Hoje a Cuca aqui vai falar do fim do mundo. Afinal, dia 21 de dezembro está aí, e temos que nos preparar. Pessoalmente, acho que vai ser um apocalipse zumbi, mas nessa antologia de contos vários autores imaginaram o fim dos tempos; cada um ao seu modo, cada um com sua própria visão apocalíptica do dia que todo mundo fala há tanto tempo – mas ainda bem que nunca acontece.
Sendo uma antologia de contos de diversos autores, é notável a diferença de qualidade entre eles. Lendo todos, percebe-se que algumas obras são ótimas, outras são boas mas tem algo a melhorar, e alguns autores tiveram boas ideias, mas faltou alguma coisa na execução. É algo perceptível e absolutamente normal, afinal, são autores iniciantes, e o texto de um escritor sempre tem o que melhorar – sempre. E uma das melhores coisas em livros assim é conhecer autores novos, que estão se esforçando para entrar em um mercado tão complicado e competitivo, e à sua maneira, enriquecem nossa literatura. E dar oportunidade a autores assim é algo notável.
A edição do livro está impecável, um ótimo trabalho. É um daqueles livros que ficam ótimos na estante, e não “apenas” pelo conteúdo. Mas vamos concordar que aparência é importante, e a editora merece aplausos pelo capricho.
Mas quanto aos contos, duas coisas me chamaram a atenção – de maneira boa e ruim. A boa notícia é que temos muitos contos retratando o fim do mundo no Brasil ou sob o nosso ponto de vista, e ainda outros retratando em um mundo alternativo, sem especificar exatamente onde, ou mundos quase fantásticos. Isso é ótimo, principalmente a parte sobre histórias retratadas no nosso país (OK, vocês sabem que eu sou uma defensora de histórias de autores nossos e que se passem aqui mesmo na nossa terra, mas bem, isso é porque eu sou a Cuca). Afinal, eu adoro ver filmes e ler livros estrangeiros, mas às vezes sinto falta dessas histórias aqui mesmo, histórias de terror, histórias apocalípticas, fantásticas, aqui mesmo, inseridas na nossa cultura e nossa vivência.
A má notícia é que há histórias no livro que não correspondem a essa (minha) expectativa. Talvez seja bom, diversificar, mas – e isso é totalmente minha opinião – eu gosto muito mais de ver autores brasileiros criando histórias por aqui, do que criando histórias nos EUA, na Inglaterra, no Japão, ou em qualquer outro lugar. Não é regionalismo… é questão de apreciar histórias que falem a nossa língua, e isso não quer dizer apenas o português, mas sim a nossa vivência.
Um ponto muito positivo no livro é que os contos em sua maioria nos levam à reflexão. Aliás, o organizador foi muito feliz em escolher contos que, mesmo em pequenas coisas, fizessem o leitor refletir sobre o que estamos fazendo ao nosso mundo, sobre conceitos como esperança, caridade, consciência, respeito, abnegação e até mesmo ecologia. Foi algo que me impressionou bastante, principalmente em alguns contos. Se o mundo acabar, acredito que a culpa será nossa, e não de um fator externo qualquer que seja “malvado” ou uma mera coincidência cósmica. Nós estamos acabando com o mundo, de um jeito ou de outro, e precisamos parar urgentemente.
(Apesar disso, tem um conto maravilhoso sobre o final do mundo através de um perigo que veio do espaço. “Os Cavaleiros do Apocalipse”, de Gabriel Valeriolete. E assim como a maioria na antologia, esse conto nos leva também a uma reflexão.)
Já que estou falando dos contos, vou citar alguns em destaque, que me impressionaram de maneiras diversas e algumas vezes surpreendentes.
“O Cálice”, de Alex Mir, é completamente aterrorizante. E por isso me conquistou – já que, se existe algo que eu adoro ler, é terror.
“A Luz do Céu, A Luz da Alma”, de Andy Azous, é sublime e de tocar o coração. Eu realmente me emocionei. E senti um calafrio ao pensar nas criaturas de luz.
“Uma Canção para o Fim”, de Melissa de Sá, é poético e fantástico. O leitor consegue notar o universo complexo que foi criado na cabeça da autora ao escrever o conto e, apesar disso, a história possui começo, meio e fim, e nada fica faltando.
“Cerebrum Dominus”, de J. E. Scumparim, é um dos contos que mais me impressionaram na antologia. Fiquei na ponta da cadeira até chegar ao final. Direto e eletrizante, foi incrível como o autor conseguiu cativar o leitor em poucas páginas.
“Os Sete Selos”, de Danilo Pelloso, também é outro conto aterrorizante; ele reserva uma surpresa no final que faz o leitor parar de ler o livro por alguns instantes para conseguir respirar.
“Inumano”, de Juliana Lira, é outro conto tocante e reflexivo, uma daquelas histórias que ficam na cabeça após a leitura.
“Viagem ao Fim da Terra”, de Valter Pires, me conquistou por ser tão tipicamente brasileiro e trazer uma mensagem tão importante.
Por fim, “Dedetização Humana”, de Lucas Janini, bem, terei que ser sincera: é nojento, mas eu adorei. Lembrou-me de “A Metamorfose”, de Kafka, mas de uma maneira apocalíptica. E eu adoro essas coisas.
O livro ainda tem muitos outros contos, todos com seus méritos, que renderam uma ótima leitura. Ler “Dias Contados – Volume III”, da Editora Andross, é certamente uma ótima experiência, e ainda vale para você se preparar para o fim do mundo.
(Mas ainda acho que o apocalipse será de zumbis!)