir civilizações, povos e impérios distintos. Ainda assim, Viagem ao Volga é um testemunho inestimável: o primeiro registro árabe sobre os nórdicos e um dos primeiros relatos interculturais do medievo. É uma ponte entre Bagdá e as margens geladas da Eurásia, entre o esplendor civilizado do Islã e o rude vigor dos bárbaros do norte. Recomendo fortemente: não apenas como curiosidade histórica, mas como janela para um mundo em formação, visto pelos olhos de um homem que soube olhar o “outro” com rigor, fascínio e, sobretudo, humanidade.

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    Aḥmad Ibn Faḍlān

    Ibn Fadlan (Arabic: أحمد بن فضلان بن العباس بن راشد بن حماد‎ Aḥmad ibn Faḍlān ibn al-ʿAbbās ibn Rāšid ibn Ḥammād, fl. 921–22) was a 10th-century Arab traveler, famous for his account of his travels as a member of an embassy of the Abbasid Caliph of Baghdad to the king of the Volga Bulgars, known as his Risala ("account" or "journal") His account is most notable for providing a detailed description of the Volga Vikings, including an eyewitness account of a ship burial

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