Como entusiasta do noir, ao me deparar com a nota baixa desse livro no Skoob, deixei a leitura para o fim das minhas prioridades. Já havia lido outros livros de Himes e achava tudo caricato e exagerado demais, então uma avaliação fraca não poderia dizer menos do que "não tenha pressa em pegar esse aqui".
Que grande erro. Não apenas o melhor livro do autor, arrisco dizer que também é uma das experiências mais potentes para compreender questões raciais.
Vou poupar aqui elogios à estética, não porque não seja boa, mas porque é o fator menos chamativo da prosa de Himes. Acho que qualquer leitor, entusiasta de mistério ou não, teria muito a ganhar após correr por estas 229 páginas. E portanto, deixo aqui três porquês:
1# Este livro inspirou as ideias de Frantz Fanon
Exatamente isso que você leu. O livro de Himes foi criticamente aclamado na Europa especialmente na França, onde o psiquiatra Frantz Fanon, ao se deparar com este livro, encontrou na experiência do narrador, Bob Jones, um cenário tão familiar e, ao mesmo tempo, tão estudável. Ao se debruçar sobre os exemplos do livro, Fanon dedicou um capítulo inteiro de Pele Negra, Máscaras Brancas, aos estudos de negritude.
2# É uma das experiências mais empáticas de literatura
Noir, em seu coração, sempre englobará conflito de classe. O mundo é desagradável porque os perdedores percebem como o jogo é combinado desde o começo. Um noir ruim (e existem tantos) está preso à estética do gênero. Um noir bom é, sobretudo, um romance de protesto. Se Ele Chiar Deixa Rolar é isso em seu máximo. E também é uma experiência empática de altíssimo valor. Porque a perspectiva que Himes apresenta ao longo da história torna sensível a visão de mundo e linha de pensamento de um homem negro numa sociedade racista.
#3. Exemplo perfeito entre enredo e ativismo político
O problema de uma "novela de ideias" é que sua estrutura, muitas vezes, atende mais ao princípio temático da narrativa, negligenciando enredo. É quase como se não houvessem personagens, mas sim "argumentos com pessoas". Como resultado, existe o risco de se tornar uma narrativa enfadonha.
Não espere isso deste livro. Himes equilibra todas estas ideias num enredo em que, por quatro dias acompanhando a vida do narrador, encontramos uma vasta gama de experiências que tornam quase tangíveis tais ideias. E tudo isso numa narrativa sólida, com todos os melhores exemplos de reviravoltas do noir.
Leia este livro se estiver procurando uma narrativa que combine entretenimento com ideias pungentes e concretas sobre o racismo estrutural. Ou se você quiser entender o que é um romance de protesto em seu melhor.