Nas primeiras páginas do livro está uma citação que permeia toda a experiencia de leitura:
Vi que não era um livro, mas um prefácio. Prefácio de quê?.
A resposta para essa pergunta só conseguiremos entender nas últimas páginas.
Tal qual as ideias nos aguardam para serem despertadas, verbalizadas e significadas, o narrador sem nome de Cocteau aguardava uma inspiração para transpor a literatura, esbarrar em outras artes e por fim, descrever a humanidade e suas complexidades temáticas e sentimentais.
A inspiração em questão acaba sendo os Eugenes seres canibais que assassinam, comem, e depois vomitam, um casal burguês e o Potomak, um monstro escondido num aquário debaixo de uma praça que o instiga a escrever.
E aqui achamos o verbo que define essa obra: Instigar.
Os Eugenes instigam suas vitimas à morte, renascimento e reconhecimento de sua humanidade. Os Eugenes e o Potomak insitgam o narrador à escrever sobre eles, quase que impulsivamente. E a obra toda nos instiga à morte, renascimento e reconhecimento de sua humanidade.
Acontece com nós, leitores, o que acontece com os Mortimar, o casal canibalizado:
Não procure Mortimar, exceto em você mesmo.
A morte é o princípio, a aceitação de sua inevitável vinda é também tema de uma das muitas viagens na psique humana que o narrador dá. A morte seria então, de acordo com ele, a crise da humanidade. Para ele podia ter sido a primeira guerra mundial, que iria acontecer alguns meses depois de Cocteau terminar de escrever; para nós são muitas as possíveis crises, mas como o narrador diz, não devemos temer, pois a vida é uma sala de jantar onde é servido o almoço, a morte.
É depois de experienciar a morte que os Mortimar renascem, e a primeira coisa que fazem é reconhecerem-se em sua empregada. Os Eugenes são o ponto de virada, e é por eles que os Mortimar, a humanidade, adquirem a consciência de classe e reconhecem sua humanidade.
É para essa parte do processo que se dedica todo o resto do livro: reconhecimento da humanidade. Através dos poemas, inspirados pelo misterioso Potomak, das cartas ao amigo Periscario, ou das solitárias viagens e pensamentos do narrador, Cocteau nos apresenta o que é ser humano. Seus temas abrangem todo o existencialismo e sentimentalismo humano, e sua linguagem transborda da literatura para todas as outras artes, citadas ou permeadas pela fabulosa articulação que o autor faz.
O Potomak me parece então um prefácio à humanidade. Um manual para entender o que é ser humano, com todas as formas de arte, expressão e complexidades de pensamento que disso decorrem. O livro que precisamos entregar quando formos dominados por nossos próprios Eugenes, um dicionário em desordem de todas as nuances do ser humano.
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Uma obra-prima da literatura é sempre um dicionário em desordem."