Assim Começa o Mal -

    Javier Marías

    Alfaguara
    2015
    532 páginas
    17h 44m
    ISBN-13: 9789896650087
    Português

    Assim começa o mal é um livro sobre um dos factores mais determinantes na vida de qualquer um, condutor de desprezo por qualquer lealdade, consideração ou respeito para com os outros: o desejo

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    Alexandre Figueiredo12/09/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O cinema literário

    A leitura de um livro de Javier Marías dificilmente será perda de tempo. Este espanhol que, para meu gosto, é um dos maiores escritores vivos, sabe como fazer literatura. Alta literatura, é preciso frisar. Claro que isso pode implicar em algumas dificuldades para um ou outro leitor, mas nada que preocupe, basta ter paciência - e paciência é uma exigência da qual o autor não abre mão. Em “Assim começa o mal”, no entanto, a sensação de prazer indescritível em ler Marías não se repetiu conforme eu esperava. Aqui aparecem, mais uma vez, as clássicas obsessões do espanhol como o peso do segredo, a impossibilidade de conhecer verdadeiramente os outros e a si mesmo, as digressões filosóficas sobre as relações a dois e, como não poderia faltar, uma trama cinematográfica. E é neste último ponto que pretendo analisar o romance. O cinema aqui tem propositadamente um peso maior em relação aos seus outros dois livros que li, o memorável “Coração tão branco” e o ótimo “Os enamoramentos”, mas é um peso que talvez a obra não tenha conseguido sustentar sozinha. Explico na sequência. Pretensos cinéfilos como eu vão encontrar em “Assim começa o mal” demasiados ecos de Hitchcock e Almodóvar - o que está longe de ser ruim, é preciso dizer, mas atrapalham a experiência. Talvez se você que lê este singelo texto já assistiu a “Um corpo que cai” do mestre do suspense e “Tudo sobre minha mãe” da estrela espanhola irá entender melhor o que digo quando ler o livro, do contrário, ignore esta frase. No livro, Juan de Vere, nosso protagonista, passa, conta e pensa sobre situações que em muito se assemelham às narrativas das películas citadas, ainda que em seu cerne ofereça particularidades interessantes, como o panorama político e social da Espanha pós-ditadura franquista, tema tratado com muita lucidez e que não havia sido abordado com maior profundidade nos outros livros que eu conhecia. As altas expectativas podem nos agarrar de tal maneira que, às vezes, podem se tornar difíceis de se desvencilhar. Talvez esse tenha sido o meu caso. Para um livro de 520 páginas o resultado final, apesar de satisfatório, foi um pouco enfadonho, pois a mesmíssima história poderia ter sido contada em tranquilas trezentas e poucas páginas. Nem mesmo as referências aos grandes diretores e à Shakespeare, que dá o título do livro, ou ainda a eletrizante parte final elevaram a experiência. Paradoxalmente, “Assim começa o mal” é um dos livros mais acessíveis de Marías, devido à busca pela concisão de suas digressões e pela opção de capítulos curtos não numerados. Apesar disso, sigo acreditando que “Coração tão branco” é a grande obra para ganhar novos leitores. Para fãs do autor, é uma obra menor na prateleira. Para quem pretende desbravar o eterno candidato ao Nobel de Literatura, talvez seja uma boa pedida para fugir do estilo padronizado das narrativas atuais e melhor ainda se quem estiver lendo não conhecer nada ou muito pouco das obras de Hitchcock ou de Almodóvar, pois ao chegar na última página é provável que tenha vontade de voltar à primeira, agora com a nova perspectiva adquirida com o que acabou de ler.

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