Gratidão.
Quinze anos separam o momento em que iniciei minha jornada de leitura d'A Ilíada do instante em que terminei o livro. Naquele tempo, ainda na faculdade, eu já tinha em casa uma cópia, tradução para o inglês, do grande épico de Homero. Iniciei a leitura levianamente, e parei na página 41. Não consegui ir adiante. Por 15 anos guardei o livro em minhas estantes e temi retomá-lo, até que, em meus estudos, me deparei não uma ou duas, mas inúmeras vezes com referências ao clássico da antiguidade, e decidi que não devia mais prosseguir sem concluir sua leitura. Ainda temeroso, mesmo depois de tanta bagagem literária, recomecei o texto e, finalmente, cheguei ao fim. A Ilíada não é um épico que se lê levianamente, de modo descompromissado, sem contar com um pouco de bagagem histórico-mitológica. Inúmeras vezes precisei parar a leitura e fazer uma breve pesquisa (graças a Deus pelo senhor Google, algo que eu não tinha à mão quando comecei a leitura na primeira vez). Só agora pude fruir da leitura de modo minimamente apropriado. Que deleite acompanhar o último ano da guerra entre gregos e troianos, entre as façanhas dos heróis Heitor e Aquiles e as divertidas rusgas e interferências dos deuses do Olimpo. Épicos não são o tipo de leitura que costuma me deleitar, mas aproveitei bastante as mais de 300 páginas deste livro, tanto que agora sigo para a leitura d'A Odisseia. Para quem gosta de histórias de batalhas, A Ilíada é um prato cheio, com suas descrições sanguinolentas e lutas cruéis contadas à perfeição dos detalhes. Vale também testemunhar os costumes dos guerreiros antigos, de saquear as cidades e roubar seus espólios de guerra, uma vez que vão vencendo seus inimigos. Para discussões feministas, a posição da mulher na longínqua sociedade retratada no épico constitui fonte de longos debates: a mulher era um objeto roubado e negociado entre os guerreiros vencedores, oferecidas como prêmios entre aqueles que compunham os ganhadores de uma batalha, e a elas restava aceitar e servir seus novos senhores da melhor forma que pudessem. Enfim, sou grato a mim mesmo por ter-me dado uma segunda chance para ler este livro, mesmo 15 anos depois de ter desistido dele.


