Há anos cotado para o Prêmio Nobel de Literatura, eu sinto que o nome de Mircea Cartarescu soa como um palavrão para os ouvidos dos leitores brasileiros; fenômeno no exterior, esta edição é o primeiro contato do Brasil com o autor. E não posso dizer que foi uma boa degustação.
Lançado em meio a censura imposta por uma Romênia em decadência, *Nostalgia*, por mais vendido e referenciado como um *romance*, é um livro dividido em três partes;
1. PRÓLOGO, que contém a história *O Roletista*.
2. NOSTALGIA, que contém as narrativas *O mendebil*, *Os gêmeos* e *REM*
3. EPÍLOGO, que conclui o livro com a estranhíssima *O arquiteto*.
Não sendo completamente independentes entre si, pode-se entendê-las como únicas, no sentido de não importar em qual ordem que as lê, - ou, talvez, não. Como em *O Decálogo*, o seriado polaco criado por Krzysztof Kieślowski, onde acompanha-se diversas histórias que ocorrem em um mesmo condomínio, aqui, a cidade de Bucareste é quase um personagem comum a todas as narrativas, o pano de fundo dos protagonistas, - por exemplo, o narrador de uma história aparece como personagem em outra, morando no mesmo bairro, frequentando um lugar comum, e vice-versa.
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Falando individualmente das histórias;
O ROLETISTA é a mais comum das narrativas, onde acompanhamos um profissional da roleta russa, e por mais que esteja imbuída em um certo moralismo, admito que gostei;
O MENDÉBIL começa a nos introduzir na estranheza que permeia a obra, sendo a primeira vez que temos contato com uma narrativa memorialista, - algo que se repetiria;
agora, eu elejo OS GÊMEOS como o primeiro contato com a real peculiaridade de sua escrita, - é como se a narração estivesse fragmentada, onde calhamos a acompanhar Andrei, um paciente de um hospital psiquiátrico rememorando a sua própria relação com as mulheres, - que também elejo como a melhor história aqui contida;
seguimos para a soporífica REM, que volta a trabalhar personagens em suas infâncias, - que por mais que tenha um final interessante, é chatíssima (e claramente inspirada n’O Aleph de Jorge Luís Borges, e não que isso seja o cabal ponto para sua própria decadência).
daí concluímos em O ARQUITETO, uma história peculiar, que por muito me lembrou os contos de Cortázar em *Bestiário*, de 1951.
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Isto daqui é um dos píncaros da literatura pós- moderna (tendemos a só lembrar de DeLilo, Pynchon, Gaddis, mas às vezes temos que lembrar que os EUA não define o mundo), e pude entender os motivos na mesma proporção que eu refletia sobre o que eu li; Mircea é um profissional no uso da voz narrativa, invertendo os papéis, mudando os personagens sem nós nem percebermos, - chega-se ao ponto de não mais sabermos quem está falando; uma das mais difundidas características do pós-modernismo (além da metalinguagem, um recurso muito bem usado).
A estranheza não se dá apenas pela inovação no estilo, mas pela revolução narrativa, - e esta última é o exato algoz do próprio livro. Na pretensão de fazer uma escrita propositadamente cacofônica, torrencial, pondo uma enxurrada de ideias em pouquíssimas páginas, o autor acaba reivindicando por um intelectualismo barato e, principalmente, desnecessário. É até um ultraje falar que há algo *desnecessário* neste tipo de literatura, - entretanto, eu não posso negar que achei chatíssimas as descrições do Museu em OS GÊMEOS, ou a minuciosa explicação das brincadeiras em REM.
Eu li em algum lugar (talvez no prefácio; talvez em alguma outra resenha) que a memória é a chave para desvendar este livro. O comentário não poderia ser mais certeiro. Todas as histórias (principalmente aquelas que tecem a infância), são rememorações de um tempo que já passou, um tempo onde ainda havia a inocência, em que éramos menos maliciosos; a Nostalgia, que dá nome ao livro, permeia toda a obra.
Infelizmente, creio que não foi um bom primeiro contato (mesmo assim, estou querendo ler seu outro lançamento, *Solenoide*); não é uma obra que agradará todos, - um tanto por suas particularidades nada usuais, outro tanto por sua dificuldade imposta. É literatura pra gente grande. E às vezes acho que ainda sou pequenininho.
(PS: fazendo um comentário do qual não consegui encaixar na resenha, faço severas críticas à edição da Editora Mundaréu: os respectivos papéis da capa e do miolo são finíssimos (o livro não tem orelhas), sem contar nos crassos erros de revisão, tendo uma tradução que achei, em alguns momentos, no mínimo curiosa [não falo romeno, mas há muitas repetições de palavras, tal como momentos de estranheza, onde, por exemplo, crianças são chamadas de VOLUPTUOSAS (?), dentre outras bizarrices]. Pagar R$64,60 por isso não vale a pena).