‘’The Body Artist’’ mudou a minha vida. Li sua tradução, publicada no Brasil pela Companhia das Letras, como ‘’A Artista do Corpo’’, alguns anos atrás, e mesmo achando a tradução canhestra (desajeitada, elíptica, mas não ruim), sabia — sentia — que havia algo especial ali. Ler o livro no original apenas serviu para corroborar meu pensamento.
A obra conta a história de Lauren Hartke, casada com Rey, que após a morte do marido, logo nos capítulos iniciais, decide viver por um tempo na casa de praia que possuem. Lauren pratica o body art. Assim como Marina Abramović, para usar um exemplo mais tangível, ela usa a si mesma para explorar as possibilidades físicas e mentais do corpo, do ‘’ser’’, humano. Em tal performance, o artista é objeto e palco. O corpo é utilizado para sublimar sua noção de comunicador de ideias, meio de expressão. Arte não apenas conceitual, vide Marcel Duchamp, mas, nesse caso, literalmente viva.
Os acontecimentos começam a ficar nebulosos quando, numa manhã, Lauren encontra, em um dos inúmeros quartos da casa, um homem. Ela não sabe quem é. Não sabe como ele entrou ali e por quanto tempo está naquele cômodo. Aquele individuo deixa Lauren extremamente perturbada; ele desarranja a lógica das coisas.
O homem, de modo sinistro, aparenta ser extremamente velho e, ao mesmo tempo, jovem; sua fisionomia é, simultaneamente, elusiva e alusiva. Ele não tem nome, ou não quer dizer, não sabe como dizer. Talvez não saiba o que ‘’nome’’ significa. Quando, finalmente, diz algo, tropeça nas palavras como uma criança e, Lauren percebe depois, são apenas fragmentos de conversas da própria Lauren. O intruso é capaz, em semelhante desalinho, de imitar o corpo dela, seus movimentos diários, inconscientes.
O que me cativou em ‘’The Body Artist’’ foi a verve com que DeLillo, vencedor do National Book Award por ‘’Ruído Branco’’, trata sua sintaxe. Assim como o intruso na casa de Lauren, ele utiliza adjetivos, à primeira vista, incoerentes; posiciona advérbios como verbos. DeLillo, aqui, encara o oficio do escritor tal qual a própria Lauren faz de seu corpo objeto de arte: distende as palavras, flexibiliza, comprimi; efetua um conjunto de exercícios musculares na narrativa.
DeLillo, assim como Henry James, James Joyce e Henry Green, entende que linguagem é poder dentro de uma narrativa. A linguagem é a narrativa, não apenas uma ‘’forma’’ para o ‘’tema’’, mas, também, o tema em si. Estética é ética.