Aos 15 anos, Naomi era uma discreta rapariga que trabalhava como recepcionista no Café Diamante. À primeira vista, parecia uma criança melancólica, de rosto pálido, quase transparente. Mas como nota o narrador, Joji, um engenheiro de 30 anos, havia algo de ocidentalizado na sua aparência e ela parecia-se mesmo com a estrela de cinema Mary Pickford. O Japão dos anos vinte experimentava então uma crescente influência ocidental. Joji morava sozinho numa pensão, ganhava bem e tinha uma vida agradável. Incapaz de resistir à sensualidade de Naomi, concebeu o projecto de viver com ela, vendo-a crescer, levando uma vida divertida e talvez um dia casando. Mas ao longo de sete anos de casamento vai descobrir uma Naomi inesperada.
Naomi -
Junichiro Tanizaki
Dialogando ou não com a realidade, a literatura é, acima de tudo, ficção, imaginação. Representar ou apresentar um personagem, um conflito, um grupo social, uma nação não significa defendê-la, concordar com ela muitas vezes significa, inclusive, o contrário. Falando de narrativas em prosa, o personagem, os conflitos (etc.) são tecidos pela narrativa, pelos seu arranjos, estruturas, em suma, é o livro quem o constrói, ainda que, indiretamente, o trabalho de inferência seja importante para o leitor e a recepção. Em um livro extremamente introdutório, Terry Eagleton tece considerações sobre alguns fundamentos da literatura, sendo um deles o personagem. Uma das suas afirmações, por mais que soe óbvia, é importante destacar, personagens não são entes vivos, não correspondem à realidade (embora possam dialogar com ela): O texto é uma configuração, um arranjo de significados, e arranjos de significados não têm existência própria, como uma cobra ou um sofá (p.54). Em *Amor Insensato*, publicado pela primeira vez em 1924 lembrando que a restauração Meiji, a política de "modernização" do Japão que o abriu para o mundo, ocorreu entre 1868 e 1912 , Tanizaki constrói, o tempo todo, personagens detestáveis. Um dos temas recorrentes da sua literatura (segundo sua fortuna crítica), é a "ocidentalização do oriente" (apesar dos problemas dessa generalização), ou seja, está diretamente ligada ao fim do isolamento do Japão e as influências externas (que chegaram no ápice após a segunda guerra mundial). Você deve estar se perguntando porque estou falando da realidade, certo? É pelo diálogo com ela, pelos paralelos e, principalmente, por um dos temas que circunscrevem o livro: a influência cultural, afinal, os personagens deste romance são dragados por ela. O modo como o narrador de Tanizaki explora essa questão é cômico. Se é cômico, é pela sutileza do autor implícito, em como o romancista está, o tempo todo, um passo atrás, recuado em sua história, para evidenciar as contradições e, principalmente, a figura patética de seu protagonista e narrador: Joji Kawai. Esse homem que começa a narrativa com 28 anos, decide contar sua história de "amor insensato", porém, o que ele descreve, é, desde o início, colocado em cheque por esse recuo, por esse afastamento irônico que Tanizaki decide explorar; afinal, como uma menina de 15 anos, poderia tramar contra um homem de 28? Durante boa parte da narrativa, esse narrador-protagonista pinta a história como se tivesse "adotado" Naomi a oriental que será, pouco a pouco, ocidentalizada (sendo esse um dos motivos que atraem Joji) , como se seu ato fosse altruísta, porém, ele mesmo, no decorrer dos detalhes, deixará suas intenções bem claras para os leitores. No fim, esse personagem, tanto em sua vida privada quanto pública, age como um patético solitário; mesmo antes ou depois de Naomi. Um homem sozinho, frustrado, incompetente (socialmente e profissionalmente). O primeiro período do livro já nos desloca para a desconfiança, antes mesmo de adentrarmos neste ato "altruísta": o narrador diz que contará "apenas a verdade". Joji é caracterizado como inseguro, tímido, solitário e, ao se deparar com a fragilidade de Naomi, pobre e influenciável, com problemas familiares, decide apostar em um "projeto de vida com ela". Esse projeto não é apenas a fetichização, a objetificação, mas a idealização de um oriental querendo alçar o mundo ocidental. Ele quer transformá-la em uma "mulher refinada" (o que quer que isso signifique), quer "cuidar de Naomi como se trata de um passarinho", ou seja, claramente quer deter sobre ela uma propriedade. O modo como Joji conta seu encantamento é, nitidamente, falseado, como se ele tivesse sido seduzido, como se ele fosse inocente o tempo todo. E essa talvez seja uma das maiores qualidades do romance enquanto construção de personagem: enquanto ele mente para si mesmo e para os leitores, quando ele acha que detinha poderes sobre ela, que estava tudo sob controle, os papéis se invertem, ela passa a ter poder sobre ele. Em um dos poucos momentos de lucidez, que geram esse efeito ambíguo, de oscilação da verdade, o narrador diz: "Covarde é o homem que, apesar de tudo, se deixa enganar, mesmo totalmente consciente de que isso o arruinará" (p. 68). Ambíguo porque cômico, afinal, é irônico ele achar que estava totalmente consciente quando, na verdade, se perdeu na sua própria idealização e fetichização. O modo como trata Naomi - "Naomi era também uma boneca rara" (p. 55) -, além de tomá-la como propriedade, a quer uma ocidental elegante, afinal, costumam "perder [a] autoestima diante de um ocidental". Com o passar da narrativa, de uma menina tímida e obediente, Naomi se torna, aos olhos desse narrador, arrogante e vulgar, espalhafatosa e geniosa, todavia, mesmo que minta e o traía sistematicamente praticamente diante de seus olhos, a submissão se inverte: se antes ele a mimava para conseguir o que quer, agora ele continuará a mimando para continuar a possuí-la. Mas a posse é diferente, é do modo como ela quer, não como ele quer. Sua ilusão de controle se dissipa rapidamente, embora continue achando que, na verdade, ela é o problema - sem nunca compreender que foi ele mesmo quem criou seu problema. Se a infância e a inocência de Naomi foi sequestrada (com o aval de sua família), ela sequestrará a inocência de Joji; ambos se destroem mutuamente. Ao final, ambos são engolidos pela cultura ocidental: querem, a todo custo, se afastar da cultura japonesa, o que condiz novamente com uma ideia Eagleton acerca da natureza dos personagens literários que "são, na maior parte, as de uma ordem social solidamente individualizada (p.67). Não se trata, aqui, de uma valoração moralizante de Tanizaki, de uma denúncia social (ou coisa que o valha), mas a possibilidade de, ao jogar com a realidade japonesa da época, criar uma narrativa sólida e acidamente construída. Seus personagens são, sim, detestáveis; como nós, nunca livres de ambiguidades. Assim, deixemos algumas palavras de Antonio Candido a respeito da personagem (e da ficção): A personagem é um ser fictício, - expressão que soa como paradoxo. De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No entanto, a criação literária repousa sôbre êste paradoxo, e o problema da verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais lídima verdade existencial. Podemos dizer, portanto, que o romance se baseia, antes de mais nada, num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização dêste. (p.55)
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