Eu, na leitura deste texto, oscilei entre um possível "duas estrelas", até ele ir me ganhando aos poucos, finalizando com cinco estrelas tranquilamente. Ele segue o detestável estilo acadêmico, com todos os seus cacoetes e exageros; porém é capaz de mudar a nossa forma de pensar. Assim, merece a indicação e a leitura.
Um dos principais focos é a semelhança entre a leitura e o erotismo. Por ser um ensaio bem "maluco" (com muitas ideias jogadas, sem muita preocupação em amarrá-las), isso não é desenvolvido em todo seu potencial; porém nos deixa margem para pensar. O texto é como um decote: opera modos de ocultação e revelação, sempre oscilando entre dois polos. É nesta fenda que se encontra o prazer do texto.
Outro tema bastante recorrente é a tensão entre prazer e fruição. O tradutor alerta aqui que o "jouissance", do francês, estaria mais para o gozo, mas que, para manter certa melodia da palavra, optou pela fruição. E aqui temos algumas pistas desta última, privilegiada em relação ao prazer.
Aliás, é possível fruir até de um texto aborrecido; ele está distante de ideologias; e é sempre captado numa tacada só, de maneira antecipatória.
Nem sempre é possível compreender o complicado raciocínio do autor, mas pelo fato de ser um texto bastante rápido, conseguimos vencê-lo em uma ou duas leituras e entrar um pouco no seu "clima" (o que, na verdade, é mais importante que um entendimento literal, fechado do texto). O ensaio cumpre o seu papel e nos enche de questões e novas formas de ver.
Às vezes peca um pouco pela erudição exagerada, uma erudição meio vazia e que serve para atrapalhar o texto. Isso, no entanto, pode ser visto como um dos seus charmes.
É um pensador ousado, ao mesmo tempo incoerente: mas que, ao mesmo tempo, não tem nenhuma preocupação em ocultar isso. Suas pegadas de pensamento são deixadas claras, para o leitor ver (e acompanhar, se quiser). Pensadores como Marx e Freud passam pelo seu pensamento e apanham do autor; e ainda assim, são depois recuperados, fundamentando novas ideias (como, por exemplo, uma crítica a ideologia pequeno-burguesa).
É um texto ágil, complicado, nos escapa da mão, ri da nossa cara e nos propõe ideias extravagantes sobre o simples ato de ler, colocando este ato para fora de um racionalismo fechado e mastigadinho, que o quer encaixar em teorias ou teses pré-estabelecidas. Recomendadíssimo, ainda que não seja uma leitura simples.