Cassandra -

    Christa Wolf

    Estação Liberdade
    1990
    312 páginas
    10h 24m
    ISBN-13: 9788574481296
    Português Brasileiro

    Prisioneira de Agamenon frente aos portões de Micenas, Cassandra só tem algumas horas de vida antes que os guardas de Clitemnestra cheguem para levá-la. Começa, então, a repassar o que foi sua vida e seu destino. O monólogo criado pela escritora alemã Christa Wolf, em Cassandra, coloca em cena os conflitos interiores vividos por esta bela e trágica personagem, figura mitológica da Guerra de Troia. Cassandra, filha dos reis troianos Príamo e Hécuba, num discurso poético e exasperante, lembra sua infância no palácio de sua família, a dolorosa separação de seu pai, seu mergulho na loucura quando suas visões contradiziam as verdades palacianas, os sofrimentos durante a interminável guerra que assolava sua gente. Amada por Apolo, tinha o dom da profecia, porém, como não quis se entregar a ele, recebeu o castigo divino de que ninguém acreditaria em suas palavras. As observações que ela vai tecendo, em diálogos imaginários, fluindo e refluindo no tempo, revelam as facetas da alma humana e –– por que não dizer, já que se trata de uma obra de uma autora contemporânea? –– do próprio homem acossado pela guerra. Cassandra enfrenta sua própria morte, prevista por ela mesma. Ela enfrenta com lucidez o medo que sente: “Mas quando foi que minha arrogância frente à dor se desfez? No começo da guerra, evidentemente. Desde que vi o medo dos homens: que era o medo diante da luta, senão medo da dor física? Seus truques extravagantes para negar o medo ou fugir da luta, diante da dor”. Há um aprendizado do sofrimento diante do terror. “Parece-me que, no fundo, o que faço é traçar a história do meu medo. Ou melhor, da sua abertura, ou melhor ainda, da sua libertação. Sim, de fato o medo também pode ser libertado, e com isso vemos que ele pertence a todos e a tudo o que é oprimido.” Neste livro, em nova edição lançada agora pela Estação Liberdade, após a narrativa, a autora apresenta quatro conferências, nas quais conta como a figura de Cassandra se apossou inteiramente de sua mente e do seu dia-a-dia. Ela também revela seu método de composição literária, articulando a vida e o tema tratado, e ainda debate questões “sobre a realidade da história da personagem Cassandra e sobre as condições da escritura feminina”. Estas conferências formam com a narrativa um só e mesmo enredo, apropriando-se de várias linguagens –– da ficção, da poesia, do ensaio e do diário –– para compor um livro considerado uma obra-prima da literatura alemã contemporânea.

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    Cristina Lasaitis14/12/2012Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Livro BÁRBARO!

    Fui fuçar uma livraria aqui perto de casa (um dos meus passatempos preferidos), quando, desinteressada e quase acidentalmente, desencavei este livro de uma prateleira. Achei a capa simpática. Levava o nome de uma personagem dos meus contos, um nome cuja origem eu me cobrava conhecer. Levei sem titubear, mas também sem grandes expectativas. Eu mal sabia O livro é dividido em duas partes. A primeira é um monólogo íntimo de Cassandra. Princesa de Tróia, filha do rei Príamo e da rainha Hécuba. Sacerdotisa consagrada ao templo de Apolo, cai nas graças do deus, que lhe dá o dom da profecia. Contudo, sem correspondê-lo, é amaldiçoada: ninguém jamais haveria de acreditar em suas palavras. É quando Páris, seu irmão renegado, retorna e inventa uma linda história - o rapto de Helena -, uma farsa que acaba comprando uma danada briga com os gregos; irrompe assim a Guerra de Tróia. O final, todos já conhecem: a destruição da cidade. Parece óbvio, Cassandra avisa, mas ninguém a quer escutar. Mandam prender essa estragaprazeres que só prevê desgraças em um calabouço. A guerra é perdida. Cassandra, feita prisioneira de Clitemnestra, conhece o fim que a aguarda, e nas horas que precedem o seu assassinato repassa as cenas embaralhadas de toda a sua vida. É uma narrativa maravilhosamente bem escrita. Extraordinária! Na segunda parte, Christa Wolf fala sobre uma viagem à Grécia e de como a figura de Cassandra se apoderou de seus pensamentos. Ao longo de quatro conferências a autora conta diversas facetas de sua vida pessoal e literária. Christa é alemã e foi durante muitos anos filiada ao partido socialista para ser mais específica: vivendo na Alemanha ocidental durante a Guerra Fria! Enquanto escrevia o livro, na década de 80, o mundo estava sob a ameaça de uma guerra nuclear; ela retratou em nuances esses meses tensos, e, colocando-se como uma Cassandra moderna, previu a tragédia que parecia iminente (felizmente estava errada). Christa também tece uma análise da condição feminina nos mitos e na história grega. Descreve como a religião, inicialmente matriarcal e baseada no culto à deusa-mãe, foi aos poucos sendo masculinizada e hierarquizada, catalisando a transição da figura feminina de respeitável (mãe) a temida (bruxa). Interessante também o contraste entre a condição social da mulher na civilização minóica e a conhecida submissão das mulheres de Atenas. Cassandra é, no final das contas, uma das raras vozes femininas que falam por si próprias na lírica grega. Ainda assim, na voz de terceiros. Ao cabo de tudo isso, ficou minha indignação pela referência nunca recomendada, por jamais ter ouvido cogitarem o nome de Christa Wolf essa escritora que me deixou totalmente rendida. Um achado acidental bastante feliz. Se é que o acaso existe.

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