Lançado em 1987, Despertar é o primeiro livro da trilogia Xenogênese, que ainda é composta pelos livros Ritos de Passagem e Imago, de 1988 e 1989, respectivamente (Octavia estava muito inspirada nessa epoca!).
Nesta história, a raça humana foi praticamente toda dizimada por uma guerra, sobre a qual nós leitores não temos muita explicação, e a Terra fica inabitável, provavelmente radiativa.
Os últimos remanescentes da raça humana foram salvos e "recolhidos" por uma raça alienígena de nome Oankali, que os mantém em animação suspensa por 250 anos, enquanto tornam o planeta novamente habitável e estudam os seres humanos de diversas formas (os resgatados e os mortos) mas nunca usando de crueldade física. Após estes 250 anos, os Oankali escolhem Lilith Iyapo, nossa protagonista, como líder dos seres humanos sobreviventes. Sua missão será Despertar e - principalmente - liderar um grupo de pessoas que voltará para a Terra, agora habitável, para recomeçarem a história da humanidade. O planeta está diferente agora e, para esta missão, Lilith primeiro precisará ser treinada pelos Oankali para depois transmitir esse conhecimento. Mas Lilith a princípio não quer esta missão. Ela primeiramente deve vencer a sua repulsa pelos Oankali, cuja aparência é repugnante aos olhos humanos: eles são humanóides de pele acinzentada, com diversos tentáculos pelo corpo, inclusive no lugar dos ouvidos e dos olhos.
Depois desta primeira etapa, Lilith precisará aceitar esta tarefa dada pelos Oankali, sobre os quais aos poucos ela vai conhecendo.
A próxima etapa é acordar os demais integrantes do grupo e lidar com todos os defeitos e qualidades inerentes a cada ser humano.
Basicamente, a premissa é essa !
Tratando agora das minhas impressões: o primeiro traço da escrita da Octavia que gostaria de ressaltar é a habilidade da autora em criar uma raça totalmente nova, de tal forma que o leitor consegue facilmente ficar imerso na história e tomar como real aqueles seres. E isso é fantástico. Os Oankali são uma raça mais evoluída que nós ( ao meu ver), não usam de violência a não ser que sejam atacados. Apesar da não violência, tratam os remanescentes como nós humanos tratamos uma espécie em extinção: a mantemos em cativeiro, tratamos dos espécimes e depois os devolvemos a seu hábitat. É exatamente isso que eles fazem com os humanos. E o preço de tudo isso é um só: essa raça sobrevive a base de permuta genética. Maiores explicações sobre esse detalhe apenas lendo o livro e descobrindo junto com Lilith. E, acreditem, as descobertas são muitas sobre os Oankali, até as últimas páginas.
A criatividade da autora é imensa! Um dos conceitos criados por ela é o da nave onde os Oankali habitam: ela é viva, cultivada! Tem um ecossistema próprio. Toda a tecnologia Oankali não é aquela que encontramos na maioria dos Sci-Fi's, ela é biológica. Não sei se algum outro autor já usou esse conceito antes, mas eu simplesmente me apaixonei por ele !
Como toda ficção científica de respeito, esta história tem que ter várias camadas, tecer críticas e passar mensagens. Li algumas resenhas sobre esse livro que diziam que a forma como os Oankali mantém os humanos é uma referência ao colonialismo europeu na África, mas eu definitivamente não poderia discordar mais: desde quando os europeus trataram os africanos com esse respeito que os Oankali trataram os sobreviventes, mesmo tendo seus próprios interesses?
Não, na minha opinião esta história é uma crítica a todos os defeitos inerentes à raça humana: somos mesquinhos, temos a tendência de nos agredir mutuamente, de nos destruir, de tomar o que queremos à força, de não tratarmos com respeito aqueles que são diferentes e mais fracos que nós. Aqueles que não são de nossa espécie são tratados com ainda mais desrespeito e descaso, vide a forma como tratamos nossos animais, simplesmente por estarmos no topo da cadeia alimentar. Até na figura de nossa protagonista há uma crítica: ela a princípio sente literalmente repulsa e ojeriza pelos Oankali, simplesmente por sua aparência. Isso nada mais é do que uma referência a mais um de nossos defeitos, a xenofobia. Claro que, como protagonista e heroína da história, Lilith supera isso no decorrer dos acontecimentos.
Para encerrar, eu digo que Octavia E. Butler deveria ser mais lida e mais reconhecida, com toda certeza!!! Este é apenas o primeiro livro dela que leio, mas sinto que será uma de minhas autoras prediletas! Que venham os Ritos de Passagem!!!!!!