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    Orlando - Uma Biografia

    Virginia Woolf

    Martin Claret
    2019
    305 páginas
    10h 10m
    ISBN-13: 9788544002131
    Português Brasileiro
    4.1
    4801 avaliações
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    Em Orlando: Uma Biografia, que Virginia Woolf considerava “simples brincadeira de criança”, “as férias de uma autora”, “uma escapadela depois desses livros sérios de experimentação poética, tão exigentes em matéria de forma”, “uma narrativa ao gênero de Defoe” para diverti-la, ela brinca com toda a seriedade não apenas com o leitor, a literatura e a pessoa biografada (no mundo chamado real, sua amiga e amante, Vita-Sackville West). Do mesmo modo que uma criança brinca (também com toda a seriedade) a fim de apreender o mundo em que vive e aprender a lidar com ele, ela busca captar nuances do ser a partir de temas como a história, as convenções sociais, as leis que governam os homens, os costumes de seu país, a política, o amor, o poder, a morte, o casamento, a busca de liberdade, a fantasia e a realidade, a busca de uma unidade identitária, a pluralidade de “eus”, as diferenças de sexo e gênero, a natureza e a civilização, o tempo, a geografia. E, mais que tudo, a própria literatura.

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    Arsenio Meira picture
    Arsenio Meira27/07/2014Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    LONGA JORNADA QUATRO SÉCULOS ADENTRO

    O grande Ítalo Calvino considerava a longevidade das obras como uma das marcas que permitem atestar seu valor e atribuir-lhe o nome clássico. É este o caso de "Orlando", da mítica Virgínia Woolf, uma das escritoras mais relevantes de todos os tempos. A obra atesta seu grande alcance temporal por ter sido alvo de diversas interpretações e estudos desde sua primeira publicação em 1928 até os dias de hoje. Mas não só por sua fortuna crítica que o romance é indispensável: em Orlando, os séculos sucedem-se e os inventos do homem são apresentados com pouca importância frente às vivências do protagonista. Em certo momento da narrativa, o personagem está à janela e assiste ao fantástico correr do tempo histórico na narrativa, que vai desde o advento da energia elétrica e do automóvel, até o tempo em que a obra foi concluída por Virgínia Woolf, no ano de 1928. As mudanças históricas são enumeradas, elencadas, mas culminam em algo que não pertence ao domínio dos grandes acontecimentos exteriores, e sim à vivência íntima e profunda da consciência do tempo na personagem. Dentre outras razões, é por esse viés que a obra revela sua atualidade e riqueza ao seguir respondendo a outras questões de tempos diversos pelo modo como é construída. Um exemplo é o fato de ela familiarizar-se com paradigmas tão atuais, como o do conceito pós-moderno de Metaficção Historiográfica - o romance cuja natureza apreende a autorreflexão e uma forte vinculação à história. A vida é bem menos coerente e constante do que sua narrativa e a própria existência dessa narrativa da vida pressupõe ações que completem os espaços vazios dos documentos, da memória e da percepção humana. As mudanças históricas são enumeradas, elencadas, e traduzem a consciência íntima e profunda do tempo na personagem. No caso da personagem de Woolf, a crise vivenciada não desemboca apenas em uma sensação de desajuste e de frustração. Outro elemento mágico, tão surpreendente quanto a rápida transição secular referida antes, promove uma saída. Woolf promove a transformação que se dá após o sono de sete dias vivenciado por Orlando é a abertura.Ao transformar-se em mulher, Orlando não deixa de ser quem é. Ao mudar de sexo sem intenção, altera seu futuro, mas não carrega nenhuma mácula no que tange à sua identidade. A mudança de gênero de Orlando configura-se como uma saída para a crise vivenciada anteriormente, uma superação da frustração existencial. É o surgimento de uma nova possibilidade de existir no mundo. Essa nova possibilidade não encerra na existência feminina a possibilidade de vivenciar experiências que a ela não pertenceriam. Apesar de Woolf abordar as limitações culturalmente impostas às mulheres, a mudança de gênero não limita Orlando de forma alguma. A personagem reconhece as sanções impostas à condição feminina pelos liames sociais. A saída para a existência ambígua será efetivamente a vivência da ambiguidade no que ela também apresenta de abertura à vida. Tal vivência se dará pela inescapável jornada a que a personagem vê obrigada a percorrer, refletindo a complexidade do que ocorre em Orlando, pois a obra não trata de um homem que se veste como mulher ou do inverso,trata-se de um ser complexo que é (foi) homem e que é também mulher e que, portanto, se posiciona com intensidade em ambos os lados.Nesse sentido, Orlando responde ao horizonte de expectativas de nossa contemporaneidade: o personagem resolve sua crise, não optando por esta ou aquela existência, mas por esta e aquela, ser outros continuando a ser o mesmo ser plural. Orlando representa, nesse aspecto, uma forma de resolução da contradição que se realiza através da vivência plena dessa contradição: nem apenas homem, nem apenas mulher ser em uma terceira via, sobretudo livre, colocando em pauta uma possibilidade mais plena de realizações, de vivências, de abertura à vida. Enfim, é um romance essencial, posto que evidencia a riqueza da obra de Woolf no que diz respeito à sua capacidade de responder questões ainda tormentosas para o ser humano, mensurando os valores que permeiam sua própria existência em diferentes momentos, sob diferentes horizontes de expectativas. Ao proporcionar isso, a obra apresenta-se então como resposta para inquietações humanas de seu tempo.Assim como abarca o questionamento da existência de uma verdade histórica una, o percurso de Orlando abarca também se é possível conviver com uma identidade una ao explorar os conflitos de um sujeito que aos trinta anos dá-se conta da limitação do lugar que tinha como seu na existência. Portanto, inconteste a riqueza da obra e sua atestada longevidade: obra que se mantém atual há mais de oito décadas. Resta saber a que novos problemas e concepções do ser humano Orlando servirá como uma resposta. O que será revelado nas futuras leituras da obra? O certo é que, enquanto leitura de um clássico, revelar-se-á sempre nova, pois um clássico, no dizeres de Ítalo Calvino, com que abri a resenha e com o qual fecho estas linhas: é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

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    • 5 estrelas36%
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