Aos meus olhos, a incessante névoa de onde surgem, ressurgem e desaparecem os homens tão desejosos de outros corpos - para amar, para possuir, para matar - de Brest, vilarejo fictício onde se passa Querelle, é também a incessante força do desejo que inunda a mente e os corpos dos marujos, pedreiros, policiais e ladrões, todos tão fracos diante da fome por um outro corpo, ou, mais especificamente, outras partes de outro corpo. Em Querelle, Genet nos mostra exemplos tão maravilhosos de como, ao transar, transamos com partes do corpo do outro; que ao transar, não se abarca todo o outro corpo, em sua inteireza. Porque o corpo é ainda mais.
Querelle encanta. Há anos esse livro aguardava por mim na minha estante. E foi só esta semana que o peguei para ler e fiquei acompanhado dele, de boca aberta, a língua nos dentes, os dentes mordendo os lábios: Querelle é um livro-transa.
Genet, escritor marginalizado, escrevia sobre uma vida que é, em seus romances, marginal: a vida dos ladrões, das bichas, bem como dos sentimentos marginalizados pela força repressora da moral que habitava dentro deles, duelando contra outra força ainda mais forte: a força desejosa de possuir outro corpo.
Genet, para sempre meu mais novo escritor predileto. A fome de seus personagens está em mim agora, transformada na fome de um leitor que a partir de então deseja ler tudo desse escritor genial.
Sartre abismou-se da capacidade poética de Genet, que cresceu no subúrbio, entre crimes, e que escreveu romances no chão da cela de uma cadeia. Como poderia, espantava-se Sartre, tal gênio poético brotar do chão mais sujo? A resposta talvez estivesse exatamente na pergunta: o grande gênio poético também brota escandalosamente no chão mais sujo.