A edição abre com "Arte na estrada", uma reportagem curiosa sobre a cultura na Índia e Paquistão de customizar caminhões, transformando-os em verdadeiras obras de arte. O hábito nasceu na década de 1920, com a chegada de caminhões ingleses, e expressa afirmação da identidade popular (nos desenhos e frases de cunho religioso e de valorização regional). Há quem relacione à uma celebração de ânimo ao povo. Muito legal e interessante!
"Nhanderuvuçu", refere-se a divindade máxima que era cultuada entre os guaranis em certa região entre Brasil e Paraguai. Curiosa a origem, que o expressa como ser vivo que simplesmente surgiu dos elementos da natureza, sendo os demais viventes e mitos obras de sua criação. Até Tupã teria sido criado por ele. Também não conhecia essa lenda.
"Café" - O hábito do cafezinho da manhã teria sido introduzido por europeus, que o usavam como energético para começar os trabalhos matinais. Os que eram mais ricos tomavam também leite e, para a ralé, só mesmo uma talagada no mé e partir para a lida... Deeeesconjuro, mano!
O que achei curioso no texto é que o café, por suas propriedades estimulantes mal compreendidas, chegou a ser proibido em algumas culturas (como na Turquia do século 14).
"Piratas, Corsários e Bucaneiros" - Essa já conhecia! Tudo farinha do mesmo saco: piratas. Os "Corsários" eram mercenários a serviço de nações que queriam também quinhão das riquezas do Novo Mundo, e "Bucaneiros" eram os piratas de origem francesa.
Poderiam incluir os "Ratos d'Água" pois se os que foram citados já não existem, estes últimos continuam tocando o terror entre ribeirinhos e embarcações na Amazônia.
"O Às Tupiniquim" - Que pena que a informação foi resumida a apenas uma página, sem ilustração... Refere-se a um brasileiro (curitibano de origem alemã), que foi para a Alemanha e tornou-se aviador laureado na Segunda Guerra, com a façanha de 25 abates de aeronaves. Lutou no lado nazista e, a exemplo de outros aviadores, morreu em combate, antes do fim da guerra. É o tipo de coisa que merecia reportagem mais elaborada, com foto e tudo...
"Quilombos urbanos" abordou a formação de comunidades negras no entorno das cidades, onde se fortaleceram manifestações reprimidas pelos governos, como a capoeira, os ritmos e religiosidade de origem afro. Depois associaram-se a uma percepção de marginalização, sendo os moradores empurrados a isso pela sociedade preconceituosa.
"As duas mortes de Eva" - Breve biografia de Eva Peron, com ênfase na história de seu corpo, transformado em múmia conservada. Perambulou por pouco mais de duas décadas, em lugares diversos, como uma espécie de símbolo popular por justiça.
Pelo menos não encheram a bola do Peron, aquele pedófilo idolatrado, e sua morte ocorrera por câncer de colo de útero. Há quem associe o fato à Peron, pois sua primeira esposa também morreu da mesma doença, sugerindo que ele foi transmissor do vírus HPV (o principal agente causador do respectivo câncer, muito mais agressivo nas mulheres - meu TCC foi sobre isso em Enfermagem).
"As luzes da Idade Média"- A reportagem procura desmistificar a visão de ignorância geral no período (séculos 5 a 15), que teria sido estimulada pelo Iluminismo e visão parcial da História (apenas na ação da Igreja, que não representava tudo).
O cristianismo de fato teve loucuras, principalmente pela adesão ao paganismo em seu meio (isso mesmo, e muito dessa cultura sobrevive ainda hoje), mas isso não é o resumo do período. O texto fala da cultura oriental, quem vivia um crescimento racionalista, citando-se o persa Avicena (escreveu mais de cem obras com conhecimentos diversos) e, no Ocidente, foi citado Dante (cujo conhecido clássico foi a primeira grande obra escrita em língua que não era o latim, sugerindo "laicinização" cultural) e São Francisco de Assis (que estimulava visão cristã desapegada da loucura materialista em vigor, com valorização da fraternidade e da convivência harmoniosa com a natureza). Entre outros protagonistas do período, onde se pergunta: ignorância? Só na unanimidade de quem restringiu tudo a uma percepção limitada e clichê. Já dizia Nelson Rodrigues sobre ignorância... lembra aí!
Na resposta para a reportagem de capa, é óbvio coisas como egoísmo, loucura, megalomania e ambição. Gostei do texto porque definiu as coisas de maneira mais racional: Hitler transformava inclinações primitivas do homem (poder, conquista, sucesso) em motivação para ações aceitáveis nas mais baixas, ordinárias e vis disposições, como se fossem benéficas para seus comandados. É o mecanismo da ideologia do mal.
Poderiam citar também a questão do nacionalismo radical, que está em moda hoje. Em manipulação, pode gerar coisas como bairrismo preconceituoso e visão de progresso em que se visa os prós sem a percepção exata dos contras. E toma-te devastação ambiental e enfraquecimento de coisas valorosas em prol do lucro burro (se é que realmente é o resultado final).
Hitler empurrou o povo para um sonho que era essencialmente seu, vendido como ilusão para a nação.
A edição está ficando cada vez mais formal e reitero que não curto essa disposição. Já baniram tanta seção legal...