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    Dostoiévski, vol. 1 - As Sementes da Revolta (1821–1849)

    Joseph Frank

    EDUSP
    2008
    504 páginas
    16h 48m
    ISBN-13: 9788531404948
    Português Brasileiro
    4.7
    71 avaliações
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    Favoritos15Desejados194Avaliaram71

    Primeiro de uma série de cinco volumes dedicados ao grande romancista russo, este livro é bem mais do que uma biografia convencional. Levado pela escrita fluente e profundo conhecimento do assunto de Joseph Frank, o leitor vai conhecendo o perfil do artista em formação, com os dados do ambiente sociocultural sendo articulados às idéias, valores, sentimentos e conflitos que moldaram a personalidade de Dostoiévski, dando-se especial atenção às influências artísticas e intelectuais que formaram seu pensamento e estilo. Aqui são abordados os primeiros anos da vida familiar do escritor, sua educação escolar e religiosa, o dilema entre a vocação literária e a carreira militar, o aparecimento dos primeiros contos e novelas, como O Duplo, e ainda seu retumbante ingresso nos círculos literários de São Petersburgo.

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    Rhuan Moreira Maciel picture
    Rhuan Moreira Maciel10/06/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Questão religiosa Olhando para a sociedade russa, prevalecia dentre os aristocratas um certo ceticismo, ou pelo menos um afastamento da religiosidade, muito influenciados pelo pensamento de Voltaire. Portanto filhos de aristocratas não chegavam a ter muito conhecimento acerca da religião, exemplos disso são Tolstói e Turguêniev. Então o que acontecia era que eles travavam conhecimento dessas crenças através de seus empregados, uma vez que, diferentemente de seus patriarcas, o povo possuía uma imersão muito grande na igreja ortodoxa. Em meio a tudo isso, Dostoiévski teve uma grande educação eclesiástica, já que seus pais eram religiosos. Por isso aprendeu a ler em livros bíblicos e sempre houve uma aceitação muito grande da palavra de Deus. Apesar de seu pai, com seu temperamento carrancudo, chegar a questionar Deus os motivos de suas penitências. E essa característica aparecerá nos romances de Fiódor. Um exemplo claro é Ivan Karamázov e seu conto do Grande Inquisidor. Porém juntamente com essa personagem vinha Aliócha e padre Zóssima, pessoas extremamente fiéis e devotas. Essa dualidade dostoievkiana será latente ao longo de sua vida. E essa questão é bem interessante, porque traz um conflito interior expresso em seus livros. E embora seja crente, ele consegue trazer suas perguntas e seus conflitos para dentro de suas personagens. Como pode um Deus benevolente reinar um mundo com tanta injustiça? Essa pergunta também está intrínseca em suas histórias. Em contraponto a humanidade e afeição pelo povo sofredor, pelos desfavorecidos, sempre foi algo muito forte em suas ideias. Isso é claramente visto já em seu primeiro título, Gente Pobre, que inaugura um tipo de romance social, retratando seres miseráveis, mas dotados de pensamentos, vontades e virtudes. Uma frase do narrador de A Aldeia de Stepántchikovo expressa exatamente isso. Golyádkin, em O Duplo, tem também um aprofundamento interno, contrastando com uma personagem similar de Gógol em O Capote. Formação cultural Além de sua forte educação eclesiástica, Dostoiévski possuiu diversas influências literárias ao longo de sua juventude. Karámzin foi um dos primeiros, trazendo o sentimento nacional de exaltação à Rússia e também suas aspirações de vida metafísica. Outros autores russos foram muito fortes em suas referências, diferentemente da educação aristocrática, a qual prevalecia um ensinamento mais europeu e ocidentalizado. Dostoiévski não, desde o início já travou contato com a literatura nacional. Walter Scott e Schiller também foram grandes referências ao russo, de forma que a obra Os Bandoleiros foi recorrentemente referenciada e apropriada para seus títulos. O alemão também exerceu grande relevância na vida de Dostoiévski, trazendo assim as ideias do idealismo alemão para o autor, o qual irá no futuro defender a tese da expressão da metafísica na forma da arte. Porém a maior influência de todos os autores foi Púchkin, que figurou para a criação de diversos personagens dostoiévskianos. Além de Dostoiévski sentir bastante a morte do poeta. Toda essa força do escritor em sua vida durou até os últimos dias. Academia Militar de Engenharia Foi um período conturbado na vida de Dostoiévski, onde perde seu pai e desenvolve uma grande culpa em relação a isso. Já que todos achavam que o dr. Dostoiévski fora assassinado pelos seus servos. E seu filho pedia constantemente dinheiro para coisas não necessárias, apenas para não ficar destoando dos demais. A conclusão do futuro escritor foi a de quê causara em partes esse incidente, uma vez que a crise financeira de seu progenitor, provavelmente, foi um dos fatores que pode ter levado o criado a cometer o crime. Pesquisas ulteriores colocam em dúvida esse assassinato. Após a morte de seus pais e de Púchkin, Fiódor convenceu-se a procurar, entender e explicar o fator humano, suas nuances e segredos. A forma como foi feita foi através da literatura, assim como acreditava o idealismo alemão. Essa procura foi determinante para sua obra posterior, aprofundando a psique de cada personagem. Dois romances "Na verdade, um dos segredos de seu gênio pode ter sido sua recusa a optar sentimentalmente entre as tensões pessoais e as tensões literárias criadas por sua igual devoção aos dois romantismos. De um lado, temos seu compromisso com o romantismo metafísico mais tradicionalmente cristão, preso ao sobrenatural e ao transcendental - uma visão cristã pelo menos em espírito, ainda que nela o artista seja substituído pelo sacerdote e pelo santo. Mas, de outro lado, temos seu forte apego emocional à aplicação prática dos valores cristãos da piedade e do amor - à vaga “filantrópica” do romantismo social francês que cresceu de maneira irrestível depois de 1830. Um lado mantém seu olhos fixados piedosamente no eterno; o outro reage às necessidades do momento. O primeiro concentra-se na luta interior da alma por sua purificação; o segundo combate a influência degradante de um ambiente embrutecedor. O supremo valor atribuído ao sofrimento choca-se com a compaixão pelos fracos e oprimidos; a necessidade de justificar os desígnios de Deus para o homem colide com o desejo de reformar o mundo. Essas forças em confronto atuaram sobre Dostoiévski como dois imperativos, um de ordem moral, outro religioso, e o equilíbrio dessas pressões opostas ajuda a explicar o impacto sempre trágico de suas melhores obras literárias." Gente Pobre Dostoiévski, com a criação de sua primeira obra, sintetiza as narrativas de Gógol e a visão de Púchkin. Bielínski o reconhece como uma grande promessa da literatura russa, trazendo a inauguração do romance social, incorporando a escola natural que está sendo desenvolvida. Portanto ele já estreia com um grande alvoroço dentro da crítica literária, realizando o que queria. O gênero epistolar, anteriormente, foi utilizado apenas para uma gama de personagenes mais bem sucedidos, vulgo aristocracia. Assim Gente Pobre rompe com essa tendência, colocando no panorama central duas personagens paupérrimas. Entretanto a forma humana e psicológica são um dos fatores diferenciais de Dostoiévski, pegando assim personagens gogolianos, mas não tratando eles sob a ótica de alguém superior, mas sim de uma forma sentimental e viva. Seus personagens possuem valores morais, e isso é visto de forma clara quando Dievúchkin recebe o aperto de mão do juiz, a maneira como ele recebeu aquela ação foi uma das demonstrações que ele não era simplesmente inferior economicamente, mas sentia a inferioridade moral que o tratavam. Essa obra foi um protesto contra a miséria humana. Fiódor demonstra a sua sensibilidade e profundidade. Introduz na Rússia um gênero efervescente na Europa, e que tomará proporções gigantescas na literatura e na teoria russa. Aborda de uma forma artística o socialismo utópico francês. A contestação da exploração e a degradação dos menos possuidores. Com certeza a genialidade de Dostoiévski já é perceptiva nessa sua iniciação no mundo de escritor, e várias características irão amadurecer dentro de seus romances, principalmente essa questão psico-moral de seus personagens. Plêiade de Belínski No início houve uma relação de êxtase. Uma grande euforia tomou conta de Belínski e seu círculo com o primeiro romance de Dostoiévski, já que a obra era uma inovação na literatura russa. Gógol desenvolve suas histórias pela síntese, enquanto Gente Pobre foi desenvolvido pela análise, observou a crítica literária. Então o romance social ganha um nome de peso. Dostoiévski já de início ouviu muitos elogios e deslumbrou-se com suas novas “amizades”, como Turguêniev e Nekrássov. No entanto, a personalidade dificultosa do autor junto com seu deslumbramento o levaram a uma briga terrível. Assim Fiódor vai de um dos melhores momentos de sua vida para um dos piores. Sua relação com esse círculo literário foi constantemente degradando, seja com novos escritores ou com escritores já mais velhos. Dostoiévski, após todo o alvoroço, ficou extremamente difícil de se relacionar, já que achava-se um escritor sem igual, não dando ouvidos para as críticas. Logo após tudo isso acontece o desapontamento com O Duplo e alguns contos seus. Turguêniev começa bater de frente com a nova ascensão da literatura, zombando com escritos de sua autoria. Outros nomes também dão continuidade a diversos conflitos e zombarias com Dostoiévski. Apesar disso Belínski não concorda com a coerção, porém irá rescindir com ele por outros motivos. A ruptura entre os dois se dará por questões filosóficas, religiosas e morais. Dostoiévski absorveu as ideias do idealismo alemão, colocando a arte suficiente por si só, ou seja, não devendo sujeitá-la a nada, deixando o artista livre para compor suas obras. Enquanto Belínski, influenciado pelo hegelianismo de esquerda e pela escola natural, queria submeter a arte às utilidades humanas, devendo possuir uma ligação com a prática. Outra divergência é o fato do socialismo utópico nas concepções de ambos, uma vez que para o primeiro as ideias de Fourier e o socialismo com o viés cristão era a chave para os problemas do mundo, e para o segundo essa teoria já estava ultrapassada, chegando a assimilar críticas mais fortes à religião, ocupando-se de economia política e uma moral humana superior a moral divina. Dostoiévski continuava com a posição análoga a feuerbachiana, a qual quer utilizar a base cristã para a revolução, embora Feuerbach tenha feito uma crítica a religião. Max Stirner influenciou vários socialistas russos, rompendo com a moral divina. Círculo de Petrachévski Dostoiévski não teve muita participação nesse círculo, já que seus encontros e reuniões iam cada vez mais de encontro ao socialismo utópico e sua superação (Feuerbach, Stirner). Uma vez ou outra participava quando atacavam sua concepção de arte ou ofendiam Deus. Sua relação com Petrachévski era formalmente boa, entretanto Fiódor não gostava desse homem, pois zombava bastante da fé alheia e já entendia a religião como alienadora, concordando com argumentos de uma nova moral humana, superior e focada no próprio homem. Revolução e prisão Dostoiévski com o tempo se afastava cada vez mais do círculo de Petrachévski, no entanto Spechniev atraía sua atenção, de modo que entra em um grupo secreto organizado por esse homem. Spechniev entendia a revolta popular e a utilização do Estado como meios para o socialismo, diferenciando-se do forte fourierismo que rondava o círculo de Petrachévski. É bastante ambígua a posição de Fiódor quanto a essas convicções, e alguns críticos e historiadores colocam como se ele não fosse favorável a essa ideia. Entretanto Joseph Frank discorda, e de acordo com algumas atitudes de Dostoiévski, afirma sua posição no mínimo condescendente, se não apoiador. Outro círculo surge pelo rompimento com o excessivo fourierismo do anterior, o círculo de Palm-Dúrov. Nesse meio filtrou-se aqueles que atribuíam a arte uma mera ferramenta de agitação social, ficando a concepção idealista alemã e a exaltação da arte pela arte. Assim vários integrantes se juntaram ao grupo pela adesão à arte. Porém, também, o grupo secreto de Spechniev adentraram nesse círculo, tentando torná-lo um biombo de suas posições revolucionárias. Dostoiévski recita num desses encontros a carta de Bielínski a Gógol, reforçando as ideias abolicionistas e contra-hegemônicas. Spechniev e seus parceiros possuíam a intenção de criar obras que incitassem a população, o que não foi visto com bons olhos pelo restante do círculo de Palm-Dúrov. Enquanto isso, no círculo de Petrachévski discutia-se se a prioridade ação era modificações na estrutura jurídica ou abolição da servidão. Sabe-se que Petrachévski era contra a tomada do Estado pelo povo, e não gostava de escutar a palavra ditadura, por isso apoiou a primeira opção, uma vez que a segunda poderia trazer conflitos de classe catastróficos e decisivos para a sociedade russa. Também é de conhecimento que Dostoiévski estava do lado dos que apoiavam a segunda opção. No meio disso tudo haviam infiltrados da polícia no círculo, e mesmo Dostoiévski participando só de duas das últimas reuniões, acabou sendo preso em abril de 1849, junto com muitos integrantes do círculo de Petrachévski. Obras menores Em todas suas primeiras obras, Dostoiévski tenta utilizar-se de conceitos e estilos já ultrapassados revitalizando-os. Alguns exemplos disso são: o gênero epistolar de Gente Pobre, a utilização de doppelgänger em O Duplo, a alusão fantástica de A Senhoria, o personagem sonhador de Noites Brancas. Em todos esses, o autor utiliza de recursos já conhecidos na literatura, porém tenta fazer algo novo com eles. Alguns conceitos de sua posterior obra já aparecem também nesse início, mesmo que de forma ainda embrionária. Em A Senhoria, Dostoiévski desenvolve o tema da liberdade com a servidão de Ekaterina, a qual não é obrigada a nada, entretanto pelas suas próprias características, coloca-se nessa posição de subjugação. E já aparece nas palavras do velho Múrin o que será abordado na Lenda do Grande Inquisidor. Disputa pela arte No que tange a sua visão sobre a arte, Dostoiévski fica no caminho da discussão de seu tempo. Enquanto os socialistas utópicos, Bielínski e a escola natural colocam a arte como um objeto das questões práticas da vida, os anteriores idealistas alemães entendiam-na como uma forma de conhecimento transcendental, elevando-na a algo puro e suficiente por si só. Assim, Dostoiévski encontra-se em um meio termo dessas divergências. Ele não crê que a arte deva ser um mero apêndice da política, porém também vê a importância do romance social na sociedade. Então vale a ideia de que ele tenta juntar as duas visões, não sendo um nem o outro.

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    Joseph Frank

    Joseph Frank foi professor emérito de Literatura Eslava na Universidade de Stanford, na Califórnia e também lecionou na Universidade de Princeton, em Nova Jersey. Frank ficou conhecido como o autor da principal biografia de Fiódor Dostoiévski, um trabalho monumental dividido em cinco volumes, sendo o primeiro deles lançado em 1970. Em 2009, lançou uma versão da obra condensada em apenas um volume: <i>Dostoevsky: A Writer in His Time</i>, editada por Mary Petrusewicz. Além do interesse por Dostoiévski, Frank também atuou como crítico e escreveu artigos sobre artistas diversos, incluindo Robert Penn Warren, Henry James, Gide, Flaubert, Mann, Malraux, Goya, Cézanne, Camus, Sartre e Proust.

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    Joseph Frank