milk and honey

milk and honey Rupi Kaur




Resenhas - Milk and Honey


4 encontrados | exibindo 1 a 4


Ana Carolina Santos 27/08/2018

Leiamos todas(os) ‘Outros jeitos de usar a boca’
Em seu livro de estreia, a poeta indo-canadense Rupi Kaur acerta em cheio ao retratar as vivências da mulher

sua arte
não é quantas pessoas
gostam do seu trabalho
sua arte
é
se seu coração gosta do seu trabalho
se sua alma gosta do seu trabalho
é quão honesta
você é consigo mesma
e você
não deve nunca
trocar honestidade
por relacionabilidade

- para todas(os) vocês jovens poetas

(Tradução feita por mim)

A partir do poema acima, vê-se que a poeta Rupi Kaur não liga muito para o fato de tornar sua escrita relacionável, de fácil identificação. Apesar de este não ser seu objetivo, Kaur é muito bem-sucedida nisso. “Outros jeitos de usar a boca”, seu livro de estreia, é um retrato certeiro da vida de uma mulher, independente de sua idade, origem ou cor.

Nascida em Punjab, na Índia, em 1992, Kaur foi para Toronto, no Canadá, aos 4 anos de idade, e vive lá desde então. Lançou “Milk and Honey”, o nome do livro em inglês, de forma independente em 2014 e tal foi o sucesso que a casa editorial Andrews McMeel Publishing adquiriu os direitos e relançou a obra. O livro figurou por mais de 40 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e foi publicado em inúmeros países do mundo, chegando ao Brasil através da editora Planeta, em 2017. (Quem puder, que leia no original. Não me considero a pessoa mais indicada para avaliar traduções, mas foram tomadas decisões no mínimo questionáveis. Por exemplo, traduzir “beautiful” como “gata”.)

É coisa rara um livro de poemas causar tamanho alvoroço, o que nos faz refletir sobre o porquê desse triunfo. Quando pensamos em poesia, lembramos de sonetos de Camões, tercetos de Bilac e outros “etos” recheados de palavras rebuscadas. A poesia de Kaur é fácil, é acessível. Sua linguagem é a da segunda década do século XXI. Ela não se prende a formatos pré-estabelecidos. Há poemas de sete palavras e dois versos. Há poemas longos, que flertam com a prosa. Ela ignora completamente as letras maiúsculas, até as do pronome “I” do inglês.

Mas a facilidade para por aí. Seu conteúdo é pesado, é incômodo. Kaur não poupa o leitor quando fala das dores e dos prazeres de ser mulher. A primeira das quatro divisões do livro, “a dor” (“the hurting”), já expõe uma infância difícil, permeada pelo abuso sexual e pela ausência paterna. A segunda parte, “o amor” (“the loving”), explora a ânsia por ser amada e o êxtase ao se encontrar, finalmente, afeição. “A ruptura” (“the breaking”) demonstra todo o desespero ao ver as ilusões se quebrarem com a partida do companheiro. E por fim, “a cura” (“the healing”) evidencia a descoberta do amor próprio e a consequente plenitude.

quero pedir desculpas a todas as mulheres
que chamei de bonitas
antes de chamá-las de inteligentes ou corajosas
sinto muito se soou como se
algo tão simples quanto aquilo que nasceu com você
seja tudo o que você tem para se orgulhar quando seu
espírito partiu montanhas
de agora em diante eu direi coisas como
você é resiliente, ou você é extraordinária
não porque eu não te ache linda
mas porque você é muito mais do que isso

(Tradução minha.)

A literatura de Kaur é frequentemente rotulada de feminista e a própria autora se define como tal. Na última parte do livro, há muitos poemas como o de cima, que falam sobre a união entre mulheres e a cessão da competição feminina. Tudo se amarra: depois de todas as adversidades, a lição é amar a si e à próxima. É bonito e ao mesmo tempo triste ver que todas nós, mulheres, passamos pelas mesmas coisas. Uma jovem indo-canadense relata suas experiências e é lida por brasileiras, espanholas, neo-zelandesas entre outras, que se identificam com pelo menos um dos aspectos retratados ali. Não há dúvidas de que esses poemas vêm ajudando mulheres ao redor do mundo.

Enquanto lia, me veio à cabeça um trecho de “1984”, romance do inglês George Orwell, curiosamente também nascido na Índia —, em que o protagonista Winston põe as mãos em um livro escrito por Goldstein, líder da resistência ao governo ditatorial do temido Grande Irmão.

"Em certo sentido, o livro não lhe dizia nada de novo, o que era parte do fascínio. Dizia o que ele teria dito, se tivesse a capacidade de organizar seus pensamentos dispersos. Era o produto de uma mente semelhante à dele, porém muitíssimo mais poderosa, mais sistemática, menos amedrontada. Os melhores livros, compreendeu, são aqueles que lhe dizem o que você já sabe."

“Outros jeitos de usar a boca” é um livro para se ler, reler, emprestar para a amiga, presentear a mãe, ler em voz alta para o namorado. Um livro para todas. Todos também. Mas principalmente para todas.
comentários(0)comente



Mari 23/04/2017

Perfeição
Que livro incrível! A Rupi Kaur conseguiu criar uma obra tocante, relevante e com representativa. Me enxerguei em alguns poemas, em outros senti empatia por dores que não eram minhas e terminei com o coração pleno de confiança e desejo de seguir em frente. Aqui lemos sobre abuso, violência com a mulher, machismo, separação, desilusão, mas também amor, por que não?
Virou um dos favoritos da vida.
comentários(0)comente



Renata (@renatac.arruda) 03/04/2017

Rupi Kaur escreve poemas poderosos sobre abuso físico e emocional, ausência, amor, perda, autoestima, feminilidade e cura. Algumas vezes ela pode ser motivacional e dócil demais, mas esse lado equilibra bem com a afiação de todo o resto. Difícil não se identificar.

Gosto da musicalidade dos poemas em inglês e estou curiosa para ler a tradução da Ana Guadalupe.

site: @prosaespontanea https://www.instagram.com/p/BSXE2ZLBG80/
comentários(0)comente



Ludmilla 10/02/2017

Milk and Honey
Milk and honey é um livro repleto de poemas e pequenos textos que falam sobre diversos assuntos como amor, trauma, feminismo e outros. O livro em si é dividido em quatro partes, são elas: dor, amor, ruptura (corações partidos) e a cura. A primeira divisão por exemplo traz pequenos e geniais poemas falando um pouco mais sobre a dor, seja ela no sentido amoroso, no sentido de trauma ou de mágoas com a família, principalmente em relação a figura paterna.

Eu particularmente nunca fui muito fã de poemas, porém não pude deixar de me apaixonar completamente pela compilação de palavras que esse livro traz. Os poemas e textos são tão verdadeiros e sentimentais que é como se aquelas palavras tocassem o âmago do seu ser. A cada leitura você tem que parar por um segundo para contemplar o que acabou de ler e para pensar mais profundamente sobre o assunto tratado.

Outro ponto positivo do livro são os desenhos. Várias páginas são acompanhadas por delicadas ilustrações, cada uma mais bonita do que a outra. São traços simplistas que se conectam com os poemas e acabam por ajudar a ilustrar a mensagem e sentimentos que Rupi Kaur quis transmitir ao leitor.

Como a própria autora diz cada capítulo do livro vem com um propósito diferente, cura uma dor diferente. É agridoce pois é recheado de momentos amargos e doces presenciados durante a vida. Várias lições e ensinamentos podem ser aprendidos durante a leitura desse livro mesmo que por menor que sejam. É um conjunto de temas importantíssimos que necessitam ser falados, necessitam ser lidos e frisados. São palavras que no meu ponto de vista não devem cair em esquecimento por tal motivo recomendo muitíssimo este livro, tenho certeza de que você irá se apaixonar.
comentários(0)comente



4 encontrados | exibindo 1 a 4