Amo contos, sobretudo aqueles intimistas com toques poéticos. Katherine Mansfield escreve assim. Para Virginia Woolf, é o nome maior do conto de língua inglesa. Não duvido. De todos os contos da literatura inglesa que li, nenhum se compara aos melhores feitos de Mansfield. Assim como Tchékhov, a neozelandesa consegue adentrar no mistério da vida por meio de acontecimentos aparentemente corriqueiros. Ela não se preocupa em criar enredos surpreendentes, "a vida do dia a dia" é que a interessa. Tal qual Jane Austen, Mansfield consegue transformar coisas comuns em obras de arte do mais alto nível: um casal de amigos descobrindo estar apaixonados um pelo outro; o namoro ingênuo entre dois jovens; uma mulher solitária que encontra consolo na companhia de um canário etc. Qualquer coisa em suas mãos transforma-se em algo profundo e belo. E, com base em pequenas coisas, descortina o interior das personagens, revela os abismos da alma. Os contos "Psicologia" e "O canário" ,desta coletânea, estão entre os mais lindos e tocantes que já li, principalmente o primeiro; é preciso ter um coração ds pedra para não se comover com o desfecho. De escrita lírica, simples, porém ao mesmo tempo complexa, Mansfield inspirou inúmeros escritores do século XX, dentre eles a própria Virginia Woolf; Érico Veríssimo; Marques Rebelo; Clarice Lispector, que certamente não teria sido quem foi, caso não tivesse conhecido na adolescência esta que é uma das maiores contistas de todos os tempos...