O Idiota

O Idiota Fiódor Dostoiévski




Resenhas - O Idiota


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Homerogoncalves 31/03/2020

Insonso
Apesar de palatável, não foi prazeroso. Difere de tudo que já li do autor. Talvez possa ter sido frustração. Mas pouco tenho a resenhar de uma narrativa branda, de um protagonista inexperssivo, em um contexto sóbrio e sem fundo crítico.
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Felipe 16/03/2020

O Quixote russo.
Uma das coisas que os seres humanos mais desejaram ao longo dos séculos foi a "ascenção social". Para que ela acontecesse, o indivíduo poderia se destacar na carreira militar, no clero, na política ou no comércio. Em nome do sucesso, muitos chegaram a cometer os piores atos, principalmente o de anular a sua própria individualidade.

Sem embargo, em meio as miríades do comum e do ordinário, é possível encontrar indivíduos raros, os quais não são movidos por nenhuma ambição social ou financeira, mas por um idealismo e um amor universal. Eles sempre são incompreendidos, e chegam a ser rotulados como loucos. Na literatura, a principal representação deste tipo de indivíduo é o "Dom Quixote" de Miguel de Cervantes.

Dostoiévski era um grande admirador do romance espanhol. Em certa ocasião, o russo disse que o Quixote bastava para sintetizar a pergunta clássica, repetida a exaustão, mas que não tem a pretensão de ser respondida definitivamente: "O que é a vida?". A influência do cavaleiro da triste figura não poderia passar despercebida em alguma de suas obras. "O Idiota" é romance no qual ela é claramente demonstrada.

O protagonista da obra, o príncipe Mishikhin, é um jovem recém saído de um sanatório suíço, donde ele ficara por alguns anos, pois sofria de epilepsia. O romance começa em seu regresso a Rússia, numa estação ferroviária. Lá, Mishkin conhece Rogojin, um jovem pródigo pertencente a uma rica família burguesa. Ambos, ao longo da narrativa, disputarão o amor de Nastasia Filipovna, uma jovem de origem humilde, porém orgulhosa, "adotada" desde a infância por um proprietário de terras. Além destes, O príncipe também travará contato com a família do general Epachkin e também com Gania, funcionário do militar, e também pretendente a mão de Nastasia. Este, a princípio, antipatizará com o princípe.

Todas as pessoas a sua volta acharão que o príncipe não passa de um sujeito ingênuo e Idiota. Mas o que se revelará, em cada situação, não será o resultado de um espírito simplório e desprovido de julgamento, mas de um grande conhecedor da alma humana, das necessidades do próximo e de suas fraquezas. O príncipe conseguirá ter uma visão humanizada até mesmo daqueles que o desprezam e será capaz de perdoar-lhes as ofensas.

Não será difícil prever que tal comportamento o levará a um final trágico. Em questão de finais "felizes", "Crime e Castigo" e os "Irmãos Karamazov" chegam até a ser mais agradáveis. Sem embargo, a história consegue a proeza de nos levar a refletir sobre a vida em sociedade, sobre a justiça, sobre a ética e sobre a importância de amar ao próximo como a si mesmo. De todos os modos, o mundo não é digno de uma pessoa como o príncipe Mishkin.
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André Azevedo Ferreira 06/03/2020

Um Russo Muito Louco
O jovem Príncipe vai encarar altas aventuras na sua volta para a Rússia. Se apaixonando, se decepcionando e cativando todos ao seu redor. Um livro marcante e que me tocou profundamente.
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Paulo Renan 11/01/2020

Um manicômio chamado São Petersburgo.
Cheguei ao final desta obra que me despertou vários sentimentos. Em alguns momentos empolgação, em outros frustração, em outros suplício com seus diálogos doentios, raiva em tantos outros.
É o segundo livro do Dostoiévski que leio, Crime e Castigo foi o primeiro e continua sendo insuperavel. Talvez, quando eu terminar de ler Dom Quixote, eu retorne a ler o Idiota com mais atenção, certamente coisas passaram pela minha percepção que não deveriam ter passado. No entanto, uma coisa que me deixou desapontado é que há grandes momentos no livro, mas momentos pontuais. É como se não houvesse prosseguimento aos profundos pensamentos do Príncipe Míchkin (personagem que amei e odiei com intensidade). As discussões sobre pena de morte, sobre se vale lutar pela vida ou morrer de uma vez (Hippolit), sobre o lugar e a personalidade das pessoas comuns no mundo... são momentos grandiosos.
Por outro lado, é como se todos fossem loucos...e idiotas, até mais que o próprio Míchkin. Como fala o tradutor Paulo Bezerra, São Petersburgo é retratada com um grande manicômio, e de fato devia ser assim, o que não isenta as personagens de serem detestáveis. Talvez seja o retrato doa homens, de fato a humanidade tem várias coisas detestáveis, as quais nem sempre queremos lembrar.
Pretendo retornar à obra, mas a longo prazo. No mais, Míchkin tem um quê de Jesus Cristo, mas nao na idiotia, e sim na compaixão por pessoas tão desajustadas, no entanto nem por isso Cristo deixava de dizer: "vá e não peques mais", talvez tenha faltado isto ao nosso Príncipe russo.


BetoOliveira_autor 07/12/2019

Sensacional
Um dos melhores livros que já li em vida! Sim. Depois que terminei a leitura, senti-me renascido. Aquilo que se denomina "metanoia".
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Marcos 03/12/2019

Jesus na Rússia
O livro narra a história de um príncipe que sai de um sanatório, onde estava a curar sua epilepsia. em busca dos últimos descendentes de sua linhagem. Ele se depara com a sociedade russa corrompida pelo poder e pelo dinheiro e se intriga com uma jovem garota de grande beleza e tristeza. Alegoria para Jesus em uma terra de pecadores, clássico absoluto e literatura obrigatória.
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Helder 16/08/2019

A ignorância é uma benção ou uma maldição?
O Idiota de Dostoievski, publicado em 1868, é um dos livros mais complexos que li até hoje, e por isso torna-se difícil fazer uma resenha desta obra.
Antes de tudo preciso dizer que li a nova edição do livro trazida ao mercado pela Editora Martim Claret e tenho que dizer que o trabalho editorial é perfeito, me permitindo dizer que este exemplar de O Idiota é um dos livros mais bonitos que tenho na minha estante.
O livro apresenta uma capa dura marrom com o titulo em preto. As folhas de guarda e as que dividem as 5 partes do livro são pretas com texto em marrom claro, e o mais sensacional são as paginas em um tom bege e a diagramação com letras em marrom, algo que até hoje eu não tinha visto em nenhum livro.
A Martin Claret vem reeditando os livros de Dostoievski e todos seguem com estas edições luxuosas. Para aqueles que desejam ter uma bela biblioteca em suas casas, recomendo de olhos fechados a compra destas belíssimas edições.
Mas nem toda a beleza da edição consegue tornar este livro uma leitura mais leve e fluida, o que transformou esta leitura e um grande desafio que levou dois meses para ser concluído.
Dostoiveski não é uma leitura para ser feita na praia ou no metrô. É necessário concentração para não se perder no texto que divaga e conseguir extrair a mensagem que ele traz.
Se olharmos de uma maneira superficial, O Idiota é a estória de um rapaz simplório na alma que se apaixona por uma mulher inconstante, mas isso é só a casca neste enorme romance.
Em O Idiota, toda a estória gira em torno do Príncipe Lev Nikolayevich Michkin, rapaz ingênuo como Candido de Voltaire ou até mesmo a famosa Polianna.
O Príncipe Michkin é a tentativa de Dostoievski de criar o homem com o caráter perfeito, numa mistura de Jesus Cristo que a todos perdoa, com Dom Quixote, que em todos acredita.
Michkin é um rapaz que enxerga as pessoas atrás de suas mascaras, e sempre consegue encontrar coisas boas em cada um e focar neste lado. Por piores que sejam as coisas que as pessoas façam, e algumas até o afetando, ele continua acreditando na humanidade. Esta característica de extrema bondade acaba causando uma estranheza nos que com ele convivem, e muitas vezes o consideram um idiota.
Mas Michkin é um bondoso ou será que ele simplesmente não entende o que o cerca?
A ignorância é uma benção?
Confesso que realmente esta característica tão bondosa chega até irritar o leitor. E isto fez que eu me distanciasse muito do personagem, pois com certeza minhas atitudes seriam completamente diferentes das atitudes de Michkin.
Além da falta de empatia com os personagens, outra dificuldade que encontrei neste livro foi na maneira encontrada pelo autor para narrar esta estória. Diferente de Candido ou Polianna, cujos livros têm uma escrita com ações sequenciais, aqui Dostoievski foca-se nos diálogos, então é como se no livro existissem várias e enormes cenas teatrais, sempre com diversos personagens conversando e nestas cenas ele aproveita para discutir assuntos inerentes à sociedade russa da época.
O livro começa em um trem onde Michkin, agora com 20 anos, está retornando para a Rússia de um tratamento para epilepsia que fizera na Suíça desde sua adolescência.
Neste trem ele conhece Rogojin, um homem um pouco mais velho que lhe conta a estória de que quase foi deserdado pelo pai porque que se apaixonou por uma linda mulher: Nastassia Fillipovna.
Ao chegar a São Petesburgo, Michkin não conhece ninguém na cidade, mas sabe que ali tem uma parente distante, a mulher do General Epantchin . Ele vai a casa desta família e por sua bondade e simpatia, é bem recebido. E é nesta casa que vai conhecer duas mulheres que farão parte de sua vida. A bela e jovem Aglaia, filha do General e que sonha em se casar para livrar-se dos pais e Nastassia Fillipovna, a personagem feminina mais complexa e insuportável que já conheci na literatura.
Nastassia Fillipovna é uma mulher inconstante. Ela era uma cortesã apadrinhada por um homem mais velho, que a principio não está mais interessado nela, e passa a lhe buscar um casamento. Mas de repente ela decide tornar-se dona de sua vida e decidir com quem deve casar, já que pretendentes não lhe faltam. E ao ver aquela mulher e sua ênfase em sair daquela vida, o Príncipe passa a nutrir um estranho sentimento por ela, que nunca sabemos direito se é amor, ou simplesmente pena, e inicia-se ai um triangulo amoroso doentio entre eles e o obcecado Rogojin.
Mas o interesse de Dostoievski não é somente contar uma estória de amor, mas também mostrar como a sociedade se comporta, e que não existe classe social para a mesquinharia e pessoas aproveitadoras.
O autor cria cenas onde o Príncipe e sua bondade convivem com pessoas ricas (Os Epantichins, Liebediev ) e pessoas pobres, como os rapazes que aparecem exigindo direitos de herdeiro devido a uma fortuna que Michkin recebera como herança.
E para todos ele dá razão. Em todos ele encontra uma bondade.
Em muitas cenas, parece que está sempre acontecendo algo no fundo, pelas costas de nosso Principe, ou simplesmente algo que ele não percebe. Por mais esdruxulas que sejam as discussões trazdias pelos personagens, Michkin está sempre disposto a ver flores nas situações.
Desta maneira Dostoievski mostra a elite russa preocupada com aparências e linhagens e a plebe, que já começava a se incomodar com a diferença social e se revoltar, exigindo direitos iguais, numa pré revolução Russa.
Cercando estes momentos de critica social temos os encontros e desencontros entre Michkin, Nastassia, Rogojin e Aglaia, que leva o livro a um final pesado e inesperado, mas que não deixa de ser perfeito para tudo o que foi mostrado até ali.
Um livro para nos fazer pensar o quanto vale a pena ser bom. E se já era difícil ser bom em 1860, me pergunto como buscar esta essência em nosso corrido século XXI.


Lah 26/07/2019

Tem um enredo interessante com escrita brilhante, porém em alguns momentos se tornou monótono.
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Lucas 14/07/2019

O decrépito em suas mais sombrias formas
Conspirações, intrigas, psicologia, nuances policiais e/ou jurídicos, sentimentalismos, reflexões religiosas, o subconsciente como protagonista... São características intrínsecas a todas as obras de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), escritor russo que dispensa maiores apresentações a todo amante de literatura clássica. Além dos traços citados, ninguém, nem antes nem depois de Dostoiévski foi capaz de tratar na literatura de uma forma tão única das mais diversas variedades de decrepitude: seja a moral (especialmente esta), física, mental, financeira ou social, todo tipo de escopo psicossocial que forma o ser humano é tratado pelo autor na sua forma mais crua. Para Dostoiévski, o desânimo é mais importante que a disposição; a pobreza é mais narrável do que a riqueza; o ser sempre virá antes do ter.

Tudo isso é ''chover no molhado'' em se tratando do autor, mas em O Idiota (1869) ele se superou: é uma longa e profunda obra que trata de diversas características que um personagem ou ente real pode desenvolver e que são elementos de escárnio em uma sociedade materialista e preconceituosa. Neste caso, é o príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin quem toma para si as dores de um indivíduo psicologicamente perturbado a partir da inexistência de uma sensação de pertencimento à sociedade, algo recorrente na grande maioria dos personagens dostoiévskianos.

Se em Crime e Castigo (1867), o romance mais famoso de Fiódor Dostoiévski, o protagonista possui um sofrimento mais moral do que propriamente físico (Raskólnikov buscando justificativas para um crime bárbaro e as tortuosidades causadas pelo arrependimento), em O Idiota tem-se um príncipe Míchkin com agruras bem mais palpáveis a olhos menos ''treinados'' em termos de psicologia: o protagonista aqui sofre de epilepsia, tal como o autor/criador. Mas, em se tratando de uma sociedade mais preocupada em posses e interesses financeiros, a epilepsia do protagonista acaba ficando num segundo plano: o verdadeiro ''defeito'' do príncipe é a ingenuidade, o humanismo e o olhar sempre abstrato para coisas terrenas.

A história começa numa viagem de trem do protagonista em seu retorno a São Petersburgo, após uma longa estada em uma clínica para pacientes epiléticos na Suíça. Considerando-se não mais um russo, Míchkin nessa viagem trata conhecimento com Parfen Semeónovitch Rogójin, indivíduo rebelde e de razoável situação financeira, que exercerá enorme influência sobre o príncipe. Desde as primeiras páginas, Dostoiévski deixa muito claro que o seu protagonista é um personagem totalmente peculiar até mesmo para o seu ''rol'' de personagens únicos: Míchkin é uma mistura entre Jesus Cristo e Dom Quixote, o eterno Cavaleiro da Triste Figura, do atemporal Miguel de Cervantes (1547-1616). Posto isso, sobram no protagonista elementos de bondade inocente, que muito tenta ensinar e tocar, mas que na maioria das vezes só alimenta o escárnio dos outros indivíduos ''normais'' que o rodeiam. É este escopo, inclusive, que representa o cerne da obra: uma pessoa boa, ingênua, insegura e inexperiente, que acaba sendo visto como um idiota perante indivíduos fúteis, mas providos de malandragem e maledicência.

O príncipe acaba por guiar a narrativa para outros personagens estereotipados do estilo de Dostoiévski. Dentro disso, surge aqui uma parente distante de Míchkin, Lisavieta Prokófievna, esposa do general Ivan Fiódorovitch Iepántchin, que juntos tinham três filhas: Alieksandra, Adelaida e a bela Aglaia, de importante participação ao destino do protagonista. O general possuía um secretário, Gavrila "Gânia" Ardaliónovitch Ívolguin, inteligente personagem que era irmão de Nikolai/Kólia (este último o que mais se aproxima da definição de "amigo" que o príncipe acaba fazendo). Havia também Afánassi Ivanovitch Tótski, rico senhor de terras e amigo próximo do general Iepántchin e Hippolit Tieriéntiev, jovem tísico e principal representante do niilismo típico do autor.

Este excesso de citações de nomes de personagens não tem o intuito de tornar erudita a presente resenha, mas é importante para que se demonstre um quadro geral do que a narrativa trará, sempre se ressaltando a complexidade dos nomes russos e seus patronímicos (o que não deve ser considerado um obstáculo aos menos experientes leitores de russos, se bem que não se recomenda que ele comece nesta literatura tão rica por O Idiota). Inclusive há uma miscelânea de outros personagens que estabelecem relações com estes citados e, dentro dessa menção, é importante que se destaque e pormenorize a figura de Nastássia Filippóvna, a protagonista feminina e o principal exemplo de personagem típica de Dostoiévski, cuja grande maioria das ressalvas ao longo do tempo quanto à sua escrita reside na construção de mulheres histéricas, com recorrentes crises de nervos e de alta imprevisibilidade narrativa quanto aos seus desfechos. Nastássia, rica e linda jovem muito bem quista pela sociedade de São Petersburgo, é uma síntese desse tipo de personagem, podendo ainda ser definida como alguém cheia de camadas e distúrbios psicológicos, muitos deles explicados pela sua trajetória de vida. Mesmo que não tenha tanto "tempo de páginas", o seu protagonismo é latente pela ''sombra'' que a simples menção ao seu nome causa ao núcleo principal do livro.

Dostoiévski sempre traz em suas obras (especialmente nas que foram lançadas após o seu período de reclusão, que terminou em 1860) elementos que se identificam com a camada mais pobre da Rússia czarista, sem se preocupar extensivamente em descrever a sociedade como um todo, em especial a camada mais ''alta'' em termos de oportunidade e berço. E quando o escritor insere estes elementos mais distantes do estrato mais popular, ele faz com o mesmo olhar voltado para a decrepitude. Dostoiévski não diferencia ricos e pobres ao imputar em seus personagens distúrbios físicos ou espirituais e isso acabou por mistificar a sua imagem como autor mais adorado do povo mais humilde da Rússia. Tudo isso precisa ser aqui reforçado para que se dimensione a narrativa do autor, que não tem muitos acabamentos artísticos mas que acaba, talvez até mesmo por isso, sendo inconfundível por oferecer um desnudamento psicológico dos seus personagens que jamais foi igualado. E conforme cada personagem é ''dissecado'' sob o ponto de vista psicológico, aumenta-se no leitor a sua incerteza quanto às atitudes futuras que a narrativa reserva a este respectivo personagem. Por isso surge em muitos momentos a sensação de estranheza, até mesmo de peso opressivo ao leitor de Dostoiévski: sua escrita colhe inúmeros elementos psíquicos dos caracteres principais que compõem a história, mas que jamais definem de forma objetiva e resumida a complexidade inerente ao interior de cada um.

Esse apego ao decrépito, ao vil, é explicado em momentos bem pontuais, de uma forma quase que didática. Em determinado momento, o narrador (onisciente, mas que não desenvolve uma oralidade mais direta com o leitor) explica, sob o ponto de vista de um escritor, a natureza dos personagens de um livro, dividindo-os entre ordinários e inteligentes. A forma com que Dostoiévski defende o primeiro grupo é incisiva, especialmente a quem considera a narrativa dele esteticamente deficiente. Outro exemplo singular advém de uma nota de rodapé, exposta na edição da sempre elogiável Editora 34, num trabalho excelente de tradução de Paulo Bezerra (1940-), onde se extrai um trecho escrito por Dostóievski em uma nota onde ele comenta a respeito de um brutal assassinato, que é um fato "mais interessante que toda sorte de romances, porque elucida aspectos sombrios da alma humana que a arte não gosta de abordar, e se o aborda o faz só de passagem e em forma de episódio''.

Além de toda uma abordagem psicológica, O Idiota traz em suas linhas dezenas de divagações, que tratam desde as desesperadoras sensações de quem está na iminência de um ataque epilético até a questões mais existenciais e atuais, como a pena de morte. Outro ponto discutido e muito interessante é a hipótese da "ocidentalização'' da Rússia do século XIX, onde muito se debatia a respeito do alcance e a influência que a cultura do Oeste Europeu (especialmente da França) exerceria sobre a sociedade russa. Foi, inclusive, a partir desse embate que se fortaleceu a literatura russa, que passou por um avanço muito substancial a partir da segunda metade do século XIX e desenvolveu um estilo literário próprio bem diferente daquele já consolidado no ocidente, com vieses mais românticos.

O príncipe Míchkin é um dos maiores personagens que Dostoiévski concebeu. O futuro leitor perceberá que a sua grandeza não reside nos feitos heroicos ou materiais, ou em cavalheirismos românticos, mas sim em seu olhar para o íntimo, para o interior dos que o rodeiam. Humilhado, ridicularizado e execrado, Míchkin era acima de tudo um cristão e, guardadas as devidas e óbvias proporções, lembra em vários momentos a figura mística de Jesus Cristo, cuja sabedoria incisiva ensinava e provocava revolta em que não a aceitava (ponto importante, Dostoiévski tinha muita ligação com as Escrituras, intensificadas após os seus dez anos de prisão por "agitação popular"). É importante que se sublinhe isso porque revelar qualquer detalhe da trajetória de Míchkin seria adiantar de forma desnecessária todo um emaranhado de ligações e situações que unem os personagens. A lição que fica é a de que inocência, altruísmo bondade e honestidade, quando misturados, são capazes de tornar a existência comum mais sadia, mas dificilmente passarão incólumes a um mundo que está longe de ser compreensivo ou benevolente.

Apesar disso, O Idiota, como opção geral de entretenimento, possui algumas particularidades que, se são incapazes de prejudicar a qualidade geral da obra, fazem com que ele seja um livro ''pesado'', seja moral ou até mesmo literalmente (na já citada edição da Editora 34 são quase 700 páginas). Este peso é fortalecido pela existência de vários personagens ''perturbados'', com distúrbios próprios, o que é diferente de outras grandes obras do autor, onde esses tipos são mais reduzidos. Não é, por isso, o tipo de livro a ser lido aos ''atropelos''; exige do leitor paciência e até compromisso em desfrutar das filosofias próprias contidas nas suas entrelinhas. Todavia, não se trata de um sacrifício sem sentido: a obra muito ensina e muito faz refletir, pois Dostoiévski não trata das decrepitudes só para chocar: ele mostra que, mesmo no ambiente mais pobre, no contexto mais sujo, na realidade mais histérica, há espaço para a bondade e o amor.

O Idiota foi o segundo dos cinco ''dinossauros de Dostoiévski'', livros de maior vulto e de maior profundidade literária da carreira do autor (foi precedido por Crime e Castigo, de 1867 e sucedido por Os Demônios, O Adolescente e Os Irmãos Karamázov, lançados respectivamente em 1872, 1875 e 1881). Por esse motivo, é uma obra fundamental da carreira literária do escritor e sintetiza bem toda a habilidade incomparável dele em descrever o interior dos seus personagens, usando para isso de muito humanismo, realismo e religião. Em essência, adentrar as suas linhas é ficar rodeado de angústia, desânimo, desesperança e desespero, mas sempre com um apego à redenção e ao sublime, que se revela nas mais inesperadas faces dessa robusta análise psicológica.


Jeanderson.Oliveira 27/06/2019

Uma obra que me fez perceber claramente a tensão vivida na alma humana em particular. Essa tensão é vista entre as duas faces de uma moeda que é representado no duplo da história. Por um lado o Princípio Michkin egresso do seu paraíso edênico situado na Suiça, nas altas montanhas onde costumava dar-se a contemplação, representando tudo aquilo de elevado, as coisas dos espírito ? não por acaso ele é considerado a personificação da verdadeira caridade cristã, ao ponto de ser julgado ridículo; e por outro Rogójim sendo os instintos mais baixos, mais animalescos do homem, o qual foge do pai por ter roubado-lhe certa soma de rublos para atender aos seus impulsos e apetites. Disso deriva duas alternativas: ou deixamos ser levado pelas coisas do alto ao ponto do homem do espírito controle e guie nossos apetites sensuais, ou deixamos que nossos instintos mais baixos nos conduzam e levados por eles terminaremos na Sibéria a purgar toda as nossas faltas, como acontece no clássico.
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Paulo Silas 07/05/2019

Sendo um dos grandes clássicos de Dostoiévski, "O Idiota" é um romance de peso que desce às entranhas do leitor para lhe arrebatar a alma. A obra entorpece o leitor, deixando-lhe por diversas vezes sem fôlego. A vivacidade com a qual as personagens são construídas, a trama e seus diversos desdobramentos, as explosões e rompantes no enredo, o estilo característico do autor, o ambiente em que se situa a história, enfim, os vários elementos que compõem e dão forma ao livro o elencam a uma categoria própria de grande clássico, cuja admiração que encontra no universo literário possui guarida e justificativa. "O Idiota", portanto, é uma obra que não é elogiada a toa. Pelo contrário, trata-se de um primor da literatura clássica que merece todo o destaque que lhe é devido.

O livro conta a história do príncipe Míchkin, que com os seus vinte e tantos anos retorna para Petesburgo depois de passar alguns anos numa clínica na Suíça para tratar de uma moléstia que lhe acomete. Ainda na viagem, antes mesmo de chegar ao destino, conhece a pessoa de Rogójin, um desregrado que se vê afortunado por uma herança de hora para outra, personagem esse que traz grande impacto na vida do príncipe protagonista, sendo fundamental a sua presença para o desenrolar da trama. Situado em seu destino, o príncipe conhece e muito se aproxima da família Epantchin - que conta com os genitores general Ivan e a senhora Epantchiná, além de suas três filhas: Aleksandra, Adelaída e Aglaia Epantchiná. O relacionamento entre o príncipe e os Epantchin é também bastante significativo para a história, tratando-se de um dos elementos centrais a partir dos quais as questões abordadas na obra são desenvolvidas. Diz-se da forma de ser do príncipe, do modo com o qual se porta, do jeito pelo qual vê e interpreta o mundo, ensejando num estilo próprio de lidar com as pessoas. Por esse seu jeito, sua bondade demasiada, sua inocência exacerbada, a sua sociabilidade acaba sendo afetada quando em confronto com as pessoas que o envolvem, que estão ao seu redor, pois possuem formas próprias de gerir suas vidas e analisar aquilo que entendem como adequado para se ter uma boa vida. Não compartilhando das mesmas obsessões, objetivos e pretensões dos outros, o príncipe acaba sendo visto como um... idiota! Eis o que motiva o título do livro e a pecha que seu protagonista carrega.
Importante mencionar outra personagem de destaque que influencia efusivamente os acontecimentos da história: Nastássia Filíppovna. Sua beleza atrai e enlouquece. Sua forma peculiar de agir confunde e cativa. Não é por menos que o príncipe cai em sua graça, assim como Rogójin - eis aqui um dos motivos do embate entre os dois. Considerando essas poucas questões mencionadas, talvez seja o mote da obra a forma com a qual o príncipe busca se situar em suas relações a partir do seu jeito "puro" de ser e ver as coisas. É partir desse seu pensar e agir que toda a trama se desdobra, resultando num romance robusto que em diversas passagens nocauteia o leitor.

O longo romance aborda diversas questões reflexivas num estilo próprio e característico de Dostoiévski. O niilismo, o cristianismo, o ateísmo, a racionalidade e a essência do religioso estão entre os temas que são trabalhados a fundo na obra, estando esses presentes nas brilhantes e cativantes falas dos personagens. O protagonista é construído de modo comparativo à Dom Quixote, figurando aqui enquanto o "puro", a "inocência", a "compaixão" personificados na pessoa do príncipe. Enfim, há muito presente no livro que resulta em diversas reflexões, necessitando de uma leitura atenta e parcimoniosa. Além disso, o enredo prende a atenção do leitor do início ao fim do livro - que conta com um final fenomenal.
"O Idiota" é assim mais uma das brilhantes obras de Dostoiévski, tratando-se de uma das grandes obras clássicas da literatura mundial!
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MauricioTiso 21/04/2019

O espelho moral
Um dos melhores livros que já li.
A riqueza psicológica das personagens e as inteligentíssimas contraposições do enredo despertam sentimentos e reflexões impossíveis por força própria.
O ideal e o ?normal? se degladeiam nos conflitos entre o Príncipe Míchkin e todos os personagens, e nos despertam incontáveis sentimentos nos fazendo refletir sobre nós mesmos.
Traz muito da cultura da Rússia à seu tempo mas as personalidades e os dilemas são atemporais.
Recomendo a todos que desejam refletir mais profundamente sobre sua ética e sobre como lidar com a sociedade.
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Ane Vasconcel 22/02/2019

"les extremiés se touchent"
"les extremiés se touchent"
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Edmar.Candeia 12/02/2019

Primeiro livro do autor
Um romance com idas, vindas e algumas reviravoltas. Algumas vezes relata bem as relações humanas, noutras a narrativa fica chata.
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