Parece natural que o país que criou uma das maiores obras de fantasia na literatura também tenha sido aquele que criou uma das melhores paródias do gênero. A Cor da Magia, pela pena de Terry Pratchett, tomou o mundo mágico de sobressalto e é o primeiro volume dos quarenta e um que compõe a saga de Discworld.
Neste volume, somos apresentados as cidades gêmeas de Ankh-Morpork, referida principalmente como uma única Cidade-Estado. É nela que encontramos a Universidade Invisível, de onde Rincewind, um dos protagonistas, foi expulso após aceitar o desafio de ler um de seus livros mágicos.
Como mago, Rincewind (que no original seria algo como Ventorançoso) é pragmático, ganancioso, covarde e extremamente azarado. Por ser incapaz de realizar qualquer magia que não a única que possuiu seu cérebro, ele é basicamente inútil como feiticeiro. Contudo, é com sua ajuda que Duasflor, uma paródia de turistas que mistura asiáticos com estadunidenses, percorre as atrações da Centrolândia.
É impossível colocar todas as referências captadas apenas na primeira parte do livro. Pratchett se divertiu ao zombar dos tropos comuns aos jogos de rpg, literatura fantástica, quotidiano londrino e política internacional. Nada é sagrado.
Mesmo os fabulosos dragões são tidos como meras histórias fantasiosas, sendo que o realistíco para o Mundo do Disco é um animal que mais se assemelha a uma praga de pântanos e manguezais. Com essa alegre derrubada dos aspectos mais preciosos do gênero, os herois e vilões seguem o mesmo rumo.
Hrun, a homenagem nem um pouco sútil a Conan, cede a ambientação de um bárbaro desmiolado e perde sua característica postura protofilosófica que seu autor original, Robert E. Howard, lhe imbuiu e que foi terminantemente descartada por seus outros escritores.
Enfim, a crítica de Pratchett é impagável e merece toda a fama que a série tem. Infelizmente, por ser de nicho e com um humor pesadamente calcado em jogos de sons e palavras como aliterações e cacófanos, muita coisa se perde na tradução. Então, deixo aqui meu aceno ao louvável esforço de Márcio Grillo nessa empreitada ingrata.
Recomendo.