O Herói do Nosso Tempo -

    Mikhail Lérmontov

    Relógio D´Água
    2008
    154 páginas
    5h 8m
    ISBN-13: 9789896410216
    Português

    O Herói do Nosso Tempo é um livro essencial para compreender a passagem do Romantismo para o Realismo na Literatura Russa. É composto por cinco narrativas relacionadas por uma estrutura em espiral e um protagonista comum, Petchórin, um jovem oficial russo desiludido com a vida e o género humano, que descreve a sua própria alma como meio morta e a felicidade como a capacidade de exercer poder sobre os outros. As cinco histórias vão-se desenvolvendo, revelando e ocultando os seus contornos, afastando-se e ressurgindo com novas perspectivas. «O que deve sublinhar-se sobre O Herói do Nosso Tempo é que, apesar do enorme e por vezes doentio interesse dos ‘sociologistas’, “a época” tem menos interesse que “o herói” para os estudiosos de Literatura. O jovem Lérmontov conseguiu criar um personagem de ficção cujo cinismo, brio romântico, flexibilidade felina e olhar de águia, sangue ardente e cabeça fria, ternura e melancolia, elegância e brutalidade, delicadeza de percepção e desagradável paixão pelo poder, a crueldade e a consciência que dela tem, exercem uma perdurável atracção sobre os leitores de todos os países e tempos, sobretudo os jovens.» «O autor teve todo o cuidado em se distinguir do seu herói; mas para o leitor emocional, grande parte do fascínio e dramatismo do romance reside no facto de o próprio destino trágico de Lérmontov ficar de certo modo sobreposto ao de Petchórin, do mesmo modo que “O Sonho do Daguestão” adquire uma força dramática emocional quando o leitor se apercebe de que o sonho do poeta se torna realidade.» Vladimir Nabokov

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    Érika Batista15/02/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Não nos deixa indiferentes

    Provavelmente escreverei uma resenha mais completa desse livro nos próximos dias, mas como esse tipo de resenha não cabe — literalmente — aqui, achei melhor aproveitar para deixar registradas umas poucas impressões frescas da leitura. "O herói do nosso tempo" de Mikhail Lermontov pode não ser muito conhecido, porém é uma das obras mais importantes da literatura russa, sendo considerado o primeiro romance psicológico dela, antecessor das grandes obras de Dostoiévski ou Tolstói, pela forma como explora os pensamentos de seu protagonista. No livro, acompanhamos algumas aventuras de Grigóri Pietchórin, um oficial do exército russo bastante mulherengo e um pouco encrenqueiro servindo no Cáucaso. O livro está separado em duas partes, cada uma contendo alguns capítulos focados em episódios diversos da sua vida. No início, ouvimos sobre ele por um narrador externo. Aliás, por um ex-companheiro de regimento que conta sobre ele ao narrador do livro. Um pouco depois, recebemos acesso ao diário de Pietchórin, em que ele mesmo registra acontecimentos anteriores aos narrados pelo companheiro, e também seus pensamentos e sentimentos nessas ocasiões. A organização não cronológica do livro é uma sacada genial, pois nos permite formar o conceito do personagem gradualmente: primeiro conhecemos só sua fama, filtrada por opinião alheia; depois o vemos pessoalmente; depois entramos na sua cabeça. E, gradualmente, passamos a odiá-lo. Certo, pode ser que alguns leitores não o odeiem, mas motivos não faltam, e ele mesmo os declina. Seu comportamento é mesquinho, seus sentimentos também, mesmo quando se abre e mostra aparente sinceridade, ele o faz em momentos que o beneficiam, se contradiz e foge de todo impulso bom que o assalte. A retratação é propositalmente ruim — e, quiçá, justa. Lermontov tinha uma relação complicada com a sociedade da sua época. Apesar de seguir seus critérios de sucesso em certas coisas, ele despreza as métricas e valores e os modos da época em que vive. Ao pintar um bonitão desprezível como o "herói do seu tempo", ele deu uma bofetada na cara da sua sociedade. E uma bofetada bonita: o livro é emocionante, redondinho, com uma pegada meio cinematográfica nas comedidas descrições das paisagens do Cáucaso e nas cenas de ação, e uma previsibilidade e teatralidade em certos eventos que, ao contrário de estragar o livro, combinam muito bem com o seu estilo. A obra certamente não consegue nos deixar indiferentes. Apresenta personagens vivos, pensamentos provocantes e a pergunta: será que o NOSSO tempo já superou Pietchórin? Ou como seria o herói do nosso tempo? Recomendo bastante o livro, quando você estiver com ânimo para se indignar e refletir, claro.

    10 curtidas

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