Kafka demonstra, nesta obra, a sua falta de disposição, a ojeriza pela vida em sociedade e a fuga constante às obrigações pré-determinadas. De uma certa maneira, quem conhece a vida do autor sente, em cada treco da Metamorfose, a descrição velada de sua angústia no ambiente familiar. Em A metamorfose, Kafka, transformado em inseto, humildemente se oferece em sacrifício, para ser compreendido e amado por sua família, tornando-se o alvo da repugnância de todos para que, de algum modo, pudessem sentir a sua presença e a sua atuação entre eles – o que jamais conseguiria, porque a diferença entre a sua existência e a deles é insuperável. Sua história lembra assim aquele a daquele outro sublime judeu que esteve entre nós e que se ofereceu em sacrifício pelos nossos pecados, fazendo-se alvo das chacotas, do desprezo e das lanças dos que beneficiara. Nesta novela temos Kafka de corpo inteiro. A própria figura do pai ali está, forte, prepotente, cheio das manhas, sempre disposto a mostrar ao filho a sua força, o seu poder; temos a mãe, frágil criatura, oscilando entre pai e filho, repartindo o seu amor entre eles, porem presa a vínculos mais forte de tradição; e a figura suave de Ottla, a irmã preferida de Kafka, que o compreendia e auxiliava em tudo, com quem ele gostava de partilhar os seus sentimentos. Porém, a vida passa, novas obrigações surgem, é preciso que tomemos uma decisão, um rumo, um objetivo, cada qual tem a sua existência a cuidar, - e assim ele percebera sozinho com seus problemas e sentiram funda e amarga, a sua solidão. Solidão de um homem talentoso, que os seus semelhantes não acolhem, que aborrece a sociedade, e que se isola em seus sonhos.
A metamorfose -
Franz Kafka
Resenha de Metamorfose
“Caixeiro-viajante”, esse é o nome dado ao profissional responsável por vender os produtos em locais diversos de onde são realmente produzidos. No passado, quando ainda longe de uma tecnologia de transporte extremamente eficaz e rápida, esses trabalhadores tinham uma importante função para as indústrias e empresas ao espalhar o produto por geografias distantes. Nesse contexto, em Metamorfose, de Franz Kafka, acompanhamos a virada de situação de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, quando, em um dia aleatório, ele acorda com o corpo alterado para o de um pegajoso inseto. Apesar de ser escrito em 1912, o livro fora publicado em 1915, apenas nove anos antes da morte por tuberculose de seu autor. Com cerca de 70 páginas e apenas um ambiente, a fama da obra certamente não é proporcional ao seu tamanho, afinal, é considerada como um dos maiores clássicos do século XX. Quando Gregor é transformado em algo parecido com uma barata, acaba perdendo o seu emprego o qual era diretamente responsável por manter a estabilidade econômica da família Samsa (nota-se que esse é justamente o foco, no livro, as pessoas dão muito mais atenção ao fato da perda do trabalho do que para a metamorfose em si). A partir disso, o narrador em terceira pessoa passa a descrever como os parentes e o pobre homem lidarão com sua transformação inesperada e com as consequências de não terem mais alguém para ajuda-los em seu sustento. Antes de iniciar a obra, talvez seja fundamental ter-se a noção de que as literaturas de Kafka quase sempre abordam problemas da sociedade através de analogias e circunstâncias oníricas, com tons de realismo e fantástico. Nesse conto não é diferente. A metamorfose do protagonista é descrita de uma forma perturbadoramente lógica e representa sua ida de empregado para desempregado, incapaz de gerar dinheiro e de como isso afeta, tanto a própria mente quanto a das pessoas ao nosso redor. Pois como é percebido, não é apenas Gregor o transformado, mas toda a sua família começa a ter seu caráter desfigurado. Assim, o autor é bem sucedido em retirar qualquer resquício de felicidade de sua trama. Há uma dura e melancólica exposição da humilhação a qual cresce conforme as páginas, percebemos o amor modificando-se para amargura, abandono e raiva. Cabe aqui ressaltar, trata-se muito mais de uma história criada para ser crítica do que uma história a qual tornou-se uma crítica. Dessa forma, não temos grande profundidade nos personagens e ambientes, há apenas uma explosão de ocorridos narrados para embasar a visão kafkiana de uma sociedade enclausurante, colocando o leitor como expectador e não personagem em si. Como consequência, não é gerado apego aos indivíduos e quem sabe sequer empatia sincera o que pode trazer uma sensação de falta de intimidade narrativa. Talvez, se a obra tivesse algumas páginas a mais, eu não teria me agradado nem um pouco e passaria a ter um sentimento estafante por conta de tal característica somada à incomoda situação tão friamente exposta. Apesar disso, por seu diminuto tamanho e forma fluída de ser desenvolvido, o livro consegue cumprir o seu papel e prender até o fim pelo fator curiosidade enquanto expõe uma visão dolorosa de como nos comportamos em certas condições, quando a sociedade insiste em rebaixar alguém à posição de mero parasita. Metamorfose é um tanto quanto cru, mas igualmente instigante e com uma ótima capacidade de explorar várias possíveis interpretações. Por isso, em face de seu autor ser importante para o cenário literário e proporcionar um pensamento tão diverso capaz de gerar bons debates sobre o tema, o livro ainda é uma ótima peça para se ter em sua estante e eventualmente ser relido em momentos diferentes da vida para boas novas ponderações. Para mais resenhas, acesse: aprendilendo.com.br
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