Decamerão

Decamerão Boccaccio




Resenhas - Decamerão


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Fendrich 11/09/2019

Decameron e o fim de toda a lei
Salta aos olhos, ao longo das novelas de “Decameron”, o péssimo conceito que Giovanni Boccacio faz dos sacerdotes e líderes religiosos em geral. Os que apresenta ao leitor, certamente colhidos a partir de exemplos reais, estão muito longe de viver uma vida em santidade e voltada à espiritualidade. Ao contrário, entregam-se a vícios, são corruptos, avarentos e, sobretudo, lascivos. Na melhor das hipóteses, são ignorantes. Não demonstram um grande respeito ao sagrado e, por vezes, inclusive o usam de maneira a favorecer seus próprios apetites carnais.

Mais do que a revelação da hipocrisia de sacerdotes no período medieval, no entanto, o que chama a atenção nas novelas de Boccaccio é que isto não representa uma ruptura na fé dos personagens. Todos tinham tais líderes em péssima conta, mas nem por isso deixavam de acreditar no Deus por eles pregado. É em uma igreja que os personagem se encontram, em meio à peste que grassava a Europa. E, mesmo depois que decidem partir para um local isolado, continuam a guardar os dias santos e a assistir os ofícios divinos. Fazem, pois, uma interessante separação entre os guias espirituais e a realidade divina.

Em verdade, parecem acreditar que a religião enquanto instituição não é mais do que um empecilho para a volúpia do amor. E, para que esta se realize, estão justificadas, inclusive diante de Deus, todas as desonestidades possíveis. O livro, afinal, mais do que amor ou fé, é composto por burlas, e um final feliz é aquele em que a burla funciona ou não deixa suspeitas. É como se os personagens dessem um sentido absolutamente carnal à palavra de que o fim de toda lei é o amor. Uma vez que este amor se concretize, independente dos meios, consideram impossível que não estejam fazendo a vontade de Deus.

São indomáveis os seus desejos e, na maioria das histórias, não há quem consiga vencer a si mesmo. Não admira que seja assim no ambiente em que os próprios sacerdotes não dão exemplo de que seja possível refreá-los. É curioso que nem toda a corrupção do clero tenha sido suficiente para diminuir a força da igreja – talvez seja como disse o judeu convertido de uma das novelas: se ela continua, apesar de todo o esforço dos homens para que pereça, então deve ser mesmo obra do Espírito Santo.
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Bete.Nogueira 10/03/2019

A humanidade em contos bem-humorados
Escrito no século XIV por Giovanni Boccaccio, Decameron, ou Decamerão, dependendo da tradução, é um livro que reúne 100 novelas (ou contos) com personagens italianos que vivem situações eróticas, aplicam golpes, dão lições em mentirosos e satirizam o comportamento de religiosos. O autor usar o horror da Peste Negra como justificativa para reunir dez jovens em um castelo afastado da cidade e, assim, iniciar as “jornadas” diárias, em que cada amigo deve contar uma história.

Na introdução de Decameron, é descrita a situação em Florença com a chegada da epidemia, dos sintomas ao comportamento das pessoas, além do que se via nas ruas com o passar dos dias. Dali, parte-se para uma igreja, um dos lugares de refúgio do povo, onde sete amigas de origem abastada decidem se isolar daquela situação, e convidam três rapazes para acompanhá-las. Nesse escapismo à tragédia que assolava a Europa, a cada dia um é escolhido como o novo rei ou a nova rainha, que determina, entre outras coisas, o tema da jornada do dia, utilizando o tempo livre para se divertir com os relatos dos amigos.

Na linda edição que eu li, do Círculo do Livro de 1990 e com tradução de Torrieri Guimarães, são 580 páginas que se lê sem cansaço. Pelo contrário: das histórias trágicas às mais ingênuas, estão ali situações universais, fraquezas e astúcias de personagens que ainda estariam por aí: as tramoias que às vezes dão certo, mas outras que dão errado porque a vítima se mostra mais esperta do que outro; acertos de casamento; a ingenuidade que está tanto no simplório como no homem instruído; e um constante “clamor do sexo”, com situações que envolvem adolescentes, adultos de todas as idades, libertinos e religiosos. No final, quase todos felizes, como se tivessem cumprido a tarefa de mais um dia demonstrar o que é ser humano, capaz de passar por cima de regras e da tradição em nome do instinto.

Giovanne Bocaccio (1313-1375) viveu na região da Toscana, e sua obra foi escrita no dialeto local. Decamerone, no original, vem do grego “deca hemeron”, ou dez jornadas. Ao retratar as mulheres, muitas vezes, em pé de igualdade com os homens quando o assunto é o desejo carnal, o livro rompe com a moral vigente até então, na Idade Média, período da História que termina justamente com a Peste Negra. Por esse e outros aspectos, é considerado pelos estudiosos como o primeiro livro realista.

Especula-se que algumas histórias reunidas por Boccaccio já faziam parte da tradição oral, outras são apontadas como adaptações de antigos escritos. Tanto que algumas situações nos parecem familiar, como a novela em que dois amigos fazem um trato que obriga aquele que morrer primeiro a aparecer para o outro e contar o que viu do lado de lá. A graça está em como o autor termina essa e outras histórias, que podem ter sido contadas antes e que muitas vezes foram adaptadas depois, por diversos autores.

"Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano (...) de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença (...), sobreveio a mortífera pestilência", narra Boccaccio. A epidemia levou muitos, mas Masetto, Andreuccio e outros personagens passaram a perna em homens, mulheres e na dona Morte.

site: http://memorialaereo.blogspot.com/2019/03/decameron-humanidade-em-contos-bem.html?m=1
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Deghety 12/09/2017

Decamerão - Giovanni Boccaccio
Florença, meados do século 14, durante a peste que assolou a Europa, matando milhares de pessoas e fazendo com que cidades fossem quase que totalmente abandonadas, 10 nobres jovens, 7 mulheres e 3 homens, criam uma espécie de sociedade alternativa nas cercanias florentinas.
Durante 10 dias cada membro dessa sociedade era incumbido de contar uma novela com um tema específico declarado pelo rei ou rainha, reinados estabelecido entre eles, numa hierarquia rotativa.
Esses contos, ou novelas, abordavam temas como charlatanices religiosas, lições de moral, tragédias, romances, humor, atitudes nobres e infidelidade, muita infidelidade, todos narrados com excelência.
Essa obra de Boccaccio é interessante por vários aspectos:
Contexto histórico, a indiscutível qualidade, a beleza das narrativas e personagens espetaculares, que usam inteligência e sagacidade em certas resoluções nas novelas, sobretudo em justificativas para as infidelidades, de deixar qualquer um boquiaberto.
Outra coisa que chamou a atenção foi o fato de já haverem leitores sensíveis naquela época. Boccaccio, tanto na introdução como na conclusão, se defende contra isso, dizendo até para deixarem de lado certas novelas e diz:
"...elas não vão correr atrás de ninguém, para serem lidas...".
Em outro ponto, diz:
"Todas as novelas trazem, no início, a fim de que ninguém se engane, a indicação do que elas possuem em seu contexto."
O que ele chama de indicação eu chamo de puta spoiler rsrs.
Mas enfim, muitas dessas novelas são incríveis e o aconselhável seria aprendermos a recontá-las em rodas de amigos, como fazendo com piadas, já muitas delas possuem um requintado humor e outras, como disse lá no início, lição de moral, que essa geração anda precisando.
Se você chegou até aqui, muito obrigado pela atenção e um excelente dia.


. 12/04/2017

Creio que a mensagem implícita é de revelação da corrupção em males que também assolam a alma, como se a visão da enfermidade que acometia o corpo aflorasse também a visão da degradação de caráter. A obra foi escrita no período medieval, no contexto da peste negra que assolava a Europa, como um retrato de época, rompendo com padrões preconizados ao expor hipocrisia, interesses escusos, sexualidade, traições, condutas perversas, machismo e repressões, em uma construção jocosa, inovadora e carismática.

Geralmente o livro é associado à perversão sexual, mas essas histórias não são a maioria. Se for para estereotipar, a ideia deve estar ligada à revelação do homem, naquele contexto social, em um posicionamento libertário e real na sua identidade. O homem é corrupto, praticando injustiças, e a obra não se omite em dizer isso, mesmo nos velados idos de 1348 ou perto disso.

Embora as histórias picantes não sejam a maioria, o apelo e curiosidade que provocam levaram a ser as mais conhecidas. Fale de sacanagem que o povão fica logo de orelha em pé! Né não!? Aham! Ora se não!
Nesse contexto, acredito que estão entre as mais conhecidas a do mudo no convento (onde o sujeito deu uma de calado para trabalhar como jardineiro e aí teve que lidar com "outras flores", insaciavelmente... eu disse em um convento) e a narrativa da disponibilidade de um cara de pau em ajudar o seu compadre em certo feitiço para transformar sua mulher numa égua (sabe de nada, inocente - o tal feitiço que inventou se construía através de uma relação sexual... fala sério!). Porém, a mais salafrária de todas, na minha opinião, foi a a décima da terceira jornada. Narrativa sobre um tal "tirar o diabo do corpo lançando-o no inferno" que um descarado monge ensinava para uma moça a pedido do pai, onde o demo era o "volume animado do monge quando via a moça" e o inferno era o "fogaréu em despertamento da jovem nos países baixos". Mas que safadeza!
Coisas que aconteciam, mas eram mascaradas e Boccaaccio, sem querer querendo, lançou no ventilador, brincando e falando sério.

Nas histórias diversas - que falam de desventuras, traições, machismo, repressão, hipocrisia e outros aspectos - vou deixar em registro a de dois homens que teriam buscado conselhos com Salomão sobre suas mulheres. Um queria ser amado e foi aconselhado a amar, já o outro que queria dar uma lição na mulher, através de uma simbologia grotesca, entendeu que deveria dar uma senhora surra. Deixei em registro apenas para mostrar o contexto de época violento para as mulheres, revelado pelo autor, e também por me apresentar uma palavra que não conhecia: abespinhado.
Outra história foi a do homem e a esposa teimosa, na nona jornada, por ter um desenrolar de terror que pensei que ia se transformar num conto de lobisomem. Só um fato inusitado, por isso também registrei.
Seja como for, todas as narrativas são delineadas por costumes, crenças e identidade oculta naquele contexto. Nas entrelinhas, um livro de revelações. Não vou ousar em dizer na minha limitação, mas seria um inusitado estudo antropológico ou sociológico?

Finalizando, Decameron em grego significa dez dias. Isso porque a obra mostra um grupo de dez pessoas (7 mulheres e 3 homens) que se reuniram durante dez dias para contar histórias. Em cada dia todos contavam uma história, totalizando cem ao final da jornada. A motivação foi a busca de um refúgio quando a peste negra assolava a cidade (Florença).
A segunda vez que li e tive certo enfado. O aproveitamento é a visão no contexto de época, que escancarava muita falsidade e maracutaia.
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Hellen 03/01/2016

Encantada, emocionada, arrepiada. via esse livro na minha estante e pensava "ano que vem eu leio", fui adiando a leitura. Uau, quanto tempo eu perdi. Perfeito!
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cristiano 06/06/2015

Aula de Literatura
Você pode até me dizer que as histórias são simples e por horas enfadonhas. Mas nunca que não são originais! Pleno 1300 e poucos, ia demorar mais uns 200 anos para o Brasil ser "descoberto" por Portugal, e toda a censura da época, Boccaccio fez textos limpos, cheios de melindragens e liçoes de moral, particularmente viajei e conheci muito pela Itália através do livro, já que as descrições das cidades são muito bem relatadas, inclusive nas N.T. Achei um livro importante como formação de leitor em geral, historicamente falando é essencial. Clássico!
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Mário Henrique 08/12/2012

Excelente livro
Gostei do livro. As novelas são muito criativas, apesar de girarem em torno do amor entre um homem e uma mulher.
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Jessica Raquel 04/07/2012

Até o nome do autor é sugestivo...
Eu adoro Boccaccio ,se você não o conhece ele foi um cara que criou o seguinte livrinho,dez jovens(sete moças e três rapazes) uma juventude fugindo da Peste Negra, se trancam numa casa, e eles passam o tempo contando estórias ...


Agora imaginem,10 jovens contando estórias, sera que vão aparecer estórias religiosas?

Decameron...10 dias, 10 jovens, 10 estorias, 100 estórias. E o alvo principal é a igreja. Só pra você entender melhor a igreja católica tinha uma lista de livros proibidos:Index Librorum Prohibitorum.Adivinha qual era o primeiro da lista?
Por 300 anos esse foi o livro mais perseguido da historia da igreja católica. E adivinha qual livro que todos queriam ler?
Um cara ter o atrevimento de criar um livro pornográfico incluindo pessoas da igreja no século XIII e XIV...é realmente muito corajoso. Esse só não foi queimado porque Deus não quis. Mais a ousadia dele mostrava uma nova postura pra época.Marca a historia e o humanismo.Vale muito a leitura.
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Felipe 17/05/2012

Boccaccio é o pai espiritual de todos os prosadores do Ocidente. Arquitetou o primeiro e mais completo compêndio da perversidade – ou deveria dizer da glória? – humana. O Decameron não é apenas um conjunto de cem novelas dispersas. É e não é só isso. É, talvez, o primeiro grande romance europeu, pois Boccaccio usou de uma inteligentíssima engenharia para construir sua obra. Em vez de encontrarmos uma coleção dispersa de anedotas, temos, pelo contrário, a mais rigorosa organização: personagens que acompanham o livro do começo ao fim e uma trama coerente sobre o porquê deles estarem ali, reunidos, a contar histórias.

Diferentemente de seus conterrâneos e contemporâneos, como Dante e Petrarca, Boccaccio não constrói transcendências, pelo contrário, a sua meta é o mundo de cá, o mundo dos vivos e pulsantes seres humanos. O amor em Boccaccio é carne, é sangue, é arrepio. A sua lógica é a lógica mundana, biológica, real. O amoralismo diante das situações é um verdadeiro pontapé na bunda de todos os escrúpulos e pudores, um amoralismo só igualado em Petrônio. A crítica social, literária e moral de suas novelas chegam ao paroxismo e fazem de Boccaccio um grande moralista que polui tudo que gozava de grande credibilidade à época.
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Yussif 16/05/2012

A obra é considerada um marco literário na ruptura entre a moral medieval, em que se valorizava o amor espiritual, e o início do realismo, iniciando o registro dos valores terrenos, que veio redundar no humanismo; nele não mais o divino, mas a natureza, dita o móvel da conduta do homem.
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Gláucia 21/09/2010

Cansativo ao extremo
Até as primeiras 200 páginas, o livro merecia nota 3. Dez jovens se encontram para contar histórias durante o "reinado" de cada um, dando um total de cem. Em geral, o tema é amor, sexo, adultério, engodos, etc, e algumas são bem divertidas, mas acabam se tornando repetitivas. E tem histórias tão absurdas, mal dá para acreditar, principalmente a centésima, que, se tivesse sido a primeira eu teria abandonado a leitura.
Em resumo, leia apenas quando não tiver nadica de nada para ler.
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doc leão 24/05/2010

Fiel descrição da idade média
Decamerão é dividido em dez capítulos principais, que por sua vez têm dez histórias relacionadas ao tema de que trata o capítulo. (Total 100 histórias). As histórias são contadas por um grupo de amigos que se isola para proteger-se da peste que assola a Europa por volta do século XIII. Falam sobre amores traídos, amores realizados, histórias picantes de sexo, amores com finais felizes outras vezes com finais tristes. O livro retrata fielmente a idade média e desafia a igreja e os costumes da época com o tom quase debochado com que trata de assuntos como religiosidade e sociedade.


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Fábião 06/04/2010

Repetitivo e Cansativo
Apesar de ser muito bem escrito, os contos são todos iguais, todos falando sobre sexo, o que culmina por cansar o leitor.


C. 12/04/2009

Eco além do grito: leitura do Decameron
"La gioia di vivere che c'era nel Boccaccio (anche nei racconti tragici) proviene dall'ottimismo del Boccaccio. L'ottimismo del Boccaccio era un ottimismo storico (...) nel momento in cui lui viveva, esplodeva quella meravigliosa e grandiosa novità,(...) nasceva la Borghesia” (Pier Paolo Pasolini)



Decameron toma forma a partir da descrição duma peste avassaladora, motivo pelo qual sete mulheres e três rapazes procuram refugiar-se numa casa de campo. Ociosos, sem televisão ou baralho, nossos jovens desenvolvem ali a trama de narrativas orais cujo conjunto dá forma à obra prima de Giovanni Boccaccio e se presta tanto a paradigma quanto registro documental do ascendente estrato social em germe ali: a burguesia.

No decorrer de seus cem episódios, Decameron transita entre a tragédia e a comicidade, a perspicácia e o erotismo, remetendo sempre à Florença do início do século XIV assolada pela doença. A narrativa apresenta uma construção hermética, na qual cada um dos jovens conta uma história por noite, durante dez noites.

Se me coubesse classificá-lo, diria que tratamos aqui duma novela – de minha parte, mais por questão de afasia que de gênero - de cunho particularmente didático, na medida em que procura desenvolver temas como a libertinagem e a hipocrisia, remetendo à narrativa moral, ratificando, ainda que muita vez por meio da irreverência, uma afirmação sólida do humanismo.

Me dói, desde a primeira leitura do livro, o ouvido. Além da óbvia intertextualidade entre este Decameron e As mil e uma noites, tenho a impressão – diga lá se discorda! - de escutar eco alto de nuances variadas do Decameron em textos feito O ensaio sobre a cegueira do Saramago e A Peste do Camus.

Pensando, por fim, em referências, vale ainda – e sempre – citar a adaptação cinematográfica homônima de Pasolini, na qual são esmiuçados nove dos cem episódios constantes da obra original.

Curiosamente, o foco da adaptação de Pasolini está nos episódios de caráter libidinoso do Decameron. Dos nove episódios do filme, cinco são, basicamente, contos eróticos, como aquele no qual Musetto, fingindo ser surdo-mudo, se deixa ser seduzido pelas freiras do convento no qual trabalha como jardineiro; ou o episódio de Peronella, que esconde o amante dentro dum jarro solicitado por seu marido e tem a pachorra de mandar ver com o outro enquanto o marido limpa o vaso; o de Caterina, que, após passar a noite com seu namorado, é perdoada pelos pais porque, afinal, Ricardo é um homem de posses; o episódio de Tingoccio e Meuccio, dois amigos completamente libertinos que acreditam que serão punidos após a morte por suas peripécias sexuais e, mais tarde, numa visão, têm a crença abalada a ponto de legitimar nova investida na esfera sexual; e o conto do padre que propõe a um homem transformar sua esposa em égua, ao passo em que, na verdade, manda bala na mulher do sujeito.

Se coube ao Decameron original a classificação na minha estante da narrativa didática, a adaptação de Pasolini parece, à primeira vista, um estandarte do sexo como símbolo da liberdade.

- Como assim, bicho?

- Ah, cara, um lance tipo Sonia Braga nA dama do lotação, saca?

Brincadeira sem graça à parte, verdade é que Pasolini, obviamente, vai além da questão estritamente erótica imediata: talvez possamos interpretar o sexo, as notórias cenas nas quais predominam a nudez e as genitálias, bem como aquelas nas quais a aproximação da lente ressalta sorrisos desdentados – embora derridam os derridentes -, rostos muito caricatos, excrementos humanos e tudo quanto for enumerado ali em âmbito escatológico, como recursos capazes de resgatar o humano no homem.

Possivelmente, a indagação final ("Por que realizar uma obra, se já é tão formoso apenas sonhá-la?") de Giotto, interpretado pelo próprio diretor, ratifique a idéia do resgate. É, ali, metalingüística a inquietação eterna do artista – Pintor/Cineasta.

Entendo que, além da óbvia coincidência onomástica e temática, o Decameron de Giovani Boccaccio e o de Pier Paolo Pasolini apresentam reflexões do ido para o porvir, pelo qual, indubitavelmente, se nutre expectativa mais ou menos otimista.



Referências:

BOCCACCIO, Giovanni. Decameron. São Paulo: Matins, 1956

Il Decameron. Pier Paolo Pasolini (dir.), 1971
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Carla Valle 25/01/2009

Algumas histórias são tão engraçadas que você não sente estar lendo um livro de centenas de anos. Vale a pena ler!!


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