Neste longo texto ficcional em forma de monólogo, Clarice Lispector se confunde com a personagem, uma solitária pintora que se lança em infinitas reflexões sobre o tempo, a vida e a morte, os sonhos e visões, as flores, os estados da alma, a coragem e o medo e, principalmente, a arte da criação, do saber usar as palavras num jogo de sons e silêncios que se combinam. Tudo é revelado através do olhar dessa pintora-narradora, que cai em estado de graça em plena madrugada.
Água Viva - Clarice Lispector
Devo admitir que fiquei bastante confusa lendo esse livro (muito natural, ao ler Clarice 😂), mas esse foi em um nível inimaginável, fiquei com a sobrancelha franzida por tanto tempo, que ao finalizar a leitura, minha cabeça estava doendo. Pretendo reler o livro e ver se a experiência de leitura mude com o passar do tempo, mas o que eu tenho a dizer por enquanto é: Confusão. Eu gostei bastante da ideia da Clarice querer escrever tudo o que se passa no "instante-já", no momento em que ele ocorre, mas que já não o é mais, quando tenta descrevê-lo: "Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais." Li uma resenha, em que uma menina dizia que o livro incomodaria pessoas organizadas, por não possuir uma ordem, muito menos uma lógica racional. Pelo fato do livro ser escrito através da narrativa de uma pintora, e que iremos nos perder em meio às palavras, pensamentos e devaneios dela. É um livro que tenta expor e explicitar o que se passa dentro da mente no instante-já. Em busca de algo inalcançável. Pois como a própria Clarice diz: que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Trechos Preferidos ✍🏻📚❤️ Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura — o objeto (...) Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. O instante-já é um pirilampo que acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará em um imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Mesmo que eu diga “vivi” ou “viverei” é presente porque eu os digo já. Não sei captar o que existe senão vivendo aqui cada coisa que surgir (...) Quero é uma verdade inventada. Não sei sobre o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma. Eternidade: pois tudo que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina — porque assim é o eterno. Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas. Para onde vou? e a resposta é: vou. Quando eu morrer então nunca terei nascido e vivido: a morte apaga os traços de espuma do mar na praia. Agora é um instante. Já é outro agora. O que não vejo não existe? O que mais me emociona é que o que não vejo contudo existe. Porque então tenho aos meus pés todo um mundo desconhecido que existe pleno e cheio de rica saliva. Mas há perguntas que me fiz em criança e que não foram respondidas, ficaram ecoando plangentes: o mundo se fez sozinho? Mas se fez onde? em que lugar? E se foi através da energia de Deus — como começou? será que é como agora quando estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo? É por esta ausência de resposta que fico tão atrapalhada. Antes do aparecimento do espelho a pessoa não conhecia o próprio rosto senão refletido nas águas de um lago. Depois de um certo tempo cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a minha. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre. Nem nunca haverá. Nunca é o impossível. Gosto de nunca. Também gosto de sempre. Que há entre nunca e sempre que os liga tão indiretamente e intimamente? O futuro é o que sempre existiu e o que sempre existirá. Estou prestes a morrer-me e constituir novas composições. Estou me exprimindo muito mal e as palavras certas me escapam. Terei que morrer de novo para de novo nascer? Aceito. Vou voltar para o desconhecido de mim mesma Que música belíssima ouço no profundo de mim. Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Segurar passarinho na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivesse os instantes trêmulos na mão. O passarinho espavorido esbate desordenadamente milhares de asas e de repente se tem na mão semicerrada as asas finas debatendo-se e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão para libertar a presa leve. Ou se entrega-o depressa ao dono para que ele lhe dê a maior liberdade relativa da gaiola. Pássaros — eu os quero nas árvores ou voando longe de minhas mãos. Talvez certo dia venha a ficar íntima deles e a gozar-lhes a levíssima presença de instante. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Realizo o realizável mas o irrealizável eu vivo (...) É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde.
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