Buenos Aires, com suas largas avenidas, cafés em estilo europeu e bairros charmosamente decadentes, é cenário e ao mesmo tempo personagem das histórias de amor presentes neste romance arrebatador. É por amor que Hugo deixa o Brasil rumo à capital argentina. Embora o relacionamento com Leonor não sobreviva, seu fascínio pela cidade resiste à dor da separação e à descoberta de que sofre de uma grave doença. Hugo cria laços com o arquiteto Eduardo e com a comissária de bordo Carolina, que evidenciam o poder regenerador das amizades verdadeiras. Ele se reaproxima de seu pai, Pedro, que troca a rotina de um casamento desgastado por uma vida em que é possível encontrar profundos afetos. Cada personagem tem a oportunidade de contar a sua versão dos fatos, numa trama absolutamente democrática. Impossível não se encantar com a presença de espírito e o senso de humor de Carolina, a lealdade de Eduardo, a sensatez e a determinação de Daniel, o jeito excêntrico de Charlotte. Em comum, esses personagens adoráveis têm uma enorme capacidade de amar.
O amor segundo Buenos Aires -
Fernando Scheller
O amor segundo Buenos Aires segundo eu
Devo admitir que fui pego bastante de surpresa com essa leitura. Não sei exatamente por qual motivo, mas minha ideia preconcebida era de que o livro fosse constituído de um copilado de histórias (contos, mesmo) de amor. Ledo engano. Porém não foi bem isso que me surpreendeu, e sim o tom, o conteúdo do texto. A obra, ao contrário do que a capa e o título podem sugerir <i>a priori</i>, trata-se de um romance no qual não há presença daquelas relações intensas de amor romântico; aquela coisa de amor exacerbado, arrebatador, megalomaníaco. Não há sentimentalismo exagerado, o tal melosismo (acabei de inventar essa palavra?). Diria até que o livro tende muito mais à melancolia do que à felicidade amorosa. ISSO me surpreendeu, positivamente. O texto é gostoso de se ler. A narrativa é fluída, dinâmica, de fácil leitura. (Penso que vale informar aos possíveis desavisados(as) que este é o livro de estreia do autor como ficcionista.) Além disso, o autor criou uma maneira muito perspicaz de contar a história. Portanto, no que se refere à estrutura narrativa, o livro tem um desenvolvimento bastante interessante: Cada capítulo traz um personagem sob o ponto de vista de outro personagem. Isto é, em cada capítulo intercalam-se personagens falando sobre outros personagens. Tipo: capítulo um, Fulano segundo Sicrano. Capítulo dois, Beltrano segundo fulano. Capítulo três, Sicrano segundo... Enquanto em um determinado capítulo um personagem X é o que narra, em primeira pessoa, seu ponto de vista sobre outro personagem, em outro capítulo ele pode ser o alvo da narração. No decorrer do livro 12 personagens participam desse rodízio, ora como narradores, ora como objetos. Assim a narrativa apresenta múltiplas perspectivas segundo múltiplos(as) personagens. Com isso, a obra se torna rica na medida em que observa como cada indivíduo é relativo segundo pontos de vista de diferentes indivíduos que, na sequência, serão eles próprios relativizados da mesma maneira. (A exceção é o último capítulo que é narrado por Buenos Aires. Sim, a cidade torna-se narradora. Daí se explica o título da obra.) Bem, e o conteúdo? A história é preenchida por tantas diversas situações triviais e vários "lugares-comuns", que é praticamente impossível ao leitor(a) não se identificar nalgum momento. Encontros e desencontros e as relações entre pessoas, eis o tutano do livro. A obra é bastante honesta ao eliminar grandes eventos, por vezes pouco críveis, característicos de uma ficção, e assim se aproxima da realidade ao descrever uma pequena pluralidade de personagens e vivências um tanto banais, mas nem por isso desinteressantes. O ser humano é a matéria-prima aqui. Este é um livro singelo, suave, simples. Diria que é aqui mesmo que reside sua grande virtude: não tencionar a apoteose, ou seja, não tentar ser mais do que é. A obra basta por si. A história é cheia de episódios cotidianos e um tanto comuns. Mas não é a vida assim?, composta, em grande parte, por momentos triviais, no entanto inéditos e preciosos porque efêmeros? Aqueles que vivem bem, devem ser aqueles mesmos que acham algo de sublime em cada instante banal da existência. (Ah, claro, tudo isso que escrevi acima é apenas o resultado de um ponto de vista particular.)
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