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    Seu rosto amanhã - Febre e lança

    Javier Marías

    Companhia das Letras
    2003
    408 páginas
    13h 36m
    ISBN-13: 9788535904239
    Português Brasileiro
    4.1
    62 avaliações
    Leram86Lendo6Querem305Relendo0Abandonos5Resenhas8
    Favoritos15Desejados305Avaliaram62

    De volta à Inglaterra, um homem se junta a um grupo de velhos espiões da Segunda Guerra. Em comum, eles têm o poder de prever o futuro e, assim, evitar traições. Uma narrativa de grande engenhosidade, que se equilibra entre o humor e a reflexão. Autor de Coração tão branco, Javier Marías é um dos mais importantes escritores espanhóis contemporâneos. O narrador de Seu rosto amanhã é um ex-professor da Universidade de Oxford que, depois de se separar da mulher, resolve voltar à Inglaterra. Guiado por outro professor aposentado, ele encontra um grupo de velhos espiões do núcleo do Serviço Secreto britânico que atuaram contra o nazismo durante a Segunda Guerra. Surpreendentemente, eles continuam na ativa, mas com novo e misterioso objetivo. O narrador é descoberto pelos espiões, que reconhecem nele o mesmo dom (ou maldição) que possuem: a capacidade de prever traições ao surpreender em rostos e gestos o comportamento futuro das pessoas. Sem saber exatamente por quê, o ex-professor começa a trabalhar para o grupo. Com grande engenhosidade, a narrativa segue no limite entre humor e reflexão. Toda a trama de Seu rosto amanhã se baseia na desconfiança. O passado dos que foram traídos e delatados precisa ser reescrito. A irônica advertência inicial do romance de que "ninguém deveria contar nada nunca" não é (e nem poderia ser) seguida pelo narrador. Se contar é o ofício dos delatores, também é a razão de ser da literatura. "O relato nos afeta mais do que os fatos, mesmo o relato do que nunca ocorreu.", escreve Javier Marías.

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    Alexandre Figueiredo19/03/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Silêncios impossíveis

    Javier Marías é um escritor para leitores pacientes. É uma virtude necessária para aproveitar a densa prosa de um dos maiores romancistas vivos. Aqui, a literatura ligeira não tem vez. O primeiro volume do monumental "Seu rosto amanhã", dividido em três tomos, propõe, como de costume na obra deste espanhol, uma discussão de cunho filosófico. Interessa a Marías muito mais a reflexão do que a ação, mesmo que a trama envolva espionagem. E a grande questão desta vez é: o que está implícito no ato de contar? À primeira vista pode parecer uma pergunta confusa, sem propósito, mas vou me arriscar a explicar. Você, por exemplo. Já parou para pensar quantas vezes no dia a dia temos a oportunidade de saber algo que não devia ser revelado? Ou ainda contar algo que não devia ser compartilhado? A palavra, mas mais do que ela, a comunicação, é perigosa. Não importa se é apenas uma fala, um olhar ou um gesto. Comunicar algo a alguém nos torna vulneráveis a qualquer momento - e não é preciso ser um espião para saber disso. Para além das consequências da decisão de não se calar, Marías medita sobre o poder do segredo e a fragilidade da confiança. Afinal, os mortos não podem contar, esse é um ato pertencente somente aos vivos e por isso é tão delicado. Aos mortos, como as páginas mais inspiradas do romance nos revelam com maestria, pertence apenas a permanente segurança do silêncio. Mas chega de divagar, voltemos às questões mais formais do livro. Uma maneira interessante de entender o estilo do autor pode ser sintetizada na frase de Laurence Sterne, um dos ídolos literários de Marías, sempre repetida em entrevistas concedidas por ele: "eu avanço enquanto eu digressiono". Aliás, digressão é a palavra-chave para entender - e entrar - em qualquer obra do espanhol. A capacidade, muitas vezes cansativa, que ele tem de tirar o foco da história principal e retornar ao exato ponto perdido após páginas e mais páginas de reflexões é, goste você ou não, impressionante. Outro ponto a salientar é a característica possessiva de quem narra. Narrada em primeira pessoa, a história é por vezes levemente claustrofóbica. O poder e a falta de abertura exercidos pelo narrador para com os leitores me irritou um pouco, pois me senti sufocado em certos momentos. Outras críticas importantes devem ser feitas aqui. Uma delas é a ausência de personagens femininas relevantes. Em mais de 400 páginas acompanhamos a conversa entre dois homens, um idoso e outro na meia-idade, se eu quiser resumir precariamente o livro. Mas isso pode mudar no segundo e terceiro volumes (eu espero). Há também o fato da condição socioeconômica das personagens se passar num microcosmo ínfimo: todas são eruditas, no mínimo bilíngues e provavelmente nunca passaram dificuldades para pagar contas. Isso reflete claramente a personalidade do autor, homem branco, hétero, europeu, erudito e rico, mostrando, portanto, certa miopia para problemas essenciais do nosso tempo. Mesmo assim, Marías ainda consegue abordar com competência as mazelas humanas que não distinguem cor, gênero ou condição social. Em seu primeiro volume, intitulado "Febre e lança", o romance "Seu rosto amanhã" é uma experiência válida para quem conhece o terreno que pretende entrar. Aos não iniciados, o clássico contemporâneo "Coração tão branco" ou o ótimo "Os enamoramentos" soam como opções mais interessantes para conhecer o pensar literário de Marías. Agora resta descobrir o que os misteriosos Peter Wheeler e Bertram Tupra reservam ao protagonista do romance, Jacques Deza, e a nós, (nem tão) inocentes leitores.

    103 curtidas

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    Avaliações

    4.1 / 62
    • 5 estrelas39%
    • 4 estrelas39%
    • 3 estrelas15%
    • 2 estrelas3%
    • 1 estrelas5%
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    Javier Marías Franco

    Escritor, tradutor e editor espanhol. Nasceu em Madrid em 20 de setembro de 1951 e faleceu em 11 de setembro de 2022 devido a uma pneumonia bilateral em decorrência da covid-19. Considerado o principal escritor espanhol da segunda metade do século XX e início do século XXI, ocupava a cadeira R da Real Academia Española (RAE) desde 2008. Formado em Filosofia e Letras, com especialização em Filologia Inglesa, pela Universidade Complutense de Madrid, foi professor de Literatura Espanhola e Teoria da Tradução na Universidade de Oxford (1983-1985), no Wellesley College de Massachusetts (1984) e na Universidade Complutense de Madrid (1986-1990). É autor de contos, ensaios, crônicas e 16 romances, entre eles "Coração tão branco" (1992), "Amanhã, na batalha, pensa em mim" (1994), "Seu rosto amanhã" (2002-2007), "Os enamoramentos" (2011), "Assim começa o mal" (2014), "Berta Isla" (2017) e "Tomás Nevinson" (2021). Era Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras da França.

    88 Livros
    59 Seguidores

    Javier Marías Franco