Dôra, Doralina -

    Rachel de Queiroz

    Siciliano
    2000
    247 páginas
    8h 14m
    ISBN-10: 8526704664
    Português Brasileiro

    Quando todos pensávamos que a cronista havia absorvido ou asfixiado a romancista em Rachel, ela nos surpreendeu de repente com um romance em que unia o Nordeste e o Rio, o mundo rural e o mundo urbano, todas as suas experiências, não só literárias, mas humanas. Trinta e seis anos se haviam passado desde "As três Marias" e seu pequeno mundo, Rachel nos prometia um romance, "O solitário". E súbito nos veio este romance-síntese, um livro complexo e completo, trocista (como a própria escritora) e sério, trágico. Divide-se em três partes - o "Livro da Senhora", o "Livro da Companhia" e o "Livro do Comandante". E termina em pleno Nordeste, num tom trágico que muitas outras vezes se insinuara nos romances de Rachel jovem. E então a escritora quis acrescentar aquela cena da bezerra, de uma beleza grave e cativante, um hino de amor à vida, que se renova, que renasce insistentemente. Um romance de amor. Parece que a ficcionista hesitou um pouco entre a Senhora e Delmiro. Ambas, figuras patéticas. Mas acabou se fixando em Dôra, Doralina e o romance flui com uma naturalidade que nos conquista. Não é um romance difícil. É um texto que nos envolve de mansinho. A conclusão deste romance é a vida a sobrepor-se à morte. Este livro é mesmo o "Livro do Comandante", ou do amor de Dôra, Doralina pelo seu Comandante, figura intensa. Há aspectos do Rio de Janeiro da década de 1950 que dão ao romance um sabor muito dele. São duas personalidades fortes, desafiadoras, que se encontram, que se defrontam: das Dores, Maria das Dores, e o seu Comandante. Dôra, que tinha fama de ser mulher que não chorava nunca... Romance de gente, romance da humanidade de Dôra e do Comandante. Livro que nos atinge em cheio. Porque é apenas uma história de amor. Dôra, Doralina nas horas de amor, descobriu num bar os olhos do Comandante, e neles se libertou de si mesma. O amor como liberdade absoluta.

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    DIRCE PIRES DO NASCIMENTO NANNI26/06/2014Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A “má” filha a casa volta.

    Dôra Doralina é o terceiro romance de Raquel de Queiroz que leio , leituras que serviram para corroborar uma “tese” minha: grandes escritores(as) sempre constroem seus romances de forma que eles sejam mais do que mera distração – suas narrativas são permeadas de ficção e realidade. Uma temática recorrente nos romances da Raquel de Queiróz é a LIBERDADE, a necessidade das mulheres de 20,30 e 40 que se sentiam vítimas da sociedade patriarcal, se verem livres da opressão, e essa temática também se faz presente no romance Dora Doralina. Por meio dos três livros que compões o romance - I Senhora, II Companhia e III Comandante-, acompanhamos a trajetória traçada por Dora ou Maria das Dores,a jovem que traz a dor imbuída em seu nome , em busca da sua identidade. No livro I (Senhora) Dora, que é a narradora dos 3 livros, por meio do fio condutor da sua memória, narra a relação conflituosa com sua mãe – a Senhora -, o seu ressentimento diante da sua frieza e distanciamento e a dor que tomou conta do seu peito diante da esmagadora traição da Senhora e Laurindo. A viuvez e traição foram a gota d’água. Nada mais a prendia a Fazenda Soledade. Dora sente a necessidade de deixar para traz suas lembranças, inclusive as da sua infância, e o presente que lhe era tão doloroso. Ela sente a necessidade de buscar uma nova vida. Em sua busca, Dora vai parar na Companhia de Teatro- livro II -, ocasião em que conhece Estrela e o Seu Brandini, pessoas com a quais ela cria um forte vínculo de amizade e que, a despeito da sua timidez e falta de talento, a transformam em uma atriz do teatro mambembe. Tentando romper definitivamente com seu passado, ela assume uma nova identidade – se torna na atriz Nely Sorel. De bilheteria em bilheteria Dora vai realizando seu sonho – o sonho de liberdade, até que, ao se dirigirem ao Rio de Janeiro por meio da travessia do velho Xico (o Rio São Francisco) ela conhece o Comandante e se torna prisioneira de um grande amor. No Rio de Janeiro Dora se vê obrigada a escolher entre o amor e a profissão. Sem grande conflito ela escolhe o amor, afinal se tornar uma atriz não estava nos seus planos. E é no livro III ( Comandante) que ela narra sua permanência no Rio e a convivência com o Comandante. O curioso nessa relação é que Dora, uma jovem tão rebelde, se transformou em uma mulher submissa, mas foi uma relação que serviu para fortalecê-la. Observa-se no romance citações de acontecimentos históricos no Brasil como a Coluna Prestes e a II Guerra Mundial. Observa-se ainda a discrepância entre a vida urbana e a rural e a força da sociedade patriarcal, embora no romance essa força tenha sido representada inicialmente pela figura da Senhora, e no final pela figura da nova Senhora : Dora- a mulher que retorna ao seu ponto de partida atendendo ao apelo das suas raízes, pois afinal, Soledade era sua referencia para um recomeço, o que ratifica o ditado: o bom filho, ou melhor, a “má” filha a casa volta. Dora Doralina seria merecedor de 5 estrelas não fosse eu ter me sentido um pouco entediada no livro II – Companhia, e por esse motivo dou 4 estrelas.

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