O pacífico vilarejo de Eseldorf cochilava no interior da Áustria, em plena Idade Média. E assim seria para sempre, não fosse a chegada de um ser enigmático e poderoso, que irá escancarar as hipocrisias daquela pequena comunidade. Theodor Fischer, o jovem narrador, ao brincar com seus amigos no bosque próximo da cidadezinha, descobre um garoto que possui faculdades mágicas e que se diz um espírito; alega também ser sobrinho do Anjo Caído e deplora o Senso Moral, que, segundo ele, coloca os homens abaixo dos animais. Fala-se em "suspensão da descrença" quando tratamos de ficção, mas no desenrolar desta obra é uma suspensão da própria crença no que é mais inquestionável que é posta em jogo. O que é a realidade? Qual o papel do ser humano nela? Esta é uma obra por vezes difícil, mas o caminho para o mais sublime também passa por trilhas escarpadas.
O Estranho Misterioso -
Mark Twain
Maravilhoso!!!
O livro se passa na Áustria de 1590 numa pequena aldeia adormecida e apartada do mundo, onde ainda era idade média e três garotos (Theodore, Seppi e Nikolaus) são levados a enxergar a humanidade através dos olhos de um estranho misterioso chamado: Satã. O enredo que acompanhei aqui é completamente singular, inusitado e surpreendentemente fascinante. Se passa em uma época tão única da história humana, na idade das Trevas, da escuridão; onde a igreja dominava e pessoas eram acusadas e condenadas a fogueira até por respirar diferente. A desigualdade era patente, e nessa aldeia perdida no fim do mundo várias histórias vão se desenrolando em uma crescente tão irregular e única que somos pegos pelo redemoinho e levados a vários extremos em pouquíssimo tempo. Me sensibilizei muito com alguns dos acontecimentos. Em um dado momento Satã levou Theodore para ver como os donos da fábrica na França tratavam seus funcionários e isso me fez lembrar do documentário Carne e Osso, que assisti há duas semanas, e me veio lágrimas aos olhos novamente ao recordar dos corpos mutilados e deformados pelo trabalho pesado, repetitivo e prolongado que aquelas pessoas eram sujeitadas para no fim, serem cruelmente descartadas e abandonadas a própria sorte... E ali concordei com Satã; realmente o senso moral humano não passa de uma expressão que engrandece o orgulho de seres que se acham melhores que os animais, sem o ser. Mark Twain ataca o ego humano de forma tão didática e pessimista que é quase impossível discordar de tudo que ele diz. Ele analisa o bem e o mal e faz uma perturbadora investigação sobre a natureza humana. Esse livro é uma viagem pela história da existência do homem através do olhar cético e cansado de um autor que chegou ao final da vida completamente desiludido e decepcionado com a humanidade. Chegando a conclusão de que o bem e mal são uma única coisa e estão ambos presentes em Deus, em Satã e na Natureza. Com uma escrita envolvente e quase onírica Mark Twain consegue prender a atenção do leitor e arrastá-lo para um lugar de reflexão, onde ele desnuda todos os defeitos e contradições que a humanidade carrega desde sua criação. O autor com certeza mexeu comigo e me fez refletir com o inusitado personagem Satã... sem contar o final, completamente anômalo, que me fez ficar perdida em uma viagem mental tentando compreender todos os significados das últimas palavras de Satã para Theodore. Que leitura maravilhosa, fluída e intensa! Recomendo muitíssimo essa indagação carregada de descrença e desesperança cheio de verdades duras e perturbadoras que esse grande autor deixou como seu último livro.
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