Javier Marías é um escritor para leitores pacientes. É uma virtude necessária para aproveitar a densa prosa de um dos maiores romancistas vivos. Aqui, a literatura ligeira não tem vez.
O primeiro volume do monumental "Seu rosto amanhã", dividido em três tomos, propõe, como de costume na obra deste espanhol, uma discussão de cunho filosófico. Interessa a Marías muito mais a reflexão do que a ação, mesmo que a trama envolva espionagem. E a grande questão desta vez é: o que está implícito no ato de contar? À primeira vista pode parecer uma pergunta confusa, sem propósito, mas vou me arriscar a explicar.
Você, por exemplo. Já parou para pensar quantas vezes no dia a dia temos a oportunidade de saber algo que não devia ser revelado? Ou ainda contar algo que não devia ser compartilhado? A palavra, mas mais do que ela, a comunicação, é perigosa. Não importa se é apenas uma fala, um olhar ou um gesto. Comunicar algo a alguém nos torna vulneráveis a qualquer momento - e não é preciso ser um espião para saber disso.
Para além das consequências da decisão de não se calar, Marías medita sobre o poder do segredo e a fragilidade da confiança. Afinal, os mortos não podem contar, esse é um ato pertencente somente aos vivos e por isso é tão delicado. Aos mortos, como as páginas mais inspiradas do romance nos revelam com maestria, pertence apenas a permanente segurança do silêncio. Mas chega de divagar, voltemos às questões mais formais do livro.
Uma maneira interessante de entender o estilo do autor pode ser sintetizada na frase de Laurence Sterne, um dos ídolos literários de Marías, sempre repetida em entrevistas concedidas por ele: "eu avanço enquanto eu digressiono". Aliás, digressão é a palavra-chave para entender - e entrar - em qualquer obra do espanhol. A capacidade, muitas vezes cansativa, que ele tem de tirar o foco da história principal e retornar ao exato ponto perdido após páginas e mais páginas de reflexões é, goste você ou não, impressionante. Outro ponto a salientar é a característica possessiva de quem narra. Narrada em primeira pessoa, a história é por vezes levemente claustrofóbica. O poder e a falta de abertura exercidos pelo narrador para com os leitores me irritou um pouco, pois me senti sufocado em certos momentos.
Outras críticas importantes devem ser feitas aqui. Uma delas é a ausência de personagens femininas relevantes. Em mais de 400 páginas acompanhamos a conversa entre dois homens, um idoso e outro na meia-idade, se eu quiser resumir precariamente o livro. Mas isso pode mudar no segundo e terceiro volumes (eu espero). Há também o fato da condição socioeconômica das personagens se passar num microcosmo ínfimo: todas são eruditas, no mínimo bilíngues e provavelmente nunca passaram dificuldades para pagar contas. Isso reflete claramente a personalidade do autor, homem branco, hétero, europeu, erudito e rico, mostrando, portanto, certa miopia para problemas essenciais do nosso tempo. Mesmo assim, Marías ainda consegue abordar com competência as mazelas humanas que não distinguem cor, gênero ou condição social.
Em seu primeiro volume, intitulado "Febre e lança", o romance "Seu rosto amanhã" é uma experiência válida para quem conhece o terreno que pretende entrar. Aos não iniciados, o clássico contemporâneo "Coração tão branco" ou o ótimo "Os enamoramentos" soam como opções mais interessantes para conhecer o pensar literário de Marías. Agora resta descobrir o que os misteriosos Peter Wheeler e Bertram Tupra reservam ao protagonista do romance, Jacques Deza, e a nós, (nem tão) inocentes leitores.