A Gaivota

A Gaivota Anton Tchekhov




Resenhas - A Gaivota


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wagner.alvespereira.9 11/06/2018

Os procedimentos inovadores da obra teatral de Tchekhov
Anton Tchekhov (1860-1904) se insere na órbita daqueles poucos artistas que conseguiram criar uma magnífica obra teatral com o mesmo nível qualitativo e grau de inovação de sua obra literária em prosa. O estudo do teatro tchekhoviano impõe a necessidade de adotar uma perspectiva analítica que explore a articulação entre texto literário e as formas de representação cênica. É profícuo registrar que a arte teatral tchekhoviana não assume feição idêntica à sua arte literária. Trata-se de duas formas distintas de arte, malgrado possam estabelecer – e em inúmeras circunstâncias estabelecem - vínculos de interdependência e reciprocidade.
A constituição da obra literária é dada pelo encadeamento de unidades significativas projetadas por palavras e orações, ao passo que na constituição da obra teatral são os cenários visíveis e a interpretação dos atores que proporcionam os elementos de sua estrutura artística.
No seu processo criativo, Tchekhov tinha sólida consciência da distinção entre as formas de expressão teatral e os procedimentos ficcionais de sua prosa. Em seus textos dramáticos o diálogo entre as personagens configura-se como elemento indispensável; já em sua prosa ficcional, é o narrador quem assume a missão de retratar o transcurso da narrativa.
As personagens de Tchekhov são desprovidas de unilateralidade de espírito; seus atos não são regidos por um movimento simplista de causa e efeito. Isso torna a representação dramática um espaço fecundo para a irrupção, consolidação e expansão da dimensão do imprevisível. Seja qual for o caráter específico das motivações que instigam os comportamentos e atos das personagens tchekhovianas, há um amplo e complexo horizonte de subversão do aspecto quotidiano da existência em algo imponderável, margeante ao extraordinário. A dimensão da imprevisibilidade em suas obras teatrais não possui correspondência direta com os eventos objetivos do enredo; ela deriva dos sigilos da alma das personagens, quase sempre mantidos na obscuridade e inalcançáveis a apreensão imediata do público. O movimento da vida, no transcurso de suas heterodoxas dimensões, nega aos homens e mulheres as possibilidades de plena previsão dos eventos e acontecimentos vindouros. Tchekhov capta esse elemento irremovível da existência humana e o reconstrói na tessitura narrativa de sua arte dramática e ficcional.
O estilo de Tchekhov não é exemplar, ou seja, os enredos de suas peças não têm o objetivo de transmitir ensinamentos morais ao público. Ele expurga a remota possibilidade de transformar sua obra artística em um molde comportamental. Não é fortuito que um dos elementos mais marcantes das melhores peças de Tchekhov deriva de sua capacidade de ocultar o sentido, relegando aos espectadores e, ou, aos leitores a tarefa de chegar às suas próprias conclusões. Encobrir o significado é um dispositivo artístico de alargamento das potencialidades de interpretação. Essa virtude de Tchekhov, que não se restringe ao plano de sua produção artística, mas constitui a sua forma de enxergar e enfrentar a vida, expurga conceber o público como massa amorfa e passiva da representação teatral. Mesmo nos momentos em que sua obra foi alvo de severas e detratoras críticas, como na ocasião da primeira montagem da “A Gaivota”, ele não renunciou seu princípio artístico de que o público é capaz de compreender e ampliar os significados e sentidos de suas peças.
As personagens tchekhovianas estão sempre almejando algo que redirecione seus conflitos subjetivos e preencha seus vazios existenciais. Todavia, a satisfação dos desejos, a concreção dos objetivos, não proporciona a elas a mitigação de seus conflitos íntimos e tampouco cria novos sentidos para suas vidas. A tendência é que suas angústias se dilatem de tal forma que a própria existência se transfigure em fardo insuportável. A face arquetípica dessa amarga experiência pode ser encontrada na personagem Trepliov, assim como na enigmática Nina da peça “A Gaivota”.
A melancolia constitui um elemento ontológico das grandes personagens tchekhovianas. Sentimento de substantiva e ampla dimensionalidade humana, capaz de modular o transcurso das existências dos homens e mulheres, a dimensão melancólica da vida se revela como o procedimento artístico privilegiado de Tchekhov para representar as complexas dimensões subjetivas das personagens. A força desse sentimento se alastra e assimila todos os quadrantes aos quais se inserem as personagens e contribui ao advento e a consolidação de uma “atmosfera” – para usar a feliz expressão de Jacó Guinsburg – de desencanto.
A incomunicabilidade, outro inovador elemento constitutivo que atravessa a produção teatral de Tchekhov, é fonte motora do estranhamento vivido por suas personagens em suas quotidianas relações sociais. Em diversas circunstâncias, a impressão transmitida ao espectador e, ou, ao leitor é que as personagens tchekhovianas não estabelecem um diálogo entre elas, mas uma espécie de monólogo interior com elas próprias. A incomunicabilidade que se instaura entre as personagens também pode ser interpretada como uma estratégia que elas empregam para se desvencilhar de algumas situações constrangedoras, mas, sobretudo, para não ter que enfrentar momentos de intenso sofrimento. Em uma das cenas mais líricas, quiçá também mais inclementes, do teatro tchekhoviano, Trepliov, personagem da peça “A Gaivota”, declara o seu amor a Nina, que, não apenas despreza esse sentimento, como o soterra na confissão que faz de que jamais deixara de amar o principal rival de Trepliov: o decadente escritor Trigórin. O que torna essa cena extremamente dolorosa não é a franqueza de Nina, mas a incomunicabilidade entre ela e Trepliov, que apresenta dois universos subjetivos reclusos em suas amarguras.
As possibilidades de interpretação da obra tchekhoviana são inúmeras, mas é fundamental destacar o tamanho encantamento provocado por suas obras teatrais decorre do fato de ter mostrado que a interpretação da vida humana não pode ficar aprisionada no plano da “racionalidade objetiva”. Em outras palavras, por meio do procedimento artístico que capta as múltiplas dimensões subjetivas de suas personagens, Tchekhov desvelou que o real é demasiado amplo para ser retratado apenas em suas manifestações objetivas e que os conflitos e dilemas que cada ser humano preserva dentro de si possuem valor inestimável.


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IvaldoRocha 21/07/2016

Um tanto estranho Tchekhov tê-la considerado uma comédia.
O título “A Gaivota”, faz referência a um episódio quando Tchekhov, recebeu em sua propriedade no campo a visita de seu amigo, o pintor Levitan. Em uma tarde de caça, Levitan atingiu uma ave e quando foram pegá-la e Levitan viu a ave se debatendo desesperada, pediu a Tchekhov que a mata-se esmagando a cabeça com a coronha da arma. Tchekhov embora relutante teve que matá-la pois quem agora estava desesperado era Levitan, Tchekhov então escreveu:
“E, enquanto dois imbecis voltavam para casa e sentavam-se para jantar, havia uma criatura fascinante a menos no mundo.”
A peça quando encenada pela primeira vez, foi vaiada e Tchekhov deixou o teatro jurando nunca mais escrever outra peça. Talvez o fato dela ter sido apresentada como comédia, e ser muito diferente das comédias da época, tenha colaborado na sua rejeição inicial. Alguns anos depois e com uma certa relutância de Tchekhov, a peça volta a ser encenada e obteve sucesso, tendo se tornado um clássico do teatro russo.
Os seus principais personagens são:
O jovem escritor Trepliov, filho da famosa atriz Irina, que tenta comprovar seu valor como escritor e assim conseguir o amor de Nina, filha de um rico proprietário de terras.
Ao redor deles Trigórin, escritor famoso e namorado de Irina, Sórin irmão de Irina, Chamraiev administrador da propriedade de Sórin, Macha sua filha e Andréievna sua esposa e amante do médico Dorn e Miedviediênko o professor.
Estes personagens irão contar a história que se passa em pouco mais de dois anos, cheia de reviravoltas e com um final surpreendente é uma leitura agradável. Um delicioso passeio em uma Rússia na eminência de sofrer fortes mudanças sociais.
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Svartzorn 07/11/2015

Passível de ser lido como uma simples novela. Um enredo que, como ressaltado pelo posfácio, parece um pouco oculto no meio das trivialidades de uma burguesia russa do século XIX. Em todo caso, compreensível e uma mensagem bastante pertinente. Também digno de nota por conta dos pensamentos de alguns personagens acerca da arte da escrita. Futuros escritores, estejam atentos.
Mas, como não tenho qualquer experiência com dramaturgia, é possível que essa pequena resenha se saia muito mais cheia de diletantismo que de costume - provavelmente há algo que não estou captando. De qualquer modo, a simples leitura não substitui a vivência da peça em um teatro.
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Rico 29/08/2012

Nesta peça controversa e polêmica - ao menos para o espírito da época na qual ela fora encenada pela primeira vez, tendo custado ao autor críticas austeras - Tchékhov tece sua crítica ao teatro de sua época, elencando os sintomas de decadência não só da forma teatral mas do modo de vida da Rússia em que vivia; e mostra-nos, diferentemente de um simples crítico da negatividade, um outo teatro, pois o fracasso de sua peça deve-se, unicamente, a sua originalidade inegável. Dir-se-ia um teatro imanente à vida, que não põe em cena personagens gloriosos, heróis, vilões, mas a vida, por vezes miúda e medíocre, de pessoas comuns tentando dar jeito em suas próprias existências. Outra transvaloração do autor é no que diz respeito a estrutura da trama que não desenrrola-se mais à guisa de maniqueísmos, isto é, não são mais histórias em que o Bem e o Mal dispuntam entre si o domínio sobre o mundo, mas indivíduos vivendo suas vidas na pura inocência do devir, ou seja, sem culpa, sem o peso da culpa, daí a completa ausência de "mocinhos" e "bandidos". Não há encadeamentos causais entre os acontecimentos que se sucedem, inclusive os mais terríveis. Há tão só a vida em seus movimentos variados. Esta peça é, sem dúvida, uma chave para a nossa época e não apenas para a Rússia de Tchékhov, pois a decadência que ele pressentia é a nossa, ele fala já de um certo niilismo. Isso outros treatólogos também perceberam.
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