"Nunca vi rastro de cobra, nem couro de lobisomem, se corrê o bicho pega, se ficá o bicho come"
Esse definitivamente vai para a estante. Num mundo fantástico em que hoje as meninas são soterradas por avalanches de heroínas insossas e submissas, temos Maria Moura - ops, Dona Maria Moura - que não permite que nenhum cabra lhe falte ao respeito.
Alguns ainda se lembram da minissérie com Glória Pires, mas se não é do seu tempo, não se preocupe, o livro vale ser lido por si só, quer com aceno ao feminismo ou não. A história, passado no sertão, retrata a vida de um povo que praticamente nada sabe além daquilo que acontece em seu quintal...
No pequeno espaço em que se situa a história, famílias se matam por pedaços de terra, crimes de morte acontecem para lavar a honra e o cangaço adquire não a forma do ativismo político que hoje tantos historiadores e jornalistas parecem abordar, mas sim a uma confluência de política e miséria - mas principalmente da última - pois, como diria o Beato Romano, que sabem eles da vida do imperador?
Há vários personagens no livro que são assim, simples em relação ao que acontece em seu próprio país, porém não há, nem por um instante, a ideia de que os personagens são simplistas. O sertanejo é um ignorante, mas não um bruto.
E voltando novamente a Maria Moura, esse é o tipo de mulher que basicamente todas as leitoras deveriam conhecer. Forte sem ser cruel, firme sem ser insensível. Não confundam Maria Moura com um Virgulino de saias, você não vai ter a impressão de estar lendo sobre um homem ou pior ainda, uma personagem desexualizada - praga que domina a literatura e o cinema, pois aparentemente, para uma mulher ser levada a sério, ela não pode ser sensual.
Recomendo.