A guinada conservadora nos Estados Unidos tem trazido à tona de forma ainda mais intensa o debate em relação ao direito ao aborto e muitas mulheres temem que a nova política representada por Donald Trump interfira em seus direitos e até mesmo os retire. Nesse contexto Leni Zumas traz uma obra que imagina o cenário mais cruel e duro em relação ao direito de escolha das mulheres norte-americanas e apresenta uma distopia reprodutiva que não poderia ser mais atual.
Desde que Donald Trump foi eleito como 45º presidente dos Estados Unidos em 2016, o aborto voltou a ser uma pauta recorrente na agenda republicana. Em sua campanha, Trump prometeu revogar o marco regulatório Roe vs Wade e incitou tanto a parcela conservadora que se sentiu tentada a protestar de forma mais veemente contra o aborto legal no país, quanto a parcela progressista que vê o discurso do presidente como uma ameaça aos direitos conquistados pelas mulheres.
Roe vs Wade é um dos casos judiciais mais famosos da história americana. Em 1973 a Supresa Corte dos Estados Unidos reconheceu, pela primeira vez, o direito à interrupção voluntária da gravidez durante o primeiro trimestre, sem interferência do Estado nessa decisão.
A história de Leni Zumas começa quando o fictício Congresso dos Estados Unidos ratifica a Emenda da Pessoalidade, que dá o direito constitucional à vida, à liberdade e à propriedade a um óvulo fertilizado no momento da concepção. O aborto se torna ilegal em todos os cinquenta estados.
As Horas Vermelhas é uma narrativa fictícia, mas que poderia muito bem ser um retrato de quatro mulheres absolutamente reais e humanas. Ro, professora solteira, sente o peso da idade sobre os ombros e a urgência de ter um bebê em meio à reviravolta nas leis americanas e nos julgamentos daqueles em seu convívio. Susan é mãe de duas crianças, presa em um casamento que já não faz mais sentido e vivendo, diariamente, crises de identidade e pertencimento. Mattie tem 16 anos e se vê grávida e impossibilitada de escolher sobre o próprio corpo enquanto sente o peso de ser fruto de uma gravidez indesejada, mesmo sendo adotada por pais amorosos. E Gin é uma curandeira que vive na floresta, sendo julgada por suas escolhas e seu modo de vida até que é presa por ajudar mulheres a interromperem suas gravidezes.
O subtítulo "Para que servem as mulheres?" é uma referência direta às quatro protagonistas de Leni Zumas, como se as funções que elas desempenham em seus nichos e grupos fossem sua principal característica, como se fosse tudo o que elas representassem para a sociedade. Seus nomes raramente são mencionados, apenas quando saem da boca de outras pessoas ou quando as próprias personagens olham para si mesmas pelos olhos de outros. As protagonistas se veem sem controle sobre as próprias vidas e a questão da liberdade reprodutiva negada serve para exemplificar o controle da sociedade sobre os corpos das mulheres.
A narrativa não segue estritamente uma ordem cronológica, é guiada pelos fluxos de pensamento das protagonistas, um pouco ao estilo narrativo de O Conto da Aia. Como a narrativa segue os fluxos de pensamentos e isso é refletido na diagramação por meio de parágrafos curtos, poucos blocos de texto e espaçamento condizente com a troca de ideias, a leitura se torna bem tranquila, não é difícil ler várias páginas de uma vez só.
Pensamentos em forma de lista também ajudam a dar ênfase às emoções das protagonistas e, ao mesmo tempo, quebram textos blocados, tornando a leitura mais dinâmica. Além disso, a divisão de capítulos feita por trechos dos rascunhos do livro escrito pela biógrafa também ajudam a quebrar a narrativa e oferecer sempre um novo ponto de vista.
O livro não termina de forma redonda, Leni Zumas não faz questão de colocar um ponto final na história de nenhuma das protagonistas. Mesmo que o enredo de Ro, a bióloga, tenha sido mais bem delineado, ainda assim ficam alguns questionamentos e dúvidas em relação ao futuro e à permanência dessa Emenda, visto que o livro termina dias antes que a lei Toda Criança Precisa de Dois seja aprovada. Paira a dúvida se a autora optou por terminar o livro para dar esperança ou para deixar que a realidade escreva o restante das páginas da ficção.
As Horas Vermelhas é um livro que poderá tocar em pontos sensíveis para diversas mulheres, sejam elas pró-escolha ou não. Com quatro personagens tão diferentes, com bagagens únicas, vivências altamente pessoais e opiniões que não se relacionam com nenhuma das outras, cada mulher poderá se ver, de alguma forma, em todas as protagonistas. Um livro essencial para fortalecer o debate e para abrir o coração. Uma leitura sobre compreender a escolha de outra mulher, mesmo que você fosse fazer diferente caso estivesse na mesma situação.