Grande obra de um dos grandes autores de todos os tempos. Uma obra maior, não só na produção literária de Conrad, mas na literatura universal. Hoje, tomado de assalto por um aluvião de estudiosos e uma infinidade de admiradores boquiabertos, torna-se difícil falar dele. Uso como desculpa um velho provérbio húngaro (“Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e fez chichi no mar”) para prevenir quem ler esta prosinha que Conrad, no seu melhor, é um dos grandes autores de todos os tempos e "O Coração das Trevas" um altíssimo e terrível livro, um conto (os contos ingleses, na sua época, eram compridíssimos) cheio de portas por onde entrar e nenhuma para sair, onde se caminha, página a página, no interior de um nevoeiro deslumbrante, construído em torno de Kurtz, criatura que quase não aparece e pouco fala e, no entanto, é o eixo em torno do qual toda a narrativa gira. Denúncia do colonialismo, texto político, parábola da angústia do homem no tempo, relato da humanidade truncada, etc., pode bordar-se indefinidamente por cima do que Conrad fez. Prefaciado por António Lobo Antunes.
O Coração das Trevas (Biblioteca António Lobo Antunes) -
Joseph Conrad
A criminosa empreitada "civilizatória" na África
O autor Joseph Conrad era de origem polonesa, após tentar suicídio em Marcelha, na França com um tiro no peito, foi convencido por seu tio a mudar de ares e trabalhar na marinha mercante britânica. Após isso, foi contratado por uma companhia belga como capitão do barco a vapor Roi des Belges; onde presenciou atrocidades extremas e criou uma profunda aversão aos mercadores europeus e ao degradante regime de trabalho imposto aos africanos. Apesar de acreditar (assim como a grande maioria dos europeus em sua época) que era obrigação do homem branco levar a civilização e a religião para os povos nativos do continente africano, Conrad não concordava com os métodos de colonização empregados pelos belgas no Congo, todo o horror que presenciou por esse curto período de 1890 o fez escrever em 1899, Coração das Trevas: que narra “a criminosa ineficiência e o puro egoísmo da empreitada civilizatória na África”, conseguindo com sua obra explorar a profundezas do horror e do desespero humano com uma clareza aterrorizante. Marlow, o personagem principal e também um dos narradores do livro, acredita, assim como o autor, que a missão civilizatória na "África selvagem" é o "fardo" do homem branco. Entretanto, o impacto da visão do que a missão dos agentes do rei Leopoldo II se transformou o deixou estarrecido e aterrorizado... enquanto seguia para o barco que comandaria; viu pelo caminho como os nativos eram acorrentados e obrigados a trabalhar na estrada de ferro, carregar nas costas cargas imensas de marfim do centro do Congo Belga por milhares de quilômetros até o litoral, alguns trabalhavam até a exaustão e jaziam encostados em árvores, haviam corpos de nativos mortos a tiros largados na estrada se decompondo... e a compreensão do que Marlow presenciava, mostrava a brutalidade arbitrária do tratamento dado aos nativos da África Equatorial escravizados para a extração do marfim. E enquanto subia o rio indo cada vez mais fundo no coração das trevas para resgatar kurtz, Marlow não tinha a menor noção de que estava dirigindo-se ao encontro do maior horror de todos. O autor traz uma narrativa simbólica, com uma história dentro da outra, sintetizando todo o mal, devastação e morte em um único personagem: o agente Kurtz... e com isso consegue demonstrar o retorno ao primitivismo, a crueldade e a ganância que o ser humano pode atingir, a ponto de dizimar significativamente uma população em nome da cobiça desmedida de um colonizador inescrupuloso que supostamente promovia expedições humanitárias e científicas para "civilizar os selvagens". A partir do momento que Marlow encontra o "Arlequim", o jovem russo com suas vestes completamente preenchidas por remendos perfeitos e coloridos, a narrativa segue descortinando a história hedionda da passagem de Kurtz por aquele território. E então conseguimos visualizar todo "O horror! O horror!" em suas mais variadas facetas. Coração das Trevas é um livro que revela parte do impacto que o autor sentiu em sua estadia na África e também é um retrato dos desmandos do imperialismo europeu que usava de métodos bárbaros enquanto afirmava estar levando a "civilização" para o continente africano. Esse é um clássico que foi e continua sendo muito discutido, possui uma leitura que demanda um pouco de esforço para uma completa compreensão; principalmente para quem não tem nenhum conhecimento dos acontecimentos vivenciados pelo autor e de tudo que se passava no continente africano quando Joseph Conrad decidiu escrever o livro. Existem dois filmes que são adaptações da história do livro de Conrad: A Maldição da Selva de 1993, do diretor Nicolas Roeg e Apocalipse Now de 1979 do diretor Francis Ford Coppola. Eu assisti aos dois e são maravilhosos. Esse é um livro marcante que recomendo para todos que apreciam os grandes clássicos.
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