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    Conhecimento compartilhado via testemunho -

    Miguel Silva

    Editora Mikelis
    2016
    204 páginas
    6h 48m
    ISBN-13: 9788593458002
    Português Brasileiro
    5
    1 avaliação
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    Vivemos a cultura do conhecimento compartilhado. E nesse sentido, a maior parte do que sabemos é aprendido por meio da palavra escrita, falada ou gesticulada de outras pessoas, impulsionada por intermináveis frutos tecnológicos. A nossa dependência do testemunho é tamanha que muitas crenças sobre o mundo, tais como que a terra é redonda, depende do testemunho. A pesquisa do tópico do testemunho tem se tornado central em várias ciências, tais como na filosofia, na comunicação, na psicologia cognitiva e nas ciências jurídicas, aparecendo em vasta escala na literatura atual. Desse modo, esta obra propõe mostrar a origem histórica a partir da qual permeiam os debates contemporâneos sobre o testemunho.

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    Miguel Silva07/08/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Fato ou Fake?

    Vivemos indubitavelmente numa época da história humana em que, mais do que nunca, se faz necessária a prática da distribuição e do compartilhamento das tarefas epistêmicas. A maior parte do que sabem os cidadãos é aprendido por meio da palavra falada ou escrita de outras pessoas, de tal maneira que tem se criado uma cultura, mais do que nunca, dependente de intermináveis frutos tecnológicos baseados no conhecimento dos outros, em praticamente todos os aspectos da vida atual. É justamente por esta constatação que esta obra se interessa pelo estudo das efetivas condições sociais geradoras de conhecimento: nesse sentido, questiona Thomas Reid, por que os estudiosos trabalharam tão inquietamente para analisar as operações individuais do conhecimento e, ao invés, deram tão pouca atenção à sua inquestionável dimensão social? Esta é uma das questões em que nos ocuparemos nessa investigação. No entanto, dada a amplitude dessa importante área da epistemologia, nossa obra se norteará, propriamente, da epistemologia do testemunho. Ao se tratar de testemunho em epistemologia, é sabido que sua trajetória é antiga e longa; porém, a problemática sobre o papel do testemunho na aquisição de conhecimento foi uma questão filosófica relativamente negligenciada. Sua redescoberta como fonte crucial de conhecimento ressurgiu na epistemologia das últimas décadas, reacendendo um forte interesse entre a classe dos atuais epistemólogos, a ponto de ser encarada como um verdadeiro divisor de águas quanto aos novos rumos da epistemologia. Em momento algum assumiremos uma concepção de epistemologia social de caráter revisionista, mas, pelo contrário, de caráter preservacionista, a qual “não considera nada de fundamentalmente errado com o núcleo da epistemologia tradicional; ela é simplesmente incompleta”. Além disso, há que se considerar que os temas Testemunho e Desacordo entre pares, antes de serem temas da epistemologia social, são tópicos amplamente aceitos e discutidos no rol da epistemologia tradicional. O interesse pela pesquisa do tópico do testemunho tem despontado como pauta de estudos no cenário científico, em vários campos do saber humano, alargado e expandido a partir da epistemologia; dentre estes campos encontram-se o da filosofia da mente, o da filosofia da linguagem, o campo da teoria da ação, etc.; inclusive, tem sido pauta em outras ciências, como na comunicação, na psicologia cognitiva, nas ciências jurídicas, etc. Próprio da epistemologia analítica e, mais especificamente, da epistemologia social, o tópico do testemunho aparece em vasta escala na literatura atual. E nesse sentido, pela atualidade do tema em questão, pelo seu largo conteúdo investigativo e pela escassez de literatura em língua portuguesa, nossa obra alcança um evidente nível de relevância acadêmico-científico. A importância do testemunho para o conhecimento é tanta que a maioria das coisas que conhecemos depende, disseminadamente, da palavra dos outros. Conhecimento de eventos antes de nosso nascimento ou fora de nossa vizinhança imediata são os casos mais óbvios, no entanto a nossa dependência epistêmica do testemunho é muito mais profunda: durante um dia em uma cidade estranha, contamos com o que nos é dito em relação a todos os tipos de informação, até mesmo em relação ao conhecimento de qual cidade estamos, argumenta Charles Coady, de tal modo que muitas crenças sobre o mundo, tais como que a terra é redonda, depende do testemunho; se sabemos que nós pensamos como o nosso cérebro, se sabemos sobre bastantes fatos pessoais, tais como a data do nosso aniversário ou a identidade de nossos pais biológicos, sabemos invariavelmente por meio do testemunho, corrobora Peter Lipton; além da concepção da geografia, dos nossos fatos pessoais, contamos com o testemunho para a nossa compreensão de história, da ciência em geral, assegura Ernest Sosa; a ciência não é adversa à onipresença do testemunho, pelo menos a maioria das teorias que um cientista aceita, ele aceita devido ao que os outros dizem e o mesmo vale para quase todos os dados, uma vez que ele não executa essas experiências por ele mesmo, de tal forma que vivemos em um mar de afirmações e pouco ou nenhum do nosso conhecimento existiria sem ele, completa Peter Lipton. Diante desse quadro, muitos epistemólogos concluem - se nós não estivéssemos em geral justificados em aceitar a palavra de outras pessoas, saberíamos muito pouco. Porém, essa é uma conclusão que nem todos estão dispostos a defender. É irrefutável a importância epistêmica do testemunho. Entretanto, a divergência sobre esse tópico está em demandas que vão além dessa comprovação. E são justamente algumas dessas questões que nortearão nossa presente investigação, a saber: qual a profundidade e a extensão da nossa dependência epistêmica em relação ao testemunho? De que status epistêmico goza o testemunho? Temos conhecimento das inumeráveis coisas sobre as quais obtivemos informação, exclusivamente, por meio da palavra dos outros? É o testemunho fonte básica de conhecimento? Como se pode qualificar essa ampla fonte epistêmica? Possuímos direito epistêmico em crer no que nos foi informado pelos outros sem invocar outros princípios epistêmicos? Em que medida a justificação de uma crença se apoia no testemunho? Goza a crença testemunhal de status de justificação? É justamente aqui que reside o desacordo, originando teses divergentes no cenário da epistemologia do testemunho: a tese do reducionismo e a tese do antirreducionismo, sendo que, no desenvolver de sua confrontação, ambas receberam algumas variações teórico-conceituais. Os problemas centrais de que se ocupa a epistemologia do testemunho são sobre se o testemunho pode ser considerado fonte básica de conhecimento e se a crença baseada no testemunho goza de justificação epistêmica. Na investigação sobre a justificação testemunhal, assunto sobre o qual nos debruçaremos, o reducionismo, de um lado, defende que o testemunho é uma fonte indireta e, por isso, não básica de justificação, de modo que a justificação testemunhal se reduz a outras fontes básicas de justificação, enquanto o antirreducionismo, de outro lado, argumenta que o testemunho é uma fonte direta e, por isso, básica de justificação, de modo que a justificação testemunhal não se reduz a outras fontes básicas de justificação. O problema que nos ocupará em específico diz respeito à literatura gerada em torno da defesa e da refutação da concepção de como crenças testemunhais estão, de fato, justificadas. Nosso objetivo principal não é minuciar todo o atual debate que opõe argumentos da tese reducionista contra a tese antirreducionista e vice-versa, muito embora apresentamos, mesmo que conjunturalmente, o cenário epistêmico no qual tal debate se desenvolve. Isso faremos na primeira parte desta presente obra. Nosso propósito fundamental, o que compõe a segunda parte desta obra, é apresentar, sistematicamente, um esboço das críticas direcionadas à mais conhecida versão dentro da posição reducionista, isto é, o reducionismo local, que se propõe a criar uma ligação entre as posições mais extremas da justificação testemunhal. Em epistemologia os contraargumentos, as objeções e os contraexemplos constituem o mais habitual e o mais útil quanto a metodologia que visa o mais puro aperfeiçoamento teórico. Nossa tese é a de que, perante todas as críticas formuladas à concepção reducionista local, defendida por Elizabeth Fricker, esta é uma teoria que não se sustenta perante muitos casos paradigmáticos. O cerne desta obra, que se encontra na segunda parte, é mostrar a atribuição a Elizabeth Fricker de uma posição de defesa da tese da Racionalidade da Rejeição Testemunhal. Ao fazê-la, demonstraremos sua incoerência conceitual por meio de um caminho formulado por quatro passos, a saber: o primeiro se constitui em observar as bases da argumentação que sustentam a rejeição testemunhal, elaborada pelo reducionismo local, para averiguar se ela pode ser considerada racional por suas próprias normas; o segundo passo se constitui em verificar se o reducionismo local alcança êxito em sua redução e qual seu nível de significância para sustentar sua tese reducionista; o terceiro passo se enquadra em analisar o problema do posicionamento interno do reducionismo local, o qual, a nosso ver, é problematicamente flexível, causando instabilidade e incorrendo no risco de colapsar com aquilo que ele mesmo rechaça, o credulismo ou normalismo atribuído a Thomas Reid; no final da caminhada vamos analisar a falha da posição frickeana acerca do papel do testemunho na justificação da crença. É nesta linha de pensamento e com esta metodologia que buscaremos o entendimento mais adequado para a questão considerada central na epistemologia social e, em específico, na epistemologia do testemunho. Pretendemos, no final, apresentar nossas considerações que buscarão demonstrar que a posição frickeana, de alguma forma, não fornece uma base com suficiente distinção não-testemunhal, na qual a justificação testemunhal possa ser reduzida com sucesso. Nesse sentido, sua tese se mostra intrinsecamente instável e, dessa maneira, não cumpre, com êxito, suas próprias metas no trato adequado com a crença baseada no testemunho.

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    Miguel Silva

    Miguel Silva é um pesquisador nas áreas de Psicologia, Psicopedagogia, Filosofia, Religião, Espiritualidade, Filosofia Clínica e Literatura. Possui Doutorado, Mestrado e algumas Pós-graduações. Terapeuta, Professor Universitário e Conferencista em eventos brasileiros e internacionais (Itália, Espanha, Grécia, Israel, Uruguai e Portugal). Possui vários livros escritos, entre os quais, "Entrelaços: vidas controversas", "Pós-humano" e "Conhecimento compartilhado via testemunho". Tem muitos artigos publicado em revistas científicas e comerciais. Nos últimos anos, tornou-se Editor, fundando a Editora Mikelis (Porto Alegre-RS), a qual tem crescido e se destacado no mercado editorial brasileiro. Um jovem humilde e brilhante!

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